" /> Pobre e Mal Agradecido: junho 2007 Archives

« maio 2007 | Main | julho 2007 »

junho 29, 2007

Amálgamas

[Público 28 junho 2007]

Os argumentos de Helena Matos levar-nos-iam ao ponto em que um eleitor basco não poderia repudiar o terrorismo a não ser que fosse espanholista, votasse no PP, e considerasse que qualquer reconhecimento das ambições nacionais é uma traição à Espanha e às vítimas do terrorismo.

A trajectória dos argumentos de Helena Matos sobre o País Basco é uma bela lição sobre como as amálgamas dão péssimos resultados na política em geral e na luta contra o terrorismo em particular. Resumidamente, Helena Matos começou por não considerar a existência do Partido Nacionalista Vasco (que simplesmente domina as eleições, a política e o governo local) e terminou justificando que tal não era necessário porque “a ETA não é um corpo estranho ao nacionalismo legal”. Isto não faz sentido e deixa muita coisa por explicar. Se fosse verdade que a sociedade basca se deixou dominar pela ETA, incluindo empresas, igrejas e o próprio governo, os partidos que apoiam a ETA seriam beneficiados pelo voto secreto e não seriam minoritários nas eleições.

Mais: se na política basca é tudo a mesma coisa (ETA, PNV, até PSOE), os argumentos de Helena Matos levar-nos-iam ao ponto em que um eleitor basco não poderia repudiar o terrorismo a não ser que fosse espanholista, votasse no PP, e considerasse que qualquer reconhecimento das ambições nacionais é uma traição à Espanha e às vítimas do terrorismo. Ora eu posso não ter simpatia por um partido nacionalista e conservador, mas o PNV é um partido legítimo (ao contrário da ETA e dos seus satélites, enquanto recorrerem à violência política num estado democrático) e ainda por cima representando a maioria dos eleitores. Não é por acaso que os tribunais espanhóis ilegalizaram o Batasuna mas reconhecem naturalmente o PNV. O contrário redundaria numa visão maniqueísta da democracia, raiando a paranóia. Seria também um erro estratégico.

O caso irlandês é um bom exemplo. O governo inglês percebeu, pelo menos a partir do massacre do Domingo Sangrento, que não podia dividir a sociedade norte-irlandesa entre os que estão “connosco” e os que estão “contra nós”. A partir daí foi extremamente cuidadoso para não confundir o IRA com todos os irlandeses, e nem sequer com todos os católicos norte-irlandeses (apesar da implantação social do Sinn Féin ser tão grande ou maior do que a da ETA no País Basco). E tentou, sempre que possível, negociar o fim da violência entre terroristas católicos e protestantes – até que uma vez conseguiu. Ninguém diz que é fácil. Mas é melhor do que ficar num beco-sem-saída de dedo em riste.

***

Escrevendo ontem sobre a desnecessidade do referendo Europeu, Rui Ramos parece conformado: o mini-tratado actual não é assim tão mau e as consequências de um “não” português seriam tão terríveis que ninguém de bom senso desejaria correr tal risco.

Eu diria que é um erro falar como se já houvesse tratado: não há. O que saiu de Bruxelas foi o mandato para que uma Conferência Inter-Governamental redigisse um tratado dentro de certos limites, o que é outra coisa. Se começamos desde já a dizer que não precisamos de referendar o resultado, o resultado pode vir a ser bem diferente do que aquele que imaginamos; mas aí já será tarde. E isso nem é o mais importante. O que eu não entendo mesmo é o princípio de que como as consequências de um “não” seriam catastróficas é melhor nem nos perguntarem nada. Eu prefiro que os portugueses votem mesmo que saibam que só o “sim” lhes serve, porque o “não” constituiria uma auto-exclusão da Europa. Todas as decisões têm consequências. Mas há uma diferença enorme entre um noivo que decide casar porque não quer encarar as consequências de dizer “não” e um noivo a quem casam sem sequer o deixarem dizer “sim”.

junho 27, 2007

O ponto cego

[Público 26 junho 2007]

Nunca, em nenhuma introdução à política de um lugar, é indiferente saber qual é o sentido de voto da maioria da população. Menos ainda se esse sentido de voto é constante há décadas.

Anda por aí uma publicidade em que se apresentam fotografias de Lisboa sem os monumentos principais e alguém diz: “parece que havia ali um castelo”, ou “isto tinha aqui uma torre – de Belém, ou lá o que era”. Agora imaginem que alguém tinha visitado Lisboa e ao regressar lhe perguntavam pelo Tejo. Tejo, qual Tejo? Não vi lá Tejo nenhum. Não só passa um rio em Lisboa como parece impossível que alguém pretenda descrever a cidade ser dar conta desse facto.

No entanto, o impossível acontece. Considere-se o texto de Helena Matos no Público de ontem.

Logo no primeiro parágrafo, o leitor verá que se trata de uma introdução à política do País Basco espanhol. No segundo parágrafo, confirmará que a autora lamenta o desconhecimento da realidade basca em Portugal, “apesar da proximidade geográfica”. Mas se percorrer todo o texto até à última palavra do último parágrafo, o leitor ficará sem saber quem ocupa neste o governo do País Basco, qual é o nome do seu presidente ou em que partido vota a maioria dos seus eleitores.

Será possível falar da política no País Basco sem dizer que ela é dominada pelo centenário Partido Nacionalista Vasco, de centro-direita, que ocupa o governo da região desde 1980 e que tem ganho sistematicamente todas as eleições locais nas últimas décadas? Que diríamos se um jornalista estrangeiro desejasse escrever sobre política madeirense sem falar de Alberto João Jardim ou, em termos gerais, sem dizer quais são os principais partidos na região e quais foram os resultados nas eleições mais recentes? Não é possível escrever sobre política madeirense sem explicar que o PSD-Madeira tem ganho todas as eleições no arquipélago desde 1974, e essa lacuna seria tanto mais grave se o jornalista em causa pretendesse desvendar-nos a verdade sobre a política madeirense.

Tenho, portanto, este problema de base com o texto de Helena Matos: nunca, em nenhuma introdução à política de um lugar, é indiferente saber qual é o sentido de voto da maioria da população. Menos ainda se esse sentido de voto é constante há décadas.

Há, como é evidente, uma boa razão para Helena Matos não ver este elefante na sala de jantar. A explicação é que ele se encontra tapado por outro elefante, o terrorismo da ETA, sem o qual também não se pode falar de política no País Basco. Partilho com Helena Matos a condenação sem hesitações da ETA, e estou disposto a tomar como fundada a sua opinião de que a ETA não está (infelizmente) isolada na sociedade basca. Mas não podemos esquecer que os partidos que apoiam a ETA têm tido votações minoritárias nas eleições bascas, só ultrapassando os dez por cento em época de tréguas. Ignorá-lo não é só um erro factual; é acima de tudo um erro de estratégia.

Como qualquer primeiro-ministro de Espanha, Zapatero negociou com o governo do País Basco as questões do País Basco. Com os terroristas da ETA, declarou só ter a negociar o fim do terrorismo. Falhou. Mas só falha quem tenta. Se a ETA chantageia o País Vasco e tenta intimidar a Espanha com a violência e o terrorismo, aí está uma razão para não os considerarmos mais representativos do que aquilo que são. A verdade é que há muito mais gente a votar nos nacionalistas não-violentos, e este é um dado essencial para toda a gente que se preocupa mais com o terrorismo da ETA do que com o nacionalismo do PNV. Só o ignoraremos se deixarmos que a ETA nos cegue.

junho 21, 2007

Confesso que pequei

[Público 20 junho 2007]

O velho Bolkonski era um homem do século XVIII: gabava-se de nunca ter tido um momento inútil na sua vida.


Plagiei o título da minha última crónica – “As Paixões e os Interesses” – a um livro de 1977. Se ninguém mo levou a mal, contudo, é porque as pessoas que poderiam ter dado conta estão provavelmente na mesma posição que eu: gratos ao autor do livro e condenados a repetir de vez em quando algum dos seus achados.

Cheguei a As Paixões e os Interesses por causa de um curioso problema de história literária que encontrei há uns anos. Se hoje perguntarmos a alguém porque gosta de um livro ou de um filme, a resposta comum é: acho interessante. Ora acontece que no século XVIII ninguém daria esta resposta. A justificação aceitável seria que determinado livro é “útil” ou no mínimo “curioso” (que na época poderia quase significar “prático”). “Interessante”, nunca. Raras vezes se encontra a palavra naquela época, e quando se encontra é num sentido diferente do que utilizamos hoje.

É evidente que também há 250 anos as pessoas liam livros por interesse.

Mas as justificações que damos para os nossos actos, e quais delas são ou não aceitáveis, são importantes. E dizem-nos muito sobre uma sociedade. Dizer, no século XVIII, que um livro não era útil ou curioso equivaleria a uma condenação. Dizer hoje que um livro é pouco interessante serve para o mesmo. A explicação egoísta que era inaceitável antes é agora a mais usual. Isto significa coisas muito diferentes a diversos níveis, desde a forma de entender a cultura à maneira de melhor utilizar (ou desperdiçar) o nosso tempo de vida disponível. O velho Bolkonski, uma das personagens secundárias de Guerra e Paz (já agora: um título que Tolstoi plagiou a Proudhon), era um homem do século XVIII: gabava-se de nunca ter tido um momento inútil na sua vida. Para ele, a inutilidade era coisa do diabo; ler um livro por ser “interessante” seria pecaminoso – e coisa de mulheres, o que dava no mesmo. Para os reaccionários de ontem ou de hoje, à direita e à esquerda, a despreocupação, a falta de propósito e o hedonismo continuam a ser pecado.

Foi então, já não sei como, que fui dar com um livro escrito por um economista, Albert O. Hirschman, cujo título era As Paixões e os Interesses, e no qual em pouco mais de cem páginas se aprendia como as paixões foram deixando lentamente de ser vistas como elementos descontrolados e perniciosos do ser humano. O interesse-próprio, em particular, sofrera uma enorme evolução. Em tempos fora visto como um primo da cupidez e da avareza mas fora ganhando valores positivos até ao momento em que o lugar-comum é dizer-se que “se cada um for perseguindo os seus interesses a sociedade ganha como um todo”. Como o termo “interesse” quer também dizer “juro” e “lucro”, outras coisas vieram agarradas a esta evolução e possibilitaram, nas palavras do autor, o “triunfo do capitalismo”. Veja-se a diferença entre Jesus expulsando os vendilhões do templo e as novas igrejas onde os fiéis pedem a Jesus que lhes dê sucesso profissional e financeiro.

Por um lado, o interesse-próprio é uma arma contra a preguiça e apatia. Mas paradoxalmente passa também a ser uma justificação aceitável para actos preguiçosos, como ler um livro que não tem qualquer utilidade. Consequências opostas da mesma evolução, que Albert Hirschman dava a perceber com enorme talento para a maleabilidade das palavras e das justificações que elas sustentam. E assim sucedeu que um livro de um economista me ajudou a entender um problema de história literária, o que foi ao mesmo tempo de uma grande utilidade e muito interessante. Dedico-lhe uma crónica, talvez inútil para os leitores. E faço-o não para expiar um pecadilho (que cometi tanto por interesse como por amor) mas para retribuir. Está publicado em português pela editora Bizâncio.

junho 19, 2007

As paixões e os interesses

Vamos começar assim: um país sem interesses é um país morto. Se alguém comprou terreno que mais tarde vem a valorizar-se pela proximidade de uma infraestrutura importante, como por exemplo um aeroporto, a única coisa que eu tenho a dizer é: bom investimento. Bem jogado. Se há incerteza na localização da nova infraestrutura e o investidor sabe que há dois lugares possíveis em discussão, provavelmente o melhor teria sido investir em ambos para minimizar os riscos. Mas também pode apostar num lugar apenas. Faça o que quiser, menos esperar que o resto do país tome uma decisão em função dos seus interesses. Isso seria transferir para a comunidade o risco que cabe ao investidor.

Por outro lado, o país não pode querer colocar um aeroporto num lugar onde não beneficie ninguém.

Não só porque isso vai contra o objectivo da construção de uma infraestrutura, mas principalmente porque esse lugar não existe. Alguém vai ganhar com a construção de um novo aeroporto. Não podemos dizer que o novo aeroporto é importantíssimo e depois esperar que ele não beneficie ninguém. Um novo aeroporto beneficia regiões, cidades e vilas, umas mais do que outras. Ainda bem.

Em Portugal, contudo, há uma categoria que alega não ter qualquer interesse no assunto. E como não tem interesse, age por puro amor.

De uma confederação de capitalistas como a CIP esperar-se-ia que defendesse o capitalismo. Mas no momento em que esta entra no debate sobre o novo aeroporto, o que nos diz? Que os patronos de um estudo sobre o assunto são empresários anónimos “que não têm quaisquer interesses na localização do novo aeroporto”. E a pergunta é: como raio os foram descobrir? Há empresários de referência em Portugal a quem a localização de um novo aeroporto é indiferente? E que, mesmo nesse caso, gastam dinheiro num estudo sobre o assunto? Fui de fim-de-semana pensando que os nossos empresários são, então, piores do que eu pensava.

Mas entretanto descobriu-se que a Lusoponte ajudou a pagar o estudo; faz sentido, porque seria uma das principais beneficiárias da localização a Sul. E descobriu-se que o governo acompanhou o estudo desde o início; lá se foi a bela desculpa de que os empresários eram anónimos porque temiam represálias do estado. O mundo entrou nos eixos, e uma nova semana começou.

***

E agora, um pouco de pingue-pongue à trois: na sua crónica de sábado passado, Vasco Pulido Valente chama-me “puro” por me ter abstido de comentar o conteúdo do estudo da CIP por causa do anonimato dos seus patronos. É uma acusação divertida para uma crónica cujo título é “Quem Pagou?” e cujo texto é ele próprio um processo de intenções do princípio ao fim: aos que gostam do estudo, aos que não gostam do estudo e aos que nunca ouviram falar do estudo. A única coisa que não se encontra na crónica de Vasco Pulido Valente é a menor referência, uma palavra que seja, ao conteúdo do dito estudo. Não que Vasco Pulido Valente considere irresponsável comentar um assunto sobre o qual não dispomos dos dados todos, bem pelo contrário – esses escrúpulos são para os “puros”. Vasco Pulido Valente até acha que o conteúdo do estudo deve ser comentado mas, infelizmente, não está para se dar ao trabalho de o fazer. Ora isto é impagável e eu devo um franco agradecimento a Vasco Pulido Valente. O meu texto de quinta-feira, que lhe motivou o comentário, tinha por tema os cronistas que privilegiam a desconfiança sobre o conteúdo. Por motivos de espaço, saiu sem ilustração. Fiquei grato por ver Vasco Pulido Valente, dois dias depois, correr para preencher essa lacuna.

junho 15, 2007

Caras e intenções

[Público 14 junho 2007]

Mas no seu pressuposto de que existem sempre motivações ocultas e que estas são sempre mesquinhas e egoístas, a leitura cínica passa a desvalorizar o discurso público. Em consequência, as coisas que cada um diz passam a valer zero; só estão lá para mascarar as motivações reais dos protagonistas.

Uma tradição forte da crónica política portuguesa é escrever num modo a que poderíamos chamar “cínico”, termo que uso aqui (atenção!) sem juízo de valor. Para os meus efeitos, “cínico” quer apenas dizer um modo de refutar posições a partir de intenções. Por exemplo: como a Câmara de Lisboa está falida, cada um dos doze candidatos a governá-la só pode ser movido por razões egoístas. Fulano deseja vingar-se, sicrano gosta de aparecer, beltrana quer uma carreira política.

Ora, cada modo de escrever crónica tem por detrás uma imagem nobre do que deve ser o papel do cronista.

Por detrás do modo cínico está a ideia muito louvável de que o cronista deve ser desconfiado; o seu papel é o de alertar o público para as motivações ocultas dos políticos, etc. Mas no seu pressuposto de que existem sempre motivações ocultas e que estas são sempre mesquinhas e egoístas, a leitura cínica passa a desvalorizar o discurso público. Em consequência, as coisas que cada um diz passam a valer zero; só estão lá para mascarar as motivações reais dos protagonistas. A partir daí basta um passo para substituirmos as intenções dos outros por aquilo que achamos que são as intenções dos outros.

Um bom exemplo está na desvalorização do discurso ecologista, tão bem representada pela crónica de ontem de Helena Matos. Os ecologistas dos anos 80 eram contra o campo de tiro de Alcochete porque isso servia aos interesses do PCP. José Sá Fernandes era contra o túnel do Marquês por capricho e teimosia e “perde votos de cada vez que um automobilista atravessa o túnel do Marquês”, esquecendo-se assim que cada carro que de lá sai em segurança deve alguma coisa às dezenas de alterações que o tribunal impôs ao avaliar a queixa de Sá Fernandes – se foi capricho, foi um capricho que salva vidas. Quanto aos ecologistas da Quercus ou da LPN, tornaram-se “membros do staff socialista” e a sua função é somente encontrar um bicho qualquer que justifique uma opção política. E agora o PP e o BE descobriram a ecologia porque na ecologia há votos.

Mas há riscos neste tipo de leitura. O primeiro, e mais importante, é que atira temas inteiros para a agenda dos adversários. Se a ecologia é “de esquerda“ e os direitos das minorias são “de esquerda“, a esquerda agradece o presente. E é por isso, para dar um exemplo, que a direita em Lisboa não tem discurso sobre problemas urbanos.

Um segundo risco é que poucos aguentam ver a leitura cínica aplicada a si mesmos. Se digo que o político X faz propostas porque é vaidoso, ele pode responder que eu o digo porque sou preguiçoso. Se digo que o ecologista Y é só caprichoso, ele pode responder que eu sou só mesquinho. Eu gostaria que levassem a sério as minhas genuínas (talvez equivocadas, mas genuínas) intenções. É útil ter em mente que do outro lado está um rosto e um nome que deseja o mesmo.

Mas atenção. O rosto e o nome do outro lado são essenciais: funcionam como penhor daquelas opiniões. E é por isso que, pesando todos os riscos de que falo, não comentarei o documento da CIP sobre a localização do novo aeroporto enquanto a CIP não disser quem são os trinta empresários que financiam aquele estudo. Num debate já tão poluído e baralhado, e onde pouca gente tem competência para julgar o estudo pelos seus méritos intrínsecos, cada interveniente tem de vir às claras. Para mim, em consequência, a CIP até pode ter o melhor estudo técnico do mundo se me disser quem o pagou. Terei todo o prazer em comentá-lo e prometo não responder que se trata de interesseiros só porque são empresários. Mas enquanto eu não souber quem eles são, o estudo que eles pagaram é como se não existisse.

junho 14, 2007

Sintomas de melhoras

[Público 12 junho 2007]

Na Lisboa real não parece verosímil que os carros estejam em cima do passeio por excesso de poder político. Na Lisboa real, poucos lisboetas acharão que o caso Bragaparques é um sintoma do excesso de poder político. E, na Lisboa real, é difícil dizer que há poucos centros comerciais.

Hoje à noite há Santo António, e eu começo por lançar dois foguetes de regozijo pelo último texto de Helena Matos. O primeiro é por ter decidido que, afinal, sempre vale a pena discutir Lisboa. O segundo é por, pela primeira vez, tê-la visto apoiar uma proposta concreta para a cidade. Para minha surpresa, e quiçá da própria, trata-se de uma bandeira eleitoral do Bloco de Esquerda – mas já lá vamos.

Para contrabalançar, Helena Matos mantém que assistimos à “afirmação dum discurso autoritarissimo como sinónimo de defesa da cidade”. Mas para o tentar provar usa dois elementos extravagantes que colocam em causa o argumento no seu conjunto.

Como sintoma decisivo dessa interpretação, Helena Matos apresenta «a recuperação da figura de Duarte Pacheco como a do autarca ideal de Lisboa», uma interpretação que dificilmente será corroborada por alguém que acompanhe a campanha lisboeta com um pouco de atenção. Mas em seguida Helena Matos introduz a personagem central do seu texto, a que chama “o habitante da cidadela lisboeta” e cujos hábitos descreve assim: “O habitante da cidadela lisboeta não morre (...) não anda de automóvel e muito menos atravessa túneis ou recorre a parques de estacionamento. Opõe-se à abertura de qualquer centro comercial pois só faz compras no comércio tradicional». Neste segundo caso, o elemento extravagante está em que a própria Helena Matos admite “que este lisboeta não existe”. E até chega a confirmar: “pois não”. Aquele lisboeta caricatural está ali só como contraponto à caricatura do lisboeta do “pátio das cantigas” no tempo da ditadura.

Na minha modesta opinião, não é possível sustentar um argumento com base num sintoma invisível e numa personagem inexistente. Mas não me queixo. Desta forma são as próprias personagens de Helena Matos que melhor rebatem o seu texto: Duarte Pacheco por falta de comparência e o “lisboeta da cidadela” por nem sequer existir. É que discutir com caricaturas pode ter as suas vantagens mas cai num problema fatal: deixa aos outros o espaço para se discutir com a realidade.

Ora, se a Lisboa imaginária de Helena Matos é uma cidade onde “os grandes problemas resultam mais da intervenção do poder do que da sua ausência”, a Lisboa real está aí para responder. Na Lisboa real não parece verosímil que os carros estejam em cima do passeio por excesso de poder político. Na Lisboa real, poucos lisboetas acharão que o caso Bragaparques é um sintoma do excesso de poder político. E, na Lisboa real, é difícil dizer que há poucos centros comerciais.

Sendo assim, o que é sintomático é a pergunta com que Helena Matos termina o texto: “como é possível que na área de Lisboa não se consiga ter algo tão simples quanto um cartão que se poderia usar em todos os transportes públicos em vez das dezenas de títulos de transporte actualmente existente?”. É a primeira vez que a vejo apoiar uma proposta concreta e aqui lanço um terceiro foguete: já é mais do que tempo de unificar as centenas de títulos de transporte em vigor na Grande Lisboa. Mas não por acaso, esta proposta só é viável através de uma inédita intervenção do poder sobre os operadores de transportes, boa parte dos quais pertencem a privados. Não é difícil imaginar que alguém a atacasse com o mesmo tipo de argumentos que Helena Matos tem aqui utilizado: é uma medida uniformizadora, que faz prevalecer uma visão política do interesse comum sobre as estratégias de concorrência dos privados. Mas é aplicada em muitos dos melhores exemplos de gestão urbana por esse mundo fora e, sintomaticamente, ninguém se queixa de que é “autoritaríssima”.

junho 11, 2007

Actualização

A propósito deste texto, recebi uma mensagem do Notícias de Viseu com a seguinte nota, que encerra o assunto sem sobressalto:

junho 10, 2007

Parem as máquinas


Richard Rorty, 1931-2007.

junho 08, 2007

Na feira do livro

junho 07, 2007

Alô, redacção do Notícias de Viseu?

O Notícias de Viseu auto-intitula-se como o "O jornal com maior Audiência do Distrito de Viseu", o que lhe empresta ecos daquelas saudosas noites do Festival RTP da Canção em que o Fialho Gouveia ligava sucessivamente para as redacções dos jornais de cada distrito que, em chamadas telefónicas roufenhas, respondiam com as pontuações para cada música a concurso. Mas chega de memórias longínquas.

Aqui há umas semanas um leitor deixou um comentário neste blogue perguntando quem tinha, afinal, escrito o texto "O Ideal Universitário", que saiu no Público de 11 de Abril deste ano, a propósito do caso UnI. Estranhei a pergunta: como é evidente, fui eu que escrevi o texto. Todas e cada uma das palavras dele. Mas junto ao comentário vinha um linque que dava para uma página internet do Notícias de Viseu. E nessa página internet estava um texto chamado "O Ideal Universitário". E nesse texto todas e cada uma das palavras, da primeira à última, eram iguais às que eu tinha escrito, na mesma ordem e com a mesma pontuação, com um parágrafo a menos. Tudo era meu, excepto o nome: o texto vinha assinado por A. Amaral. Certamente uma alma gémea. O senhor (ou senhora) Amaral (António? Ana?) acha as mesmas coisas que eu, da mesma forma e exactamente seguindo o mesmo processo mental.

O meu texto saiu no Público de 11 de Abril e está no disco duro do meu computador como tendo sido escrito na véspera. O texto de "A. Amaral" saiu no Notícias de Viseu de 2 de Maio seguinte. Como é evidente, se o Notícias de Viseu gostou do meu texto, bastava terem escrito a pedir para o publicar.

Em suma, só há três hipóteses para esta coincidência:

1: A. Amaral escreveu um texto igual ao meu, por acaso, três semanas depois do meu ter sido publicado.
2: Eu fui ao futuro roubar o texto de A. Amaral (é uma técnica que uso quando estou desinspirado). Acrescentei um parágrafo a mais para disfarçar.
3: A. Amaral ou alguém do Notícias de Viseu veio ao passado copiar o meu texto. Tirou um parágrafo para caber no espaço disponível.

Uma das hipóteses é altamente improvável. A outra parece que é impossível, não se sabe se física ou tecnologicamente. Como não quero ser chato, deixo ao Notícias de Viseu e aos leitores a identificação da hipótese que sobra.

Sopram ventos frios

[Público 06 junho 2007]

A ideia era substituir a Guerra Fria por outra Guerra Fria, porque só nesse ambiente aquelas mentes visionárias se sentiam bem. Os resultados têm sido menos reconfortantes.

O homem que foi ontem condenado a 30 meses de prisão já foi um alto funcionário da Administração Bush. Era o antigo chefe de gabinete de Dick Cheney, vice-presidente dos EUA, e foi considerado culpado de quatro crimes: obstrução à justiça, falso testemunho e dois perjúrios, ou seja, mentiras perante o tribunal. O preço que pagou pelas suas falsidades e omissões parece caro, mas foi o próprio que o preferiu ao preço do crime que ajudou a encobrir – revelar a identidade de uma agente secreta americana, um crime grave nos EUA, por se considerar que tal acto coloca em risco a vida da própria, dos seus próximos e dos seus contactos. Mesquinhas parecem ser as razões que levaram a que esses riscos fossem corridos: difamar um embaixador americano, marido dessa agente secreta, que refutara em público um dos pretextos que Bush alegara para invadir o Iraque.

O homem que foi ontem condenado é mais conhecido pela alcunha: Scooter Libby, em vez de I. Lewis Libby. Aliás, poucos sabem que significa a inicial do seu primeiro nome. Irving? Irv?

Há um lado romanesco nesta história que lhe empresta ecos de Watergate. Até o nome de Libby é vagamente homófono do de Gordon Liddy, o primeiro assessor da Casa Branca a ser condenado, em Janeiro de 1973, pelas malfeitorias de Nixon. Tal como hoje, havia nelas um lado reles e vingativo: por exemplo, forjar uma carta para difamar Ed Muskie, um dos mais sérios adversários que o Partido Democrático tinha para enfrentar Nixon. Se as consequências da história de hoje não subirem como nesses anos, em que provocaram a queda do presidente, é porque Libby se aguentou como um dique e impediu a maré de chegar mais alto.

Mas se há aqui ecos de Watergate é também por outra razão: aí começaram as carreiras de muitos dos intervenientes nesta história. Quando Nixon resignou e foi substituído pelo vice-presidente Ford, este trouxe consigo dois jovens políticos. Um deles chamava-se Dick Cheney. Corria o ano de 1974 e uma das suas missões na altura era travar as ambições de George Bush pai, já então um dos principais pretendentes ao lugar de vice-presidente. Outro chamava-se Donald Rumsfeld e saiu há poucos meses, em desgraça, da administração de Bush filho. Outros companheiros desse tempo eram Paul Wolfowitz, que foi forçado a demitir-se do Banco Mundial há apenas duas semanas, e Richard Perle, que entretanto se demarcou da Guerra do Iraque. Tal como Perle, Scooter Libby é um intelectual com ambições literárias: durante vinte anos trabalhou num extravagante romance que se passa no Japão, em 1903. Talvez as suas memórias da prisão venham a ser também intrigantes.

Por coincidência, foi ontem também o décimo aniversário da Declaração de Princípios do Projecto para um Novo Século Americano (PNAC na sigla original), assinada por muitos destes nomes, incluindo Cheney, Libby e o irmão de George W. Bush. A ideia era que o fim da Guerra Fria deveria ser entendido como uma oportunidade para aumentar os gastos militares e, entre outros objectivos, invadir o Iraque para controlar o Médio Oriente. Ou seja, a ideia era substituir a Guerra Fria por outra Guerra Fria, porque só nesse ambiente aquelas mentes visionárias se sentiam bem. Os resultados têm sido menos reconfortantes.

Curiosamente, também ontem George W. Bush discursou na República Checa criticando duramente a Rússia, embora negando a Putin razões para uma nova escalada retórica ou militar. Aparentemente, o regresso à Guerra Fria é um luxo a que só alguns devem poder aceder. Infelizmente, ninguém acha que dele se deve privar.

É quase verão e já voltaram as vagas de calor. Mas sopram ventos que parecem vindos de 1970.

junho 04, 2007

O brilharete

[Público 04 junho 2007]

O embaraço da missão está num momento em que os líderes europeus se deixaram extravasar pelas emoções e, como é hábito nessas ocasiões, disseram um monte de coisas de que viriam a arrepender-se depois.

Uma das melhores maneiras de conseguir que se leve a cabo uma tarefa ingrata, ou mesmo indecorosa, é convencer alguém de que ao cumpri-la fará um “brilharete”. Esta técnica funcionará melhor com um sujeito que passe por insignificante mas não deixe de ter a sua vaidade. Como país, Portugal é um inabalável candidato ao óscar do brilharete.

É curioso que não raramente é o próprio que sai prejudicado, embora não o tenha previsto enquanto escutava a lisonja e o encorajamento dos maiores interessados. Nesse caso, chama-se-lhe um “trouxa” – mas discretamente, para não ferir os sentimentos de uma pessoa tão útil.

Aproxima-se agora uma nova ocasião para demonstrarmos os nossos dotes nesse papel, sob a forma da presidência da União Europeia.

O embaraço da missão está num momento em que os líderes europeus se deixaram extravasar pelas emoções e, como é hábito nessas ocasiões, disseram um monte de coisas de que viriam a arrepender-se depois. Mas já foi há muito tempo – 29 de Maio e 1 de Junho de 2005 – e franceses e holandeses tinham acabado de votar não à Constituição europeia. Jurou-se que nunca mais a UE se faria longe dos seus cidadãos e que os seus líderes nunca mais se fechariam no “quarto mais alto da torre”, nas palavras do inimitável Tony Blair.

São coisas que se dizem no calor do momento, como explicaria recentemente Cavaco Silva: “às vezes, avança-se para essas coisas sem pensar bem nas consequências e, depois, discute-se é como corrigir”.

Como corrigir, então? Sarkozy tem uma ideia: faça-se um mini-tratado com três características fundamentais. A primeira é referir-se sempre a ele como “mini”, um abre-te sésamo para muita gente. A segunda é chamar-lhe tratado em vez de “constituição”, o que deverá funcionar com os restantes. A terceira – e única que tem a ver com actos e não palavras – é nunca o referendar.

Tirando isto, não se sabe nada sobre o mini-tratado, a não ser que será um conjunto de regras fundamentais sobre a maneira como as coisas se fazem na UE – pensando bem, não é isso mesmo que costumam ser as constituições? E na maneira como as coisas se fazem encontramos já duas regras fundamentais. Uma é fugir ao referendo. A outra é caminhar para o directório dos países grandes, solução que permitirá vencer com facilidade as objecções da Espanha e da Polónia.

Esta reincidência em fazer as coisas “no quarto mais alto da torre” tem o seu custo, que nenhum líder gosta de pagar sozinho. Mas é preciso dar o passo decisivo a tempo de se ratificar tudo antes das eleições para a única instituição em que os europeus votam – o Parlamento Europeu, onde verdadeiramente se deveria discutir a constituição. Felizmente, agora só é preciso arranjar alguém para fazer um brilharete.

Perante uma bateria de jornalistas portugueses, perguntou-se a Durão Barroso se era por patriotismo que gostaria de ver o “mini-tratado” decidido durante a presidência portuguesa. Durão respondeu logo que não, mas depois de olhar em torno para ver se não havia por ali algum jornalista estrangeiro sorriu e acrescentou que “sim, um bocadinho”. Ora aí está: Durão é um mestre na arte do brilharete, como se viu na Cimeira das Lajes, antes de começar a Guerra do Iraque. Mas hoje, cada aniversário dessa ocasião é lembrado em todo o mundo como um momento vergonhoso de desrespeito pela vontade dos cidadãos.

Ao ouvi-lo, lembrei-me de que também eu teria um mini-tratado a propôr aos nossos líderes. É a citação de Tucídides que estava no preâmbulo da Constituição, e mais curto não me parece que seja possível. É uma frase apenas: “A nossa constituição é chamada de democracia porque nela o poder está nas mãos, não da minoria, mas do maior número.”

junho 01, 2007

O Arquitecto

Tenho um novo livro cá fora, ainda sem data de lançamento marcada, mas que já está na Feira do Livro de Lisboa a partir de hoje. Eu estarei por lá às 21h30, na banca da tinta-da-china edições. A Feira é sempre uma ocasião agradável para ver amigos, conhecer gente nova, conversar. Aqui em baixo encontra-se o convite da editora (cliquem para aumentar). Da minha parte, considerem-se também convidados.

Ó vizinha, dá licença?

[Público 31 maio 2007]

Criar ruas pedonais e destinar a venda de património do Estado à habitação para todas as bolsas é apenas “proibir e fazer engenharia social” – separar lixos, então, imagino que nos leve ao Gulag.


Vamos recapitular. Na segunda-feira, Helena Matos descobriu a pólvora: que “o Estado Português exerce o seu poder de uma forma socialmente injusta”, defendendo com mais celeridade os interesses de uma empresa como a Lacoste do que a integridade física das suas cidadãs alvo de violência doméstica. Concordo sem reservas; acho até que os direitos das pessoas são mais importantes do que os direitos das empresas, nomeadamente a prerrogativa um pouco tola de ser a única companhia no mundo que pode coser um crocodilo numa camisa.

Partindo do princípio que os leitores não pagam o jornal para ver chover no molhado, usei a coluna para aquilo que, salvo erro, ela serve: apresentar ideias sobre temas da actualidade. Acontece que há eleições na maior cidade do país. Como propor coisas não é o monopólio dos políticos, eu tinha pedido aos leitores que enviassem as propostas que gostariam de ver discutidas, e discuti-as.

No dia seguinte, Helena Matos teve um chilique por escrito.

Que eu tinha transformado a coluna num “dazibao” com “fascículos interactivos”. Que a campanha para Lisboa “ainda não começou”. Que “não sei bem o que restará destas crónicas em Julho”. Que estava “disposta a ceder o espaço” das suas colunas. Que “preciso de férias”. Que “a forma escolhida por Rui Tavares destoa claramente do tom desta coluna e dos seus outros textos”.

Pouco importa. Um texto de opinião assinado com o meu nome serve para eu escrever sobre o que eu desejar, quando desejar, no tom que desejar. Não tenho feitio para aturar controleiros.

De caminho, fico enternecido por ver como Helena Matos receia que outro colunista possa tornar-se repetitivo e que lhe causa incómodo ele “destoar”. Só há uma maneira fácil de nunca destoar: é ser monotóno. Mas acho que, tal como com os crocodilos da Lacoste, já alguém registou esse exclusivo. Helena Matos parece acreditar que para debater com a esquerda basta acusá-la, recorrentemente, de totalitarismo. Ainda não percebeu que a única coisa que esse argumento revela é a sua própria miséria como argumento.

Tal compulsão aplicada ao debate sobre Lisboa deu nisto: para Helena Matos, criar ruas pedonais e destinar a venda de património do Estado à habitação para todas as bolsas é apenas “proibir e fazer engenharia social” – separar lixos, então, imagino que nos leve ao Gulag. Já propor eleições primárias e fóruns consultivos é um programa “autoritaríssimo”. A esta nem chegamos lá com o exemplo de todos os países que têm ambas as coisas, dos EUA à Espanha. Que não será então autoritário segundo esta opinião: esperar que o chefe do partido designe o candidato? E quanto ao fórum da cidade, tenho uma péssima notícia. No próprio dia em que Helena Matos publicou o seu texto foi anunciada a criação de um. É azar, não?

E assim chegamos ao último parágrafo, onde se lê: “se o programa de Rui Tavares fosse seguido, Lisboa seria a cidade onde trabalhariam e circulariam os Pini Pons autorizados. Os outros partiriam à noite para o Camboja”. Que dizer? Julgava eu que para acusar as ideias de outrem de levarem aos horrores do totalitarismo seria forçoso apresentar pelo menos um vestígio de argumento. Afinal não; basta insinuar com uma metáfora meio-infantil meio-maoísta que resume perfeitamente o conteúdo de todo o texto e a que me dispenso de responder. Nunca fui maoísta. Tenho pena de quem tenha sido. E no Camboja foram assassinados quase dois milhões de pessoas que me abstenho de utilizar em polémicas sobre outros assuntos.

Quanto ao resto, os leitores poderão continuar a usar o endereço http://ruitavares.weblog.com.pt/ para enviar sugestões a que regressarei numa próxima ocasião. A Helena Matos também pode lá deixar as suas ideias para a cidade. Se tiver alguma.