Chorai, elites
[Público 02 outubro 2007]
Estes legítimos representantes da respeitabilidade cavaquista continuam a achar que o PSD tem de ter lugar cativo na sociedade portuguesa, apenas porque sim.
Em geral, as elites portuguesas não se distinguem por nada que tenham feito. Não têm o hábito de se elevar e, em consequência, resta-lhes empurrar o povo para baixo quando ele se chega muito perto.
Vejamos, a título de exemplo, as célebres elites do PSD.
Joaquim Ferreira do Amaral é elite do PSD. Antigo Ministro das Obras Públicas, candidato a Presidente da Câmara de Lisboa, candidato à Presidência da República. Foi ele que negociou com a Lusoponte um ruinoso acordo para as travessias do Tejo que teve de ser defendido, nos anos finais do cavaquismo, à força de cargas policiais. Hoje Ferreira do Amaral é o presidente da Lusoponte.
Rui Rio é elite do PSD. O corajoso Rui Rio, o implacável Rui Rio, desejava chegar a líder do PSD. Sabia que teria o partido na mão, se avançasse. Mas decidiu reservar-se para uma ocasião mais propícia e em que desse menos trabalho chegar a Primeiro-ministro. Azar para ele.
Durão Barroso é elite do PSD. Enquanto líder da oposição não tinha disponibilidade para saber se uma empresa como a Somague pagava dividas de milhares de contos ao seu partido. Como primeiro-ministro, pediu sacrifícios aos portugueses e deixou o país nas mãos de Pedro Santana Lopes.
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Existe a tentação de comentar a relevância da vitória de Luís Filipe Menezes. Mas qual? A relevância ainda não está lá. Há quem diga que Menezes não chega às eleições, há quem diga que ele não as ganha e há quem diga que ainda bem. Para já o que há a comentar não é a relevância da sua vitória mas a relevância da derrota dos seus adversários. Uma implica a outra, mas não são a mesma coisa.
Diz-se que as elites do PSD perderam por falta de comparência ou por acharem que tinham o partido na mão. Ambas as explicações significam isto: as elites do PSD, no fundo, não são tão elites quanto isso. Na tradição nacional, sempre esperaram que o seu lugar lhes fosse guardado e cedido: no conselho de administração como no conselho de ministros. Nos intervalos do poder, escolhiam um caseiro para tomar conta do partido.
Da mesma forma, estes legítimos representantes da respeitabilidade cavaquista continuam a achar que o PSD tem de ter lugar cativo na sociedade portuguesa, apenas porque sim. Sempre desprezaram a ideologia a favor de um suposto monopólio do “saber governar”. Fizeram o elogio dos self-made men para depois os acusar de populismo. Fugiram das causas sociais e avisaram o seu povo para se manter afastado do “politicamente correcto”. Repetiram durante anos que a iniciativa pública é incompetente e a iniciativa privada virtuosa. Lembraram que se fizermos tudo para beneficiar os investidores e os empresários, o dinamismo do mercado se encarregará de todos. Riram das graçolas de Alberto João Jardim e apresentaram-no como bom exemplo. Aliaram-se a Paulo Portas para governar o país. Chegaram a eleger Santana Lopes, não em directas, mas num Conselho Nacional. E agora choram: mas este foi o partido que eles fizeram.
Comments
Ninguém comentou mas eu gostei deste artigo. Talvez um pouco mais "agressivo" que o costume, mas nem por isso em demasia.
Posted by: jpc | outubro 5, 2007 05:22 PM
Apenas um pequeno reparo ao parágrafo sobre o actual presidente da câmara do Porto. O azar que referes não foi só para ele mas para a cidade do Porto que, mais uma vez, viu uma oportunidade, de se livrar dele, desperdiçada. E o que é mais engraçado é que em Lisboa existe quem o queira, no PSD há vontade de o acolher como líder (julgo que vêm nele ou um novo D.Sebastião ou alguém fácil de influenciar).
Quanto ao facto de ser corajoso e implacável eu não me esqueço de como o vereador para o urbanismo do 1º mandato, Paulo Morais, foi chutado para canto no 2º.É curioso ver o que Rui Rio e Paulo Morais disseram nessa altura e ver o conteúdo das conferências em que Paulo Morais participou depois...
Concluindo, parece-me que o Rui Rio é corajoso e implacável com os funcionários da câmara, os inquilinos dos bairros municipais, os jornalistas, os subsidiados pela cmp (companhias de teatro, colectividades etc). Estes constituem, de forma inequívoca, os "poderosos lobies" contra os quais Rui Rio luta, e é esta a luta que lhe granjeia a dita fama.
Posted by: Joãp Mosca Matos | outubro 5, 2007 06:23 PM