Uma voz isolada
[Público 03 dezembro 2007]
Para a esquerda, estar no governo não chega: é preciso fazer algo com isso. As expectativas de mudanças e correcções de injustiças são altas e o risco de frustração é altíssimo.
O artigo de Ana Benavente no Público de ontem, intitulado “Será este o país que queremos?”, é o mais frontal ataque a Sócrates vindo de alguém que milita no mesmo partido. É interessante a vários níveis, desde logo porque se distancia também do tipo de oposição intermitente e temperamental que caracteriza os chamados alegristas. A passagem-chave, que contém ambos os distanciamentos, é esta:
“Não me revejo neste partido calado e reverente... Uma parte dos seus actuais dirigentes são tão socialistas como qualquer neoliberal; outra parte, outrora ocupada com o debate político e com a acção, ficou esmagada por mais de um milhão de votos nas últimas presidenciais e, sem saber que fazer com tal abundância, continuou na sua individualidade privilegiada.”
A isto segue-se uma cadeia de questões, motivadas pela estratégia de combate ao défice que Sócrates pôs em marcha. Ana Benavente pergunta-se se “Teria sido necessário aumentar as diferenças entre ricos e pobres? Criar mais desemprego? Enviar a GNR contra grevistas no seu direito constitucional? Penalizar as pequenas reformas com impostos?” e muitas outras coisas semelhantes, cada uma das quais encerra um debate infindável em si mesmo.
Não tenho pretensões de saber resolver nenhuma destas perguntas, mas é muito importante que alguém as faça e não as contorne como se fossem um elefante no meio da sala. Ana Benavente não tem peso suficiente dentro do PS nem representa uma “ala” que possa pôr em causa o equilíbrio ou a disciplina da casa, embora o seu exemplo chegue pouco depois de Mário Soares ter também dito que agora “é preciso governar mais à esquerda”. Mas por não ser do aparelho partidário nem do parlamento, Ana Benavente usa a sua liberdade para aquilo que muitos políticos, preocupados com a micro-gestão da sua carreira, não conseguem fazer.
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Um governo de esquerda é diferente de um de direita e encerra anseios e frustrações diferentes. Para a direita, especialmente uma tão conservadora como a portuguesa, o exercício do poder faz parte da ordem natural das coisas: o governo serve para manter, o mundo é que tem a triste mania de mudar. Aliás, se o governo falhar isso só serve para reforçar o seu conservadorismo. Para a esquerda, estar no governo não chega: é preciso fazer algo com isso. As expectativas de mudanças e correcções de injustiças são altas e o risco de frustração é altíssimo. Quando a esquerda sai do governo o seu progressismo raramente vem reforçado, mas antes minado por dúvidas e ansiedades.
Este ciclo contribui para firmar à esquerda o derrotismo, e até um certo prazer em se sentir derrotado. Para uma parte da esquerda, o governo perde o seu interesse e o que resta é cada um “mudar o mundo no seu cantinho”, onde geralmente se muda muito pouco. Outra parte fica tão convencida da sua razão que acaba por perder o contacto com a sociedade que diz defender e entrar num modo de resistência permanente que é de um grande conservadorismo. E os restantes ficam mesmo convencidos de que é mau ganhar eleições e ter de convencer a maioria dos nossos concidadãos. Mas ganhar eleições e convencer maiorias, coisas que dão muito trabalho, são a melhor lição que a pedagogia democrática encerra: a de que as coisas que dizem respeito a todos não se fazem contra a vontade de todos.
Uma coisa é ter vontade de mudança; outra é fazer algo para que as coisas mudem. E é por isso que, politicamente, só contam os desabafos que anunciam a vontade de brigar.