Não, o inglês não basta
[Público 05 setembro 2007]
Todo aquele que quiser atender um telefone vai ter que saber inglês. Mas o director do escritório da empresa em Xangai vai ter que saber mandarim.
O Público de ontem trazia um artigo sobre como menos de um por cento dos alunos do segundo ciclo escolhe o francês como língua estrangeira de aprendizagem. Mas o que me preocupa aqui não é tanto a questão do francês, que aliás continua a dominar no terceiro ciclo.
Preocupa-me a mentalidade instalada entre alunos, pais, professores e governantes de que “o inglês basta”. E como não? O planeta inteiro está a aprender inglês. Como tal, daqui a uma geração precisaremos de apenas duas línguas: a nossa e o inglês, para comunicar com os estrangeiros.
Esta é uma ideia de que nos arrependeremos. Como é evidente, o inglês é essencial: é primeira língua de muita gente, vai ser a segunda língua de quase todos, e é a língua da internet. Sou muitíssimo a favor de que o inglês seja ensinado na escola o mais cedo possível.
Mas a generalização do inglês esconde um efeito previsível. Daqui a uma geração, saber inglês vai ser o domínio do trabalhador não especializado. Todo aquele que quiser atender um telefone vai ter que saber inglês. Mas o director do escritório da empresa em Xangai vai ter que saber mandarim.
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Quem já se apercebeu disso, curiosamente, são os ingleses. Dadas as suas ligações financeiras globais, as aulas de mandarim são a crista da voga em Londres. Mas mesmo o mandarim é capaz de não chegar. O Sul da China, uma das regiões mais dinâmicas do mundo, fala cantonês. São setenta milhões de pessoas e Portugal teve melhor do que uma embaixada ou uma universidade nesta zona, durante quinhentos anos: chama-se Macau. Quantos portugueses aprenderam cantonês? Poucos, certamente. E porque não estão a dar aulas aos outros?
Para muitas línguas asiáticas faladas por milhões de indivíduos, desde o vietnamita ao persa, os primeiros dicionários ocidentais foram em português. Hoje não aproveitamos nada dessa tradição. Como não aproveitamos o facto de recentemente muitos russófonos terem imigrado para Portugal. Como não aproveitamos o facto de Marrocos estar aqui ao lado. Como não aproveitamos o facto de, com um ano de aulas de espanhol, a maioria dos portugueses atingir uma competência superior à dos muitos estrangeiros hispanistas.
No estrangeiro, os portugueses eram quase únicos entre os europeus ocidentais, na medida em que arranhavam espanhol com os espanhóis e hispano-americanos, francês com os francófonos, diziam duas palavritas em italiano para amenizar o ambiente, falavam com brasileiros na sua própria língua e em inglês com os restantes. Mas os nossos talentos poliglotas já então empalideciam quando comparados com os de alguns colegas eslavos. E hoje receio que estejam a perder-se.
O estudo das línguas, incluindo as mortas e as artificiais, não é só uma questão comercial: traz vantagens para a memorização, a interpretação e o raciocínio, o pensamento criativo, a capacidade de expressão e as relações interculturais. É tempo de juntarmos a preocupação com as áreas de ensino em que somos fracos (como a matemática) à das áreas em que tradicionalmente éramos fortes ou para que temos vantagens culturais. O estado pode ajudar dando liberdade às escolas para contratarem professores fora das línguas habituais. E o governo deve antecipar o currículo para que os alunos possam estudar a segunda língua estrangeira no segundo ciclo, a terceira no terceiro, e no secundário escolher línguas suplementares como disciplinas opcionais.
Perguntem a Durão Barroso. Se soubesse apenas inglês nunca teria chegado a Presidente da Comissão Europeia. Ora, por falar em Durão Barroso...
Comments
como esse senhor lá chegou é que eu não entendo - em lingua nenhuma!!!
Posted by: mnica ;* | setembro 5, 2007 06:03 PM