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O evento dos fracos

[Público 27 novembro 2007]

Annapolis é simplesmente uma coisa que tem de se fazer porque se disse que se ia fazer. E para cúmulo, os três principais participantes são líderes fracos.

Há uma semana não se sabia sequer a data certa do que vai acontecer hoje em Annapolis, cidade costeira do estado norte-americano do Maryland. Já lhe tinham chamado “cimeira”, “reunião”, “encontro” e agora — quando não se sabe o que chamar a uma coisa — até se lhe chama “evento”. Esta não-sei-quê de Annapolis foi anunciada como decisiva. Depois foi despromovida para baixar as expectativas. E até já foi declarada um fracasso antecipado, o que é óptimo: a única esperança é precisamente que corra melhor do que esperado.

Annapolis é simplesmente uma coisa que tem de se fazer porque se disse que se ia fazer. E para cúmulo, os três principais participantes são líderes fracos.

Escrevi pela primeira vez que Olmert era um líder fraco quando Israel invadiu o Líbano e os supostos “amigos de Israel” proclamavam que a vitória era certa. Hoje é fácil reconhecer que Olmert é um líder fraco. Mas até a fraqueza tem a sua utilidade. Para os seus “aliados” no governo, que vão desde os trabalhistas até à extrema-direita de Avigdor Lieberman, interessa um primeiro-ministro sem poder real que lhes permita ir reforçando as suas agendas políticas.

Do lado palestiniano, Mahmoud Abbas é ainda mais fraco. Não só não tem um governo como nem sequer tem um país: perdeu a faixa de Gaza e não se sabe por quanto tempo controlará a Cisjordânia. A democracia palestiniana acabou quando os eleitores votaram nos tipos errados — o Hamas — que sintomaticamente não vão estar em Annapolis. Mas a fraqueza de Abbas também tem a sua utilidade precisamente porque o impede de cumprir com a sua parte dos acordos. Isto invalida todo o processo, o que interessa ao Hamas e a Israel.

George W. Bush passou sete anos sem levar a sério a criação do estado palestiniano. Agora, no fim do seu mandato e com a popularidade mais baixa do que nunca, deseja abrir um processo de conversações que vai durar um ano (segundo os israelitas, vai demorar mais) e que deixará todos os assuntos espinhosos nas mãos do seu sucessor.

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Os líderes fracos precisam uns dos outros. Com sorte, conseguirão espremer de Annapolis uma qualquer boa notícia para mostrar ao mundo, desde que em casa ela não seja entendida como uma cedência demasiado grave.

Abbas gostaria de mostrar que conseguiu arrancar qualquer coisa aos israelitas e investimentos na Cisjordânia à comunidade internacional, para convencer Gaza de que escolheu o caminho errado. Olmert gostaria de apertar a mão a um príncipe saudita, para mostrar que “normalizou” as relações com o mundo árabe. E Bush gostaria de fingir que deseja resolver o problema palestiniano para facilitar a vida aos seus aliados árabes, cujos líderes já amansou previamente com negócios de armas (para os sauditas foram vinte “biliões” de dólares, pouco tempo depois de terem ido trinta “biliões” para Israel).

Os sauditas, por sua vez, fazem-se caros. Sabem que são muito desejados, e porquê? Por causa da peça que falta em Annapolis: o Irão.

As consequências das acções americanas no Iraque e no Afeganistão deram ao Irão margem de manobra e liberdade de acção. Hoje o Irão é uma potência regional, com duas características fundamentais: não serem sunitas nem árabes. Como os iranianos são persas, Israel chegou a vê-los como aliados potenciais numa frente anti-árabe no Médio Oriente. Hoje os EUA e Israel correm atrás de uma aliança de sunitas árabes “moderados” (na verdade, ditadores como os outros) para os apoiar no confronto com o Irão xíita.

E para isso, Annapolis pode vir a dar jeito. Para os principais interessados — palestinianos ou israelitas comuns — é mais uma cimeira. Ou reunião. Ou coisa.

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