Sopram ventos frios
[Público 06 junho 2007]
A ideia era substituir a Guerra Fria por outra Guerra Fria, porque só nesse ambiente aquelas mentes visionárias se sentiam bem. Os resultados têm sido menos reconfortantes.
O homem que foi ontem condenado a 30 meses de prisão já foi um alto funcionário da Administração Bush. Era o antigo chefe de gabinete de Dick Cheney, vice-presidente dos EUA, e foi considerado culpado de quatro crimes: obstrução à justiça, falso testemunho e dois perjúrios, ou seja, mentiras perante o tribunal. O preço que pagou pelas suas falsidades e omissões parece caro, mas foi o próprio que o preferiu ao preço do crime que ajudou a encobrir – revelar a identidade de uma agente secreta americana, um crime grave nos EUA, por se considerar que tal acto coloca em risco a vida da própria, dos seus próximos e dos seus contactos. Mesquinhas parecem ser as razões que levaram a que esses riscos fossem corridos: difamar um embaixador americano, marido dessa agente secreta, que refutara em público um dos pretextos que Bush alegara para invadir o Iraque.
O homem que foi ontem condenado é mais conhecido pela alcunha: Scooter Libby, em vez de I. Lewis Libby. Aliás, poucos sabem que significa a inicial do seu primeiro nome. Irving? Irv?
Há um lado romanesco nesta história que lhe empresta ecos de Watergate. Até o nome de Libby é vagamente homófono do de Gordon Liddy, o primeiro assessor da Casa Branca a ser condenado, em Janeiro de 1973, pelas malfeitorias de Nixon. Tal como hoje, havia nelas um lado reles e vingativo: por exemplo, forjar uma carta para difamar Ed Muskie, um dos mais sérios adversários que o Partido Democrático tinha para enfrentar Nixon. Se as consequências da história de hoje não subirem como nesses anos, em que provocaram a queda do presidente, é porque Libby se aguentou como um dique e impediu a maré de chegar mais alto.
Mas se há aqui ecos de Watergate é também por outra razão: aí começaram as carreiras de muitos dos intervenientes nesta história. Quando Nixon resignou e foi substituído pelo vice-presidente Ford, este trouxe consigo dois jovens políticos. Um deles chamava-se Dick Cheney. Corria o ano de 1974 e uma das suas missões na altura era travar as ambições de George Bush pai, já então um dos principais pretendentes ao lugar de vice-presidente. Outro chamava-se Donald Rumsfeld e saiu há poucos meses, em desgraça, da administração de Bush filho. Outros companheiros desse tempo eram Paul Wolfowitz, que foi forçado a demitir-se do Banco Mundial há apenas duas semanas, e Richard Perle, que entretanto se demarcou da Guerra do Iraque. Tal como Perle, Scooter Libby é um intelectual com ambições literárias: durante vinte anos trabalhou num extravagante romance que se passa no Japão, em 1903. Talvez as suas memórias da prisão venham a ser também intrigantes.
Por coincidência, foi ontem também o décimo aniversário da Declaração de Princípios do Projecto para um Novo Século Americano (PNAC na sigla original), assinada por muitos destes nomes, incluindo Cheney, Libby e o irmão de George W. Bush. A ideia era que o fim da Guerra Fria deveria ser entendido como uma oportunidade para aumentar os gastos militares e, entre outros objectivos, invadir o Iraque para controlar o Médio Oriente. Ou seja, a ideia era substituir a Guerra Fria por outra Guerra Fria, porque só nesse ambiente aquelas mentes visionárias se sentiam bem. Os resultados têm sido menos reconfortantes.
Curiosamente, também ontem George W. Bush discursou na República Checa criticando duramente a Rússia, embora negando a Putin razões para uma nova escalada retórica ou militar. Aparentemente, o regresso à Guerra Fria é um luxo a que só alguns devem poder aceder. Infelizmente, ninguém acha que dele se deve privar.
É quase verão e já voltaram as vagas de calor. Mas sopram ventos que parecem vindos de 1970.