Sintomas de melhoras
[Público 12 junho 2007]
Na Lisboa real não parece verosímil que os carros estejam em cima do passeio por excesso de poder político. Na Lisboa real, poucos lisboetas acharão que o caso Bragaparques é um sintoma do excesso de poder político. E, na Lisboa real, é difícil dizer que há poucos centros comerciais.
Hoje à noite há Santo António, e eu começo por lançar dois foguetes de regozijo pelo último texto de Helena Matos. O primeiro é por ter decidido que, afinal, sempre vale a pena discutir Lisboa. O segundo é por, pela primeira vez, tê-la visto apoiar uma proposta concreta para a cidade. Para minha surpresa, e quiçá da própria, trata-se de uma bandeira eleitoral do Bloco de Esquerda – mas já lá vamos.
Para contrabalançar, Helena Matos mantém que assistimos à “afirmação dum discurso autoritarissimo como sinónimo de defesa da cidade”. Mas para o tentar provar usa dois elementos extravagantes que colocam em causa o argumento no seu conjunto.
Como sintoma decisivo dessa interpretação, Helena Matos apresenta «a recuperação da figura de Duarte Pacheco como a do autarca ideal de Lisboa», uma interpretação que dificilmente será corroborada por alguém que acompanhe a campanha lisboeta com um pouco de atenção. Mas em seguida Helena Matos introduz a personagem central do seu texto, a que chama “o habitante da cidadela lisboeta” e cujos hábitos descreve assim: “O habitante da cidadela lisboeta não morre (...) não anda de automóvel e muito menos atravessa túneis ou recorre a parques de estacionamento. Opõe-se à abertura de qualquer centro comercial pois só faz compras no comércio tradicional». Neste segundo caso, o elemento extravagante está em que a própria Helena Matos admite “que este lisboeta não existe”. E até chega a confirmar: “pois não”. Aquele lisboeta caricatural está ali só como contraponto à caricatura do lisboeta do “pátio das cantigas” no tempo da ditadura.
Na minha modesta opinião, não é possível sustentar um argumento com base num sintoma invisível e numa personagem inexistente. Mas não me queixo. Desta forma são as próprias personagens de Helena Matos que melhor rebatem o seu texto: Duarte Pacheco por falta de comparência e o “lisboeta da cidadela” por nem sequer existir. É que discutir com caricaturas pode ter as suas vantagens mas cai num problema fatal: deixa aos outros o espaço para se discutir com a realidade.
Ora, se a Lisboa imaginária de Helena Matos é uma cidade onde “os grandes problemas resultam mais da intervenção do poder do que da sua ausência”, a Lisboa real está aí para responder. Na Lisboa real não parece verosímil que os carros estejam em cima do passeio por excesso de poder político. Na Lisboa real, poucos lisboetas acharão que o caso Bragaparques é um sintoma do excesso de poder político. E, na Lisboa real, é difícil dizer que há poucos centros comerciais.
Sendo assim, o que é sintomático é a pergunta com que Helena Matos termina o texto: “como é possível que na área de Lisboa não se consiga ter algo tão simples quanto um cartão que se poderia usar em todos os transportes públicos em vez das dezenas de títulos de transporte actualmente existente?”. É a primeira vez que a vejo apoiar uma proposta concreta e aqui lanço um terceiro foguete: já é mais do que tempo de unificar as centenas de títulos de transporte em vigor na Grande Lisboa. Mas não por acaso, esta proposta só é viável através de uma inédita intervenção do poder sobre os operadores de transportes, boa parte dos quais pertencem a privados. Não é difícil imaginar que alguém a atacasse com o mesmo tipo de argumentos que Helena Matos tem aqui utilizado: é uma medida uniformizadora, que faz prevalecer uma visão política do interesse comum sobre as estratégias de concorrência dos privados. Mas é aplicada em muitos dos melhores exemplos de gestão urbana por esse mundo fora e, sintomaticamente, ninguém se queixa de que é “autoritaríssima”.
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Posted by: Bruno Oliveira | junho 14, 2007 07:46 PM