" /> Pobre e Mal Agradecido: julho 2007 Archives

« junho 2007 | Main | agosto 2007 »

julho 27, 2007

O fim da quadratura do círculo (2)

[Público 23 julho 2007]

Os intelectuais conservadores continuam a vender-nos o discurso de que os portugueses são atávicos por destino e de que as causas progressistas não têm qualquer eco na sociedade. Ou seja, continuam a garantir-nos que é verdade o que as recentes eleições e referendos negaram enfaticamente.


Na última crónica, vimos como a política portuguesa deixou de ser aquele quadrado, com dois partidos à direita e dois à esquerda, que resultou do 25 de Abril.

À esquerda passou a haver três partidos e a questão agora é saber se vai haver quatro. Em 2009 chegam as legislativas e com elas um problema.

Só vai dar para concorrer como partido, e não como “movimento de cidadãos”, modelo com que os alegristas tiveram dois resultados agradáveis. Pelos vistos, quando o eleitorado está zangado com o PS, é possível chegar aos 18% – resultado de Manuel Alegre e do PRD nos anos 80. Quando há menos antipatia, como recentemente em Lisboa, ainda é possível chegar aos 10%. Para fazer um partido seria necessário virar a casaca ao discurso anti-partidos, mas isso não é problema para quem está há trinta anos nos partidos. Uma decisão tomada na última hora, depois de dramáticas hesitações, sem tempo para discutir programa nem propostas, permitirá chegar a um grupo parlamentar de bom tamanho.

E à direita? Para os seus “líderes carismáticos” é sempre mais fácil herdar um partido do que criá-lo, mas se for impossível herdar pode não haver outro remédio, visto o fosso que as rivalidade internas têm criado. De excluir é a hipótese de fusão entre o PSD e o CDS. O PSD tem tanto interesse em absorver o CDS como o leitor em colocar um vespeiro na sala de jantar. O ego de Paulo Portas é impossível de absorver. E em breve o PSD lhe ficará com os votos, que aliás já não são muitos nem valem tanto trabalho.

***

Mas o que mudou é mais relevante do que esta politicagem. A direita, depois de Durão, Santana e Portas, já não consegue reclamar para si a competência governativa, a estabilidade, a pose de estado. Esse vazio foi ocupado pelo PS, mal ou bem. E isso ampliou o espaço à esquerda do PS, que deve andar entre 20% e 30% – já pouco menos do que o espaço à direita. E isso é desastroso para o conservadorismo das elites.

A noite das eleições lisboetas foi reveladora desse desfasamento. Nas televisões, o panorama era precisamente o oposto daquele que a sociedade revelara nas urnas. Frequentemente lá estavam dois comentadores de direita debatendo com um de esquerda. Desde – claro – que esse não fosse demasiado à esquerda, e que o desequilíbrio contrário nunca pudesse ocorrer. Isso seria contrário à tradição.

Os intelectuais conservadores continuam a vender-nos o discurso de que os portugueses são atávicos por natureza e de que as causas progressistas não têm qualquer eco na sociedade. Ou seja, continuam a garantir-nos que é verdade o que as recentes eleições e referendos negaram enfaticamente.

Durante muito tempo, acharam que bastaria pronunciar as palavras mágicas “politicamente correcto” para fazer desaparecer do eleitorado qualquer veleidade de dar ouvidos à esquerda. Enquanto a Inglaterra proclama vitória contra a directiva europeia que obriga as empresas “a assegurar a segurança e a saúde dos trabalhadores em todos os aspectos ligados ao trabalho”, continuam a apresentar o direito social europeu como uma encarnação do mal. O desemprego e o emprego precário resultam, é claro, da nossa falta de fé no mercado. Do Iraque, então, nem se fala. Resta assim a magna questão das bolas-de-berlim com creme na praia. Felizmente, uma matéria inesgotável, uma vez que é sempre fácil encontrar absurdos na legislação e na burocracia que a aplica. Muito mais fácil, certamente, do que dar conta das intoxicações alimentares que não aconteceram ou das vidas que não se perderam em acidentes de trabalho.

julho 26, 2007

O fim da quadratura do círculo (1)

[Público 23 julho 2007]

Na política, como em tudo na cultura humana, o aborrecimento desempenha um papel fundamental. E a coisa não ficará por aqui.

Durante anos, Portugal teve quatro partidos. Dois à esquerda, dois à direita. De cada dois, um era maior – o PS à esquerda, o PSD à direita – o outro menor – o PCP à esquerda, o CDS à direita. A simetria só não era completa porque o CDS de vez em quando chegava ao governo (o PCP nunca) e o PCP tinha muito poder nas autarquias, nos sindicatos e melhor implantação social (e o CDS muito menos de tudo). Este desenho era um ovo de Colombo: quadrado, mas com o dinamismo bastante para parecer que duraria para sempre.

O resto era enfeite, ou era transitório.

Nos anos 80 os limites do quadrado foram testados duas vezes: com o Bloco Central (governo PS+PSD) e com o PRD, que teve 18% de votos (roubados ao PS – reservem este número). Ambas as experiências morreram; o quadrado regressou.

No fim do século passado, a esquerda passou a ter três partidos, com a fundação do Bloco de Esquerda. E a direita agora parece ter espaço para apenas um. A simetria foi quebrada. As razões e a extensão desta mudança estão em discussão. Parece certo que isto reflecte as mudanças por que passou a sociedade portuguesa (europeízação, urbanização), mas não podemos excluir o simples cansaço da fórmula. Na política, como em tudo na cultura humana, o aborrecimento desempenha um papel fundamental. E a coisa não ficará por aqui.

***

Nos últimos tempos aconteceu uma coisa imprevista. Ao contrário do que sucedera com a maioria absoluta do PSD de Cavaco Silva, que esvaziara o partido menor à sua direita, a maioria absoluta do PS de José Sócrates não esvaziou nenhum dos partidos menores à sua esquerda. Pelo contrário: o partido esvaziado pela maioria absoluta volta a ser o CDS.

O próprio PSD passa por algumas dificuldades mas a sua doença é relativamente normal. Sabe que é o partido da alternância, mas não sabe qual é o líder que interpretará esse papel. O que não parece entender é que essa alternância não é só de actores, mas de estilos, entendidos no mais lato dos sentidos. Até hoje, só António Guterres apanhou bem essa ideia, quando percebeu que para acabar com os anos da secura cavaquista teria de inventar um estilo novo, a que chamou “razão com coração”.

Os cavaquistas não entenderam o que se passou então e, pelos vistos, não o entendem hoje, uma vez que fantasiam ainda opôr a José Sócrates o estilo severo e intransigente de Manuela Ferreira Leite ou de Rui Rio. Quanto a Aguiar Branco, é uma pena que tenha desistido: se a esquerda gostou de se confrontar com Fernando Negrão, adoraria certamente ter por adversário um cinzentão. Com todos os seus defeitos, Luís Filipe Menezes tem pelo menos uma estratégia a propôr: fazer um discurso para o povo das fábricas que fecham e outro para os empresários dinâmicos que de vez em quando fecham fábricas. Defender o “social” e a privatização das águas. Chama-lhe a isto “voltar às tradições do PSD”, e é capaz de não estar completamente enganado.

Quanto ao CDS, a situação é mais grave. Trata-se um partido que deixou pura e simplesmente de ter objecto. A única solução seria ganhar vergonha na cara e reconstruir tudo com paciência, mas acabaram de pôr na rua o homem que propunha essa estratégia. Ainda por cima, o partido deixou de ter acesso aos canais de distribuição de lugares. E sem nada para dar, fica tão debilitado que o melhor é nem mexer-lhe muito antes que se estilhaçasse. Com sorte, pode ser que a Câmara de Lisboa abra vagas para limpadores de graffitis.

julho 20, 2007

Vitoriosos e inconsequentes

[Público 18 julho 2007]

Mas, por favor, poupem o eleitorado de esquerda a mais esta demonstração da inconsequência e sectarismo dos seus eleitos.

Suavizar uma derrota eleitoral é como tentar rebocar um monte de entulho. Pode sempre recorrer-se à argamassa cinzenta das justificações: que a abstenção, que os independentes, que a crise dos partidos, que as eleições locais, etc. Há comentadores que parecem ter acesso a um armazém inteiro disto. Mas não parece que sejam ouvidos pelos actores políticos no PSD e no CDS, que estão já entretidos no meio do monte de entulho, estraçalhando-o em pedaços de entulho cada vez menores.

A justificação de que eu mais gosto é: seja como for, a “esquerda” e a “direita” são irrelevantes nas Câmaras Municipais. Ah, sim? Olhemos então para a nova Câmara de Lisboa: a direita tem seis vereadores, a esquerda tem onze. Até digo mais: por muito tentador que seja bater na direita, deixemo-la respirar. Hoje há uma tarefa mais urgente e necessária: bater na esquerda.


Helena Roseta não está disponível para coligações e já repetiu que “os partidos têm de aprender que há mais vida para lá dos partidos”. Aparentemente, Helena Roseta não conhece outras frases na língua portuguesa para além de “há mais vida para lá dos partidos”. Nem que seja para pedir o café, que diabo.

Ruben de Carvalho já tinha avisado que o PCP teria pruridos em aliar-se, em Lisboa, ao partido que está no governo do país. Que novidade! Teria sido bem-vinda no tempo em que o PCP se aliou a Rui Rio, no Porto, em pleno governo de Durão e até de Santana Lopes.

E José Sá Fernandes exigiu a António Costa o cumprimento de um programa de seis pontos. Ora, por muito que simpatize com Sá Fernandes (até lhe dei o meu voto!) e possa concordar com os seis pontos em questão, houve uma coisa chamada eleições. Não foi o programa de Sá Fernandes que foi sufragado. Foi o de António Costa.

***

Não acreditem no que anda para aí a ser escrito: António Costa ganhou mesmo estas eleições. Tem pelo menos o dobro dos vereadores de qualquer outra lista. Como tal, o programa terá de ser maioritariamente o seu. O vereador do urbanismo, como é evidente, também. As restantes forças de esquerda, com cinco vereadores e 27% do eleitorado, têm a obrigação – a obrigação, note-se – de contribuir para um governo estável da cidade e de dar o seu melhor nos pelouros respectivos (Habitação, Helena? Cultura, Ruben? Espaços verdes, Zé?), porque é disso que Lisboa precisa e é isso que a maioria do eleitorado quis: 57% de votos no conjunto da esquerda, 84% em tudo menos Carmona. Como é evidente, os vereadores eleitos têm também o direito, até o dever, de não serem acríticos nem fecharem os olhos aos seus parceiros. Mas, por favor, poupem o eleitorado de esquerda a mais esta demonstração da inconsequência e sectarismo dos seus eleitos.

E que deve fazer António Costa? Governar com acordos pontuais uma cidade em estado de emergência? Apoiar-se em Carmona Rodrigues, que não faz quaisquer exigências, e com quem os acordos “pontuais” acontecerão sempre sem esforço? Grave erro. O abraço de Carmona é radioactivo e será condenado pelos lisboetas – para que serviram então as eleições? Pior: se fizer tal coisa, António Costa terá uma oposição de cinco vereadores à sua esquerda, três deles mediáticos, que lhe causarão muito mais dano político do que a direita será capaz de causar.

E depois há a política nacional. Já queimou bastante o PS aquele episódio dos manifestantes trazidos à carrada de Cabeceiras de Basto, a juntar a outros recentes. As pessoas estão irritadas e não há espaço para muitas avarias. O governo beneficia de uma direita atordoada mas descurou a sua base de esquerda; o eleitorado flutuante que lhe deu a vitória é por definição flutuante, até cada vez mais. Se António Costa se posicionar agora à frente de uma maioria de esquerda em Lisboa, estará acautelando o seu futuro político – perante a recomposição do espectro partidário que se avizinha.

julho 17, 2007

Derrotados e indecorosos

[Público 16 julho 2007]

O eleitorado foi claro: “ajudem” na oposição.

A direita é a derrotada das eleições em Lisboa. Foi uma derrota feita de mediocridade e ligeireza. Carmona Rodrigues é o símbolo desse descalabro, até na forma como finge que não é nada com ele e se oferece para governar.

Com um sexto dos votos, os comparsas de Carmona festejaram a sua vingança sobre o PSD com tal profissionalismo que, passado alguns minutos, os jornalistas lá na sede já perguntavam a Gabriela Seara o que achavam da “vitória” da candidatura e chamava a Carmona “o grande vencedor da noite”. Os apoiantes gritaram “vitória”. Mas qual vitória?

Provavelmente, a vitória da falta de matemática e de decoro. Há dois anos, Carmona Rodrigues e o PSD tiveram juntos 42% dos votos. Hoje, mesmo juntando os votos de Carmona e do PSD, pouco passariam dos 30%. Mas não se pode juntar estes votos, não é verdade? Carmona encarregou-se disso: envergonhou Lisboa e a sua Câmara Municipal; mergulhou-a em suspeições, favoritismos e velhacarias; destruiu o PSD na capital; está ainda amarrado a processos judiciais. Dois anos bastaram para descer de presidente eleito com 42% para candidato derrotado com apenas um sexto dos votos.

Carmona, no entanto, falou de resultado histórico e disponibilizou-se para “ajudar”. Fontão de Carvalho, ex-vereador das Finanças de toda a gente; Pedro Feist, ex-vereador das finanças, ex-CDS e ex-PSD; Gabriela Seara — todos falaram em “contribuir para a governação” e “cumprir tarefas”. Ninguém duvida que Carmona e os seus vereadores colocariam ao serviço do PS os mesmos talentos que usaram com o PSD, envenenando a próxima vereação com a sua incompetência, os seus processos pendentes e o seu despudor agora em roda livre — sem sequer um partido para lhes retirar a confiança política. O eleitorado foi claro: “ajudem” na oposição.

***

A restante direita foi mais digna, embora desnorteada. Os seus comentadores justificavam a derrota falando da abstenção, como se apenas os eleitores de direita fossem de férias em Julho. A abstenção, meus caros amigos, não nasce do acaso: com esta espécie de candidatos, é mais do que natural que os vossos eleitores se abstenham, e se abstenham mais do que os da esquerda. Apresentar candidatos medíocres é sinal de que não se compreende a importância do que está em jogo. Acima de tudo, é uma falta de respeito pelos eleitores. Não se queixem do resultado.

Juntando todos os votos, a direita tem pouco mais de um terço do eleitorado na capital do país. É um resultado trágico, até quando comparado com as anteriores tragédias: PSD e CDS tiveram 37% nas europeias e 36% nas legislativas com Pedro Santana Lopes. O CDS não merece mais do que uma frase: perde o seu vereador e tem de contentar-se com cerca de metade dos votos do Bloco de Esquerda. Já o PSD sofreu uma derrota amarga que coloca Marques Mendes à mercê dos seus adversários internos. Essa diversão vai desviar a atenção das razões mais fundas desta derrota.

Entretanto, Pacheco Pereira bem tentou alegar que António Costa teve uma vitória fraca. Vejamos então se nos entendemos: António Costa fez o PS subir de 26% para 30%, mesmo tendo ao lado a candidatura de Helena Roseta com mais de 10%. Simplesmente, a esquerda conseguiu arranjar espaço para que quatro candidaturas se apresentassem e tivessem sucesso. Foi assim que a esquerda ganhou, ponto final parágrafo.

A próxima crónica será sobre as responsabilidades desta vitória.

julho 11, 2007

O Arquitecto: reacções (2) e lançamento


Hoje, entre as 10h00 e as 11h00, estarei na SIC-notícias para comentar a imprensa do dia e falar um pouco sobre O Arquitecto. Às 18h00, no Pavilhão de Portugal [metro Oriente], será o lançamento do livro, honrado pela presença do encenador Jorge Silva Melo e dos arquitectos Raul Hestnes Ferreira, Manuel Vicente e Alberto Oliveira, que estagiaram no ateliê de Louis Kahn em Filadélfia nos anos a que se refere a minha peça. Aqui abaixo encontrarão a crítica de Rui Pina Coelho no Ípsilon [Público] de passada sexta-feira.

"As coisas em que não pensamos", crítica de Rui Pina Coelho no Público de 06 julho 2007:

[Clique para aumentar numa nova janela].

À espera de Lisboa

[Público 10 julho 2007]

A qualidade de vida não é hoje apenas um direito; é também uma vantagem competitiva.

Pela primeira vez na história da espécie, este é o ano em que mais de metade da população humana viverá em cidades. Ter eleições em Lisboa neste ano, e com o destaque que elas têm tido, deveria ser mais do que uma coincidência interessante. Temos aqui uma ocasião para pensar em cidades no sentido mais geral, desde logo porque a maior parte dos nossos problemas políticos são problemas de cidades. Mas também por outra razão a que já me referi: com a diluição das fronteiras nacionais, as cidades são cada vez mais motor das economias nacionais.

No número mais recente da revista Monocle publica-se um ranking das vinte melhores cidades para viver no mundo (critérios: mobilidade, crime, ligações aéreas internacionais e outros mais subjectivos como beleza, vida cultural e tolerância). Munique ficou em primeiro lugar, seguida de Copenhaga e Zurique. Espanha colocou duas cidades na lista: Madrid em décimo lugar, Barcelona em décimo-oitavo (apesar do crime). E Lisboa? Nas palavras dos organizadores, “não chegou lá”: ficou fora da lista na companhia de Roma e Antuérpia, para dar dois exemplos, algures entre o lugar 20 e 30. De todas diz a revista que “oferecem boa qualidade de vida”. Dado o estado de abandono político de Lisboa, esta classificação é simpática, reflectindo o potencial “natural” da cidade. Mas poderia estar francamente melhor. Com melhorias sensíveis na rede de transportes públicos, nas áreas verdes ou na habitação, Lisboa pode tornar-se muito mais agradável para viver e entrar na primeira divisão de cidades globais.

***

A qualidade de vida não é hoje apenas um direito; é também uma vantagem competitiva. Não é por acaso que as megalópoles, excepto Tóquio que ficou em quarto, não aparecem na lista da Monocle. Os mesmos factores que diluem as fronteiras tornam a proximidade das megalópoles menos relevante. Cidades médias à escala global, como Amesterdão e Barcelona, tornaram-se pólos magnéticos de uma comunidade de profissionais que, graças à internet, pode trabalhar em qualquer ponto do mundo e escolhe o seu lugar não em função da proximidade de indústrias mas da qualidade de vida. São pequenas empresas de programadores informáticos, designers, jornalistas. São líderes de tendências e canais de divulgação das próprias cidades, o que quer dizer que (a médio prazo) trazem outros como eles. E o que querem eles numa cidade? Cultura, tolerância, conforto, pouco crime, bons espaços verdes, segurança rodoviária, mobilidade, ligações ao resto do mundo. Uma vez que se instalam e moram efectivamente na cidade, são um melhor grupo para avaliar da sua qualidade do que os turistas. Os turistas vêm por poucos dias, e depois só alguns regressam.

Lisboa, por seu lado, tem sofrido uma evolução inquietante: ao mesmo tempo que cresceu no plano turístico, tornou-se mais inabitável para quem nela vive. Pelo contrário, Lisboa deve em primeiro lugar tornar-se uma cidade agradável para viver, mais do que para visitar. Uma cidade que se faz pensando só nos turistas corre o risco de se tornar numa cidade passiva. Uma cidade que se faz pensando nos seus habitantes (actuais e futuros) tem de procurar soluções para se manter activa. E ao procurar soluções para uma Lisboa activa, talvez achemos soluções para Portugal.

julho 09, 2007

O Arquitecto: reacções (1)

"As Consequências Involuntárias", crítica de José Mário Silva no DN de 23 junho 2007:

[Clique para aumentar numa nova janela]

Texto completo n'A Invenção de Morel, aqui
.

julho 05, 2007

Santo Subito! Santo Subito!

[Público 4 julho 2007]

Eles são, na verdade, imaculados: mentem sem pecado, prestam falso testemunho sem pecado, inventam pretextos para a guerra sem pecado, justificam invasões sem pecado, prendem sem pecado, torturam sem pecado.

A despedida de Tony Blair foi programada de maneira a não ser menos longa nem menos previsível que uma telenovela. E uma telenovela cuidadosamente gerida para que uma pequena floresta de papel impresso se gastasse com avaliações do currículo do homem, da sua relevância, da sua herança. Quem a viu, fê-lo só para confirmar o final – foi das fraquinhas.

Entre as elegias e os panegíricos chamou-me a atenção uma análise de Teresa de Sousa aqui neste jornal.

Nela se especulava sobre os projectos futuros do ex-Primeiro Ministro britânico, começando pelo seu novo cargo de enviado especial para o Médio Oriente e sem esquecer o boato de que a visita ao Papa serviu para preparar uma conversão ao catolicismo. Em destaque, era-nos dada a garantia que «no Médio Oriente ou na Europa, Blair não vai entrar no circuito das conferências pagas a peso de ouro. Vai certamente tentar corrigir “o que está mal”».

Se assim é, receio que uma conversão não baste. Para que Tony Blair opere os milagres necessários, Bento XVI deveria, com carácter de urgência, dar início a um processo de canonização. Afinal de contas, Tony Blair é ainda o mesmo homem que no Verão passado se ofereceu a George W. Bush para ir “fracassar” numa visita ao Médio Oriente e assim ganhar um pouco mais de tempo até que Ehud Olmert percebesse o que andava o exército israelita andava a fazer na nova Guerra do Líbano. É, sem dúvida, um belo cartão de visita para apresentar numa visita a Beirute: eu sou o homem que se ofereceu para empatar um cessar-fogo enquanto as vossas casas eram bombardeadas. Se Blair quer “corrigir o que está mal”, pode começar por si próprio. Talvez como São Blair seja mais fácil.

***

Do outro lado do Atlântico, também George W. Bush tem poderes milagrosos. Os leitores lembram-se que há um mês atrás foi condenado a trinta meses de prisão Lewis “Scooter” Libby, ex-chefe-de-gabinete do Vice-Presidente Dick Cheney, perante provas que o juiz considerou “esmagadoras” dos crimes de falso testemunho em tribunal (perjúrio) e obstrução à justiça. Pois bem, George W. Bush decidiu usar o seu poder constitucional e simplesmente apagar os trinta meses de prisão da pena de Scooter Libby, que considerou “excessiva”.

Muita gente perguntou de imediato se este não era o mesmo George W. Bush que, enquanto governador do Texas, se recusou a comutar a pena de qualquer condenado à morte, incluindo deficientes mentais. O mesmo que chegou a zombar de uma condenada à morte que lhe pediu clemência. O mesmo que se justificou dizendo que o seu trabalho não era corrigir os tribunais. O mesmo que se gabava de ser duro com o crime. O mesmo que nunca demonstrou interesse pelos 160 mil condenados federais a quem ainda hoje poderia, se desejasse, comutar penas “excessivas”. Ora, estas observações são absurdas. George W. Bush sempre disse que era um “conservador compassivo”. A parte da compaixão era para os amigos.

Também Bush deveria ir mais longe. A inocência dos seus é um direito constitucional que já lhe assiste. Por que não dar mais um passo e canonizar, pura e simplesmente, Scooter Libby? Melhor ainda: canonizem-se uns aos outros, e reciprocamente, todos os neoconservadores. Eles são, na verdade, imaculados: mentem sem pecado, prestam falso testemunho sem pecado, inventam pretextos para a guerra sem pecado, justificam invasões sem pecado, prendem sem pecado, torturam sem pecado. Morrem milhares de soldados e centenas de milhares de civis sem pecado. Tenha-se isto por dogma da religião revelada. Santificados sejam todos.

julho 03, 2007

A União

[Público 2 julho 2007]

Não me forcem a escolher entre os meus instintos europeístas e os meus instintos democráticos.

Enquanto alguém vai para o trabalho de bicicleta em Amesterdão, um coro ensaia na Estónia e um barco pesca em Malta. Turistas esperam para entrar num museu de Florença. Turcos vendem kebab em Edimburgo. Estudantes de Frankfurt passam o seu erasmus em Istambul, esforçando-se por dominar dois ou mesmo três idiomas. Pode comprar-se leite de rena na Lapónia ou houmous em Creta usando sempre a mesma moeda; melhor ainda, pode ir-se de um lugar ao outro sem mostrar o passaporte.

Quem diria? Para muitos, este é o retrato de um continente em decadência. Na verdade, todas as cidades e regiões atrás citadas (à excepção de Istambul, que não está na UE mas cujo país já participa no programa Erasmus de troca de estudantes) fazem parte da mais interessante experiência política dos nossos tempos. São quase 500 milhões de humanos (só a China e a Índia têm mais população) numa extensão maior do que a de muitos impérios da história. Mas não é um império, é outra coisa, não se sabe bem o quê. Para muitos, deveria ser uma federação. Na verdade, pouco importa o que lhe chamemos.

Eu sou um europeísta não por qualquer ufanismo europeu (na verdade estou mais próximo de um cabo-verdiano do que de um letão, e isso agrada-me) mas porque olhando para a União vejo que ela tem sido uma força de paz, liberdade e até alguma solidariedade. Com os seus muitos defeitos, a União está na primeira linha do Tribunal Penal Internacional, do Protocolo de Quioto, da cooperação e desenvolvimento. Nada disto é perfeito, mas pelo menos tenta-se.

Mas também sou um europeísta porque a União tem um grande futuro.

Conheço bem, há muitos anos, as queixas dos europessimistas. Acho-as pouco convincentes. Que a União está velha (temos os velhos mais saudáveis e potencialmente mais produtivos do mundo). Que há muitos muçulmanos a viver na União (que medo!, qualquer dia são quase três por cento). Que há poucos bebés (mas até os portugueses têm três meses de licença de parto paga, ao contrário dos norte-americanos). Que há imigrantes a mais (mas afinal não havia falta de gente em idade activa?). Que a União não participa na revolução tecnológica (só se inventou a web, e em tempos mais recentes o skype). Que está para trás na globalização (mas Londres, uma cidade da União, ultrapassou recentemente Nova Iorque como capital financeira do planeta). Enfim, que as regulamentações europeias são absurdas (mas graças a elas todo o mundo compra brinquedos mais seguros ou electrodomésticos menos poluentes).

Do lado europeísta, uma das coisas que mais se censura à Europa é ela não ter exército nem “hard power” (assim em inglês “americano”). Isso não me preocupa. O “poder brando” é mais eficaz: os países que querem entrar sabem que têm de respeitar mínimos de democracia e direitos humanos. A União não exporta democracia à bomba, importa democracia com democracia. A questão que temos de resolver agora é: como manter a democracia dentro da União.

A União não é uma utopia; é um compromisso. Mas deve ser, acima de tudo, um compromisso com a democracia. Ela é o nosso motor e o nosso horizonte; na falta de um cimento nacional ou linguístico, é a democracia que nos segura. É por isso que é difícil, exasperante até, ser europeísta com líderes europeus que têm medo da democracia. Esquecem-se que irresponsável não é quem exige mais democracia, é quem foge a ela. Por mim, não me forcem a escolher entre os meus instintos europeístas e os meus instintos democráticos. Nesse caso, terei de preferir mais democracia com menos Europa a mais Europa com menos democracia.