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Não pergunte

[Público 16 janeiro 2008]

A conclusão é que os gestores portugueses têm de ser bem pagos porque sim.

Consideremos como uma menção de Cavaco Silva aos salários dos executivos de empresas foi recebida em Portugal. Os adjectivos mais usados: “populista” e “demagógico”. Encontramos também “infeliz” e “insólito”. Na Quadratura do Círculo da SIC o panorama foi tão variado como o electrocardiograma de um cadáver: Pacheco Pereira optou pelo “populista e demagógico”, Lobo Xavier pelo “infeliz e insólito” e Jorge Coelho achou que “não fazia sentido” falar do assunto. O presidente foi até acusado de, crime dos crimes, “ter piscado o olho à esquerda”.

A reacção generalizada foi resumida pelo Jornal de Negócios assim: “Falar em desproporção salarial é «ceder à demagogia»”. Reparem bem, não é fazer algo. Não é pensar em fazer. É simplesmente falar do assunto. Ou, como fez o presidente, “interrogar-se” sobre se seria “justificada” a diferença entre os salários dos administradores e os dos colaboradores.

Temos às vezes a impressão errada de que a maioria da opinião publicada em Portugal é conservadora. Infelizmente, é pior do que isso: limita-se a ser uma reacção instintiva de protecção do status quo.

***

Curiosamente, é preciso ir à imprensa económica para encontrar uma cantiga diferente: um editorial do Jornal de Negócios considerou que a referência de Cavaco Silva “faz todo o sentido”. E onde lemos, já há bastante tempo, que os administradores do BCP estavam a “ir ao bolso” dos seus accionistas com os altos salários de que usufruíam? No Wall Street Journal, nem mais nem menos. Em Portugal seria impossível escrever com uma clareza destas.

Porém, como revelou um estudo especializado da Mercer, Portugal é o país da UE em que a diferença salarial é maior: os administradores ganham trinta e duas vezes mais do que os funcionários, contra quinze vezes em Espanha, quatorze vezes no Reino Unido e dez na Alemanha. E isso não é só porque os funcionários ganham pouco: os altos gestores portugueses ganham os segundos melhores salários da UE, em termos absolutos, só atrás dos ingleses.

E o que nos dizem a isto os defensores do status quo? Que os gestores, para serem de qualidade, têm de ser bem pagos. E que os gestores portugueses têm de ser bem pagos porque a qualidade não abunda. Sim, é contraditório. Sim, é circular. A conclusão é que os gestores portugueses têm de ser bem pagos porque sim.

Em 2006 os administradores do BCP receberam 3 milhões de euros de vencimento, cada um. Entretanto, esses génios da finança destruíram a credibilidade do banco, perdoaram empréstimos a familiares e amigos e, só nos últimos seis meses, o banco perdeu um terço do seu valor. Pior ainda, corre uma investigação por suspeitas de terem enganado a bolsa criando empresas off-shore para comprar as suas próprias acções.

Pergunto-me se não deveríamos antes contratar gestores alemães, que ganham menos e não consta que sejam piores nem mais vigaristas. Mas não quero ser populista nem demagógico. Eu sei que nos EUA toda a gente faz este debate. Na Alemanha, o governo conservador de Angela Merkel fala em intervir para tabelar os salários dos gestores. Mas em Portugal é melhor nem nos interrogarmos: é insólito.

Comments

Sr. Rui Tavares:

Assino por baixo!

No dia 11 deste mês, em comentário a um "post", no "blog" Floresta do Sul - intitulado "Mais que Alcochete, a indiferença" - fiz o comentário que passo a transcrever, na parte que interessa:

«Por um lado, é certo que – salvo raríssimas excepções - os governantes não sentem nem querem sentir a verdadeira dimensão dos problemas dos mais pobres, isto é, daqueles que passam grandes privações, quer sejam económicas, sociais ou até de cuidados de saúde.

Eles são de outra esfera, sentem que têm um mandato “divino” e não um mandato popular (no fundo, há muito mais monárquicos do que o que parece).

Dizem que os portugueses têm que fazer sacrifícios e ao mesmo tempo defendem que os gestores, tanto da “coisa pública”, como da esfera privada, ainda estão mal pagos, mesmo que alguns ganhem 100 vezes mais do que a média dos seus próprios “subordinados” (como eles gostam desta palavra!).
O cínico argumento utilizado, é que - se houvesse alguma contenção na sua retribuição - o que se poupava, dividido por todos, não seria significativo. Pasme-se!

Quer dizer, sacrifício para todos, menos para eles, que são quem precisamente apela aos ditos sacrifícios. E não há jornalista, nem moderador, em tantas mesas redondas, que ponha, ao menos, esta questão elementar: e onde está a solidariedade nacional perante os sacrifícios? Acham bem colocarem-se de fora, relativamente a um apelo que é vosso? Mesmo que, sob o ponto de vista de redistribuição, isso possa ser irrelevante?

Não querendo alongar-me muito mais, queria apenas desmontar outra falácia: a de que sendo poucos os gestores de topo, é necessário pagar muito aos que são bons. Poucos, porquê? Ninguém diz, ninguém pergunta. Poucos, porque esses lugares são escolhidos segundo o critério “cartonado”, fazendo com que muitas pessoas, com “curriculum” para os alcançar, nunca cheguem a ter quaisquer hipóteses. Haverá sempre uma “vara” desconhecida que se lhes atravessa no caminho. Haverá sempre um “delfim” que chega primeiro.

Mas, se algum dia, Portugal conseguir “respirar” um pouco melhor, logo virão os mesmos dizer: Fizemos sacrifícios, mas valeu a pena. Fizemos… »

Sr. Rui Tavares: O seu "blog" é hoje um dos poucos oásis onde se pode respirar ar puro.

Cumprimentos.





Já agora, a despropósito e por curiosidade, diga-me uma coisa: a sua colaboração com o Público terminou? Por aalguma razão especial?

Acho bem que o Rui Tavares concentre a atenção nesses senhores e lhes ponha a nu a sua pobreza intelectual e de espirito. Quer se queira quer não, esses senhores ainda formam a opinião de muitas pessoas. É triste mas é verdade.

O meu primeiro instinto foi dizer que não vale a pena perder mais tempo com esses senhores. Mas é um instinto errado. Vale a pena, sim senhor. Especialmente quando se tem o brilhantismo de desmascarar que por trás da pose e estatuto desses senhores, mora uma pobreza intelectual confrangedora.

Falo em pobreza intelectual e não em egoísmo/egocentrismo por querer acreditar que esses senhores, apesar de usufruírem de mordomias escandalosas, ainda têm alguma réstia de humanidade. É apenas o facto de não conseguirem alcançar que tudo poderia ser diferente, como o é em muitos países do mundo. Basta ver um bocadinho mais longe. E os nossos ditos intelectuais nem isso conseguem. Pobre país.

"E onde lemos, já há bastante tempo, que os administradores do BCP estavam a “ir ao bolso” dos seus accionistas com os altos salários de que usufruíam? No Wall Street Journal, nem mais nem menos."
Os portugueses são (ainda) um povo dominado. Aceitam conformados todo o domínio dos poderes, em especial do poder administrativo público, sem qualquer capacidade para se libertarem, associarem e lutarem pelos seus interesses de grupo. Nem mesmo os sindicatos têm já qualquer relevância, porque os trabalhadores estão completamente alienados do interesse comum. Aliás, toda a acção legislativa sobre o trabalho tem vindo a destruir a negociação colectiva, favorecendo o isolacionismo daqueles cuja única riqueza é a capacidade para trabalhar. Tenho apoiado com o meu blogue a luta do movimento FERVE, contra esta hipocrisia vigente nas falsas relações de prestação de serviços independentes, com uso indiscriminado dos recibos verdes.
Esta vontade de sujeição deste povo está bem expressa na opção que fez por esta maioria (dita) socialista autoritária. O seu texto está ainda muito bem complementado pelos seus comentadores, que são de fazer inveja. :(

Tendo em atenção a boa escrita que aqui se pratica e o declarado interesse do autor deste blogue por livros, permitam-me que vos desafie para o passatempo com prémio que decorre lá pelo meu sítio. Conto com a vossa participação. ;)

vale sempre a pena insistir e ligar a essa gente e tentar mudar-lhes o pensamento.

mas não é um banco privado?
ou fala-se do que se paga no BCP (privado)para não se falar da Caixa e das ,aí sim, mordomias dignas de Suleiman, o magnífico?

Concordo. Este país vive para alimentar uma camada da população que não produz e para outros que produzem o suficiente para serem despedidos e não encherem os bolsos.
Aguardo, contudo, o seu texto sobre os primeiros. E voltarei a concordar consigo ( o que não é frequente e nem eu gosto).

Muito bom!
Saudações,
VA

Fortemente de acordo!
É pena as suas ideias correrem melhor na escrita que na conversa televisiva.Talvez pelo ambiente (SIC) se pelo Melga que o vampiriza, acho que existe ali uma osmose que lhe suga todo o pensamento critico de esquerda que leio e releio nos seus escritos. Talvez o condicionamento seja meu, mas já não tenho esperança de assistir comentários de esquerda nas TV's, parece que quando ali vão estão constrangidos, com vergonha.

Eu sei lá o que são 3 milhões de euros. Nunca saberei.

E isto é uma afirmação que é importante fixar, a propósito dos nossos fazedores de opinião: "uma reacção instintiva de protecção do status quo".

http://ensinoartisticoedespesaspublicas.blogspot.com

Bravo !

Faço minhas estas palavras, sem acrescentar uma vírgula.
É exactamente o que penso e que demonstrei ao JM do Blasfemias ao comentar o artigo publicado no DN.

Gostei do blogue que irei acrescentar aos meus preferidos.

ps; a imagem http://ruitavares.weblog.com.pt/pemelhor2.jpg não é visível.

epá visite
http://malhorijo.blogspot.com/

saudações rijas

olá,

um pingback manual:

http://vejotudoenaomorro.wordpress.com/2008/03/03/e-por-que-nao

abs :)

mein lieb freund,
qd a fama vem sem al um lisboeta acha anormal.
ich vermisse du, tu me maqnue.
você é fantástico, tou cansado de ouvir falar bem de si.
amanhã entrego a carta para a MELnifestação, conto consigo.
qd o vejo?

tou velho, vou seeeer bitiiiiiio,
talvez faça mon frére oncle,servia de fisioterapia, pelo menos treinar.
vou escrever aqui tits sex e hass para ver s aparece no google.

zm
ps acredita em deus?
ps: há 2 part socialistas
ps: se o meu mano ler isto chama-me 'repetitivo'

Por que é que este blogue morreu?

Não me digam que este bilogue é do Senhor que me levou a deixar de comprar o Público?
Se sim, sorry. Não consigo mesmo concordar consigo. Mas as diferenças, respeitam-se.

tem graça eu comprar uma vez por semana por tua causa.Queria falar do iraque.Tudo foi discutido á exaustão só não vi ninguém defender o que me parece óbvio:os EUA invadiram quando tiveram a certeza absoluta da não existência de ADM que poderiam ser uma maçada para Israel.
Um abraço

1 2 3 experiência

1 2 3 experiência

1 2 3 experiência (é só mais esta vez)

Caríssimo “Pobre e mal agradecido”, tal como digo no início do meu post "Argoladas", fui “... desafiada pelo Antropocoiso, a dizer 6 coisas que não me importo de fazer ou de ter. Como as regras já têm vindo a ser subvertidas na sua demarcação “ter e fazer”, quem sou eu para quebrar correntes. Passo a bola ao Ex.mo Sr. Rui Tavares que, muito melhor que eu, saberá repor ordem na tasca.” Como se percebe não posso deixar de o convidar.
Pode não querer entrar em “comboios” mas este último desafio julgo que será bem mais aliciante.
Uma sincera admiradora
Marta

yesssssss!!!

Peço desculpa pelas experiências anteriores e pelo meu presente entusiasmo mas . . . descobri!
Ando há dois dias a tentar deixar aqui um convite e a mensagem de erro tem sido sistemáticamente "SPAM". Não aceita o convite nem à lei da bala. Podia ter desistido, o Rui terá mais que fazer do que entrar nestes embrulhos mas fiquei curiosa, resolvi experimentar e . . . a caixa de comentários não aceita endereços electrónicos (esperta).
Com a ceteza do dever cumprido (deixei o convite) . . . até à vista
Marta

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