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A eleição do ano

[Público 02 janeiro 2008]

Acho que Edwards seria o melhor candidato. Mas sintomaticamente para mim ou para os aparelhos partidários, parece que é o que tem menos hipóteses de ser escolhido.


Amanhã os eleitores democráticos do estado norte-americano do Iowa (menos de um por cento da população do país) vão encontrar-se em locais públicos para escolher o candidato do seu partido às presidenciais. Não vão exactamente votar, mas somente juntar-se ao grupo de apoiantes que preferirem num canto da sala, e meia hora depois repetir o processo para redistribuir o apoio dos candidatos “inviáveis” pelos “viáveis”. Uma semana depois, os eleitores democráticos do New Hampshire (menos de meio por cento da população) votam em eleições primárias. Se tudo correr com normalidade o candidato democrático fica praticamente escolhido. Os republicanos passam por um processo semelhante.

Há gente que não perde uma oportunidade de descrever isto como prova de que os EUA são a “mais antiga”, “maior” ou “melhor” democracia do mundo. Não é nenhuma dessas três coisas, não só pelo sistema usado nas primárias, mas também nas presidenciais e sobretudo nas eleições para o Congresso. Mas ao menos é pitoresco e, em certos anos, emocionante. Este ano será um desses.

Os anos de Bush foram um fracasso de que nenhum candidato republicano “viável” consegue distanciar-se (será interessante ver como se sai Ron Paul, o único candidato anti-Guerra do Iraque e anti-imperialista do Partido Republicano, e logo declarado “folclórico”). É aos Democráticos que cabe não perder a eleição do próximo presidente. Como habitual, é duvidoso que o consigam fazer.

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Em princípio, o Partido Democrático escolhe entre uma tripla de luxo: Hillary Clinton (a única mulher), Barack Obama (o único não-branco) e John Edwards (o único sulista: desde que o Partido Democrático perdeu o Sul por causa do racismo só os sulistas Carter e Clinton ganharam as presidenciais pelo partido).

Hillary Clinton tem mais traços decisivos: é detestada por quase metade do país, é mulher de um ex-presidente (depois da dinastia Bush viria a dinastia Clinton), é a mais centrista e é quem menos se distancia da Guerra do Iraque. Logo, é a escolha do “aparelho partidário”, o que demonstra que o dito aparelho sabe mesmo como perder eleições.

Ao contrário dela, Obama e Edwards apresentam-se como vagamente anti-sistema e favoráveis a uma renovação política com referências implícitas a Kennedy (em Obama) e FD Roosevelt (em Edwards). Mas as estratégias são opostas: Obama diz aquilo que as pessoas gostariam que fosse verdade: que a mudança nasce com um discurso positivo e esperançoso. O que Edwards diz, por outro lado, é simplesmente a verdade: que a mudança é difícil, que encontrará muitas resistências e que só poderá acontecer através de uma atitude combativa.

Acho que Edwards seria o melhor candidato. Mas sintomaticamente para mim ou para os aparelhos partidários, parece que é o que tem menos hipóteses de ser escolhido.

Gosto de Obama, como quase toda a gente. Mas não gosto de apenas “gostar” de um político, menos ainda de um discurso feito das emoções e dos “instintos”, mesmo que os instintos de Obama sejam próximos dos meus. Simplesmente, não me parece boa política ou, se quiserem, boa pedagogia democrática: para decidir com o “instinto” já bastou Bush.

Enfim, qualquer dos dois pode ganhar as eleições a um republicano, o que é bom e igualmente indiferente na perspectiva pragmática de quem deseja ver o bushismo enterrado. Apenas desejo que entre o início e o fim das suas reuniões no Iowa, os apoiantes de Edwards e Obama se coloquem do mesmo lado da sala e superem os apoiantes de Hillary Clinton.

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oh my god....
A SEIVA

Sr. Rui Tavares: So do I!

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