Um assunto triste
[Público 04 outubro 2007]
Os jornalistas que têm investigado os neonazis portugueses são claros: as suas acções parecem estender-se ao tráfico de armas e drogas e crimes de extorsão, além de espancamentos e ataques racistas.
Na semana passada dois neonazis entraram no cemitério judaico de Lisboa, que vandalizaram. Foram apanhados em flagrante, um deles enquanto defecava num túmulo, quando chegou a polícia alertada por um transeunte que ouvira barulho no cemitério.
Um dos neonazis era mais velho e faz parte do chamado processo dos skinheads. Segundo o Correio da Manhã, guardava no telemóvel fotografias de membros da comunidade judaica em Portugal. O mais jovem, de 16 anos de idade, estava ali para passar num ritual de iniciação.
O eco deste caso repugnante foi reduzido. Mas os jornalistas que têm investigado os neonazis portugueses são claros: as suas acções parecem estender-se ao tráfico de armas e drogas e crimes de extorsão, além de espancamentos e ataques racistas. Alguns destes jornalistas foram ameaçados, viram as suas fotos distribuídas nos fóruns neonazis na internet, ou intimidados por skinheads à porta de casa. O colunista Daniel Oliveira, do Expresso, foi ameaçado de morte em plena rua. O humorista Ricardo Araújo Pereira viu publicitada a morada do colégio da sua filha. E segundo a imprensa, no processo constam diversas agressões – inclusive com arma de fogo – consumadas principalmente contra negros, mas também indianos, imigrantes e estrangeiros.
Como é sabido, vários dos acusados pertencem ao Partido Nacional Renovador.
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Já escrevi aqui sobre como seria importante que a direita portuguesa tivesse um discurso contra o racismo. À altura, só Marcelo Rebelo de Sousa fez questão de falar do assunto e fazê-lo “enquanto homem de direita”. É uma questão moral e também uma questão de eficácia: há todo um auditório a que o discurso da esquerda não chega ou não convence. Por outro lado, é à direita que os racistas pretendem ir buscar votos. Paulo Portas, que n'O Independente minimizara a importância do racismo organizado, veio admitir após as recentes eleições a Lisboa que perdeu votos para o PNR.
No outro extremo, Pacheco Pereira continua a ofuscar a gravidade do assunto. Quando Mário Machado – um dos assassinos do português e mulato Alcino Monteiro – veio mostrar as suas armas para a TV, Pacheco Pereira escreveu na Sábado um texto em que o “nazismo nacional” era um mero “espantalho” para a esquerda e chamou a Mário Machado “o preso político que a democracia é suposta não ter”. E agora, quando se sabe que este racista é acusado também de extorsão, sequestro e posse de armas ilegais, voltou a escrever no seu blogue que a prisão de Mário Machado “aponta para razões puramente políticas” e qualificou-a de “inadmissível” por considerar que “incitar ao ódio racial” em países “genuinamente liberais não é crime nem sequer delito de opinião”. Pacheco Pereira não se referiu à vandalização do cemitério, o que contrasta fortemente com as dezenas de textos e exigências de condenação após a estúpida acção de alguns ecologistas num milheiral algarvio, este Verão – que também motivou a Pacheco Pereira comparações com as acções dos racistas e dos terroristas, demonstrando que por razões de combate político está disposto a confundir ataques à propriedade com ataques a pessoas, numa inversão moral a vários títulos chocante.
Para terminar com uma nota positiva, registo que o CDS/PP tomou posição pública em relação à vandalização do cemitério, escrevendo uma mensagem de solidariedade à Comunidade Israellita de Lisboa. É uma atitude digna, bem-vinda, e esperemos que tenha seguidores.
Comments
por favor, não confundam skinheads com neonazis. são dois universos separados com uma pequena intersecção...
Posted by: ana anselmo | outubro 5, 2007 08:51 AM
Temos concepções ideológicas diferentes e normalmente dou comigo a discordar das suas posições, mas desta vez concordo integralmente consigo.
A reacção exagerada aos verde-eufémios contrasta com um quase abafar deste lamentável caso de anti-semitismo, que é apenas mais um numa série de incidentes ligados à extrema-direita portuguesa. E a posição de Pacheco Pereira também surpreende pela negativa. Um criminoso com ideias políticas não deixa de ser criminoso...
Posted by: Fernando | outubro 5, 2007 07:48 PM
Está em curso na blogosfera um movimento de solidariedade para com os trabalhadores portadores de deficiência, no sentido de ajudar a introduzir nos temas da actualidade a sua reivindicação de reposição dos benefícios fiscais que lhes foram retirados no OE 2007. A iniciativa é do blog “o país do Burro”, que lançou um repto a todos para que coloquem um pequeno dístico nos seus blogs, com link para o blog do MTPD. Agradece-se a colaboração de todos.
O código HTML está disponível no país do burro.
Posted by: Comentário a apagar | outubro 7, 2007 02:10 AM
É da responsabilidade de todos os partidos democráticos repudiar de forma clara este tipo de acções. Não há dúvidas quanto a isso. Também registo com agrado a posição pública do CDS/PP. O medo de afrontar eleitorado não pode tirar o lugar à dignidade e à ética. Este acto deplorável e as ameaças [algumas em forma de apelo colectivo aos partidários da extrema direita] obrigam as autoridades a estar alerta. Defender o que defendem os neonazis (pior, tentar passar à práctica) não é uma simples questão de opinião, de perspectiva diferente das coisas. É matéria de crime, é atentado contra a humanidade, contra a dignidade do ser humano, contra a paz.
Posted by: troblogdita | outubro 8, 2007 12:03 PM