O fim da quadratura do círculo (2)
[Público 23 julho 2007]
Os intelectuais conservadores continuam a vender-nos o discurso de que os portugueses são atávicos por destino e de que as causas progressistas não têm qualquer eco na sociedade. Ou seja, continuam a garantir-nos que é verdade o que as recentes eleições e referendos negaram enfaticamente.
Na última crónica, vimos como a política portuguesa deixou de ser aquele quadrado, com dois partidos à direita e dois à esquerda, que resultou do 25 de Abril.
À esquerda passou a haver três partidos e a questão agora é saber se vai haver quatro. Em 2009 chegam as legislativas e com elas um problema.
Só vai dar para concorrer como partido, e não como “movimento de cidadãos”, modelo com que os alegristas tiveram dois resultados agradáveis. Pelos vistos, quando o eleitorado está zangado com o PS, é possível chegar aos 18% – resultado de Manuel Alegre e do PRD nos anos 80. Quando há menos antipatia, como recentemente em Lisboa, ainda é possível chegar aos 10%. Para fazer um partido seria necessário virar a casaca ao discurso anti-partidos, mas isso não é problema para quem está há trinta anos nos partidos. Uma decisão tomada na última hora, depois de dramáticas hesitações, sem tempo para discutir programa nem propostas, permitirá chegar a um grupo parlamentar de bom tamanho.
E à direita? Para os seus “líderes carismáticos” é sempre mais fácil herdar um partido do que criá-lo, mas se for impossível herdar pode não haver outro remédio, visto o fosso que as rivalidade internas têm criado. De excluir é a hipótese de fusão entre o PSD e o CDS. O PSD tem tanto interesse em absorver o CDS como o leitor em colocar um vespeiro na sala de jantar. O ego de Paulo Portas é impossível de absorver. E em breve o PSD lhe ficará com os votos, que aliás já não são muitos nem valem tanto trabalho.
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Mas o que mudou é mais relevante do que esta politicagem. A direita, depois de Durão, Santana e Portas, já não consegue reclamar para si a competência governativa, a estabilidade, a pose de estado. Esse vazio foi ocupado pelo PS, mal ou bem. E isso ampliou o espaço à esquerda do PS, que deve andar entre 20% e 30% – já pouco menos do que o espaço à direita. E isso é desastroso para o conservadorismo das elites.
A noite das eleições lisboetas foi reveladora desse desfasamento. Nas televisões, o panorama era precisamente o oposto daquele que a sociedade revelara nas urnas. Frequentemente lá estavam dois comentadores de direita debatendo com um de esquerda. Desde – claro – que esse não fosse demasiado à esquerda, e que o desequilíbrio contrário nunca pudesse ocorrer. Isso seria contrário à tradição.
Os intelectuais conservadores continuam a vender-nos o discurso de que os portugueses são atávicos por natureza e de que as causas progressistas não têm qualquer eco na sociedade. Ou seja, continuam a garantir-nos que é verdade o que as recentes eleições e referendos negaram enfaticamente.
Durante muito tempo, acharam que bastaria pronunciar as palavras mágicas “politicamente correcto” para fazer desaparecer do eleitorado qualquer veleidade de dar ouvidos à esquerda. Enquanto a Inglaterra proclama vitória contra a directiva europeia que obriga as empresas “a assegurar a segurança e a saúde dos trabalhadores em todos os aspectos ligados ao trabalho”, continuam a apresentar o direito social europeu como uma encarnação do mal. O desemprego e o emprego precário resultam, é claro, da nossa falta de fé no mercado. Do Iraque, então, nem se fala. Resta assim a magna questão das bolas-de-berlim com creme na praia. Felizmente, uma matéria inesgotável, uma vez que é sempre fácil encontrar absurdos na legislação e na burocracia que a aplica. Muito mais fácil, certamente, do que dar conta das intoxicações alimentares que não aconteceram ou das vidas que não se perderam em acidentes de trabalho.
