À terceira só cai quem quer
[Público 05 dezembro 2007]
Este relatório não é um revés: é uma fossa para a credibilidade de uma guerra preventiva contra o Irão ainda durante o mandato de Bush.
Há mês e meio, numa conferência de imprensa na Casa Branca, George W. Bush falou da terceira guerra mundial. Assim mesmo a despropósito, porque o tema não tinha aparecido na pergunta do jornalista: “já disse às pessoas que se estão interessadas em evitar a IIIª Guerra Mundial, parece-me que deviam estar interessadas em impedir os iranianos de obter o conhecimento necessário para fazer uma arma nuclear”.
Dezasseis agências de espionagem e informação dos próprios EUA lançaram agora um relatório sobre o Irão e armas nucleares. As conclusões são claras: “consideramos com alto grau de confiança que Teerão parou com o seu programa para obter armas nucleares no Outono de 2003”. Mais: “consideramos com alto grau de confiança que o Irão não terá capacidade técnica [...] para obter uma arma antes de 2015”. Noutra passagem: “a data mais próxima possível em que o Irão poderia obter uma arma nuclear seria o final de 2009, mas consideramos que isto é altamente improvável”.
Este relatório não é um revés: é uma fossa para a credibilidade de uma guerra preventiva contra o Irão ainda durante o mandato de Bush. E como respondeu o próprio? Assim: “já disse que o Irão é perigoso e o National Intelligence Estimate [nome oficial do relatório] não faz nada para mudar a minha opinião sobre o perigo que o Irão representa para o mundo”. Numa só frase encontramos “perigo” e “perigoso” duas vezes. No total, Bush repetiu-as por vinte e duas vezes em poucos minutos.
Já agora, voltemos também à frase de Bush lá acima: não deve ser por acaso que Bush nunca se refere aos iranianos obterem uma arma nuclear, mas antes a obterem “o conhecimento necessário” para a fazerem. Assim se baixa a fasquia a partir da qual o Irão se torna bombardeável.
No meio disto, Bush fugiu à pergunta fundamental. Ele já conhecia esta informação. Nós só agora lhe tivémos acesso, mas ela foi-lhe prestada directamente, por agências do seu próprio governo, durante os últimos meses. Como se explica que sabendo com muita confiança que o programa iraniano de armas nucleares não existe desde 2003 ele tenha vindo assustar-nos com a IIIª Guerra Mundial ainda há poucas semanas?
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E já que estamos nisto, esta informação tampouco é nova para a opinião pública mundial. Há bastante tempo que a própria ONU, através da Agência Internacional para a Energia Atómica, coloca em causa a existência de um programa iraniano de armamento nuclear.
Sabemos que para os EUA isto quer dizer pouco. Os partidários de Bush minaram o respeito por uma agência que pertence à ONU e é dirigida por um homem com um nome assim: Mohamed el-Baradei.
E no resto do mundo? El-Baradei teve razão antes da guerra do Iraque, como Hans Blix também a teve. Mesmo assim, ainda recentemente José Pacheco Pereira voltou a repetir a história de que toda a gente estava convencida da existência de armas de destruição em massa no Iraque, acrescentando que para ele, anos depois, “ainda não estou inteiramente convencido sobre o que é que lhes aconteceu”. Ora, ora: ao contrário do que pretende José Pacheco Pereira, uma das reviravoltas mais inverosímeis da Guerra do Iraque é como os serviços de informação e as agências internacionais foram primeiro acusados de não querer apoiar a guerra de Bush e depois acusados de terem induzido toda a gente em erro.
À primeira caíram muitos. Era a Guerra do Afeganistão e havia razões plausíveis. À segunda ainda caíram alguns. Era a Guerra do Iraque e tínhamos pretextos esfarrapados. À terceira guerra, são os próprios espiões que vêm dizer: em nosso nome, não. Desta vez só cai quem quer.
Comments
Que direita curiosa a sua, caro Rui.
DD
Posted by: DD | dezembro 10, 2007 03:08 PM