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Caras e intenções

[Público 14 junho 2007]

Mas no seu pressuposto de que existem sempre motivações ocultas e que estas são sempre mesquinhas e egoístas, a leitura cínica passa a desvalorizar o discurso público. Em consequência, as coisas que cada um diz passam a valer zero; só estão lá para mascarar as motivações reais dos protagonistas.

Uma tradição forte da crónica política portuguesa é escrever num modo a que poderíamos chamar “cínico”, termo que uso aqui (atenção!) sem juízo de valor. Para os meus efeitos, “cínico” quer apenas dizer um modo de refutar posições a partir de intenções. Por exemplo: como a Câmara de Lisboa está falida, cada um dos doze candidatos a governá-la só pode ser movido por razões egoístas. Fulano deseja vingar-se, sicrano gosta de aparecer, beltrana quer uma carreira política.

Ora, cada modo de escrever crónica tem por detrás uma imagem nobre do que deve ser o papel do cronista.

Por detrás do modo cínico está a ideia muito louvável de que o cronista deve ser desconfiado; o seu papel é o de alertar o público para as motivações ocultas dos políticos, etc. Mas no seu pressuposto de que existem sempre motivações ocultas e que estas são sempre mesquinhas e egoístas, a leitura cínica passa a desvalorizar o discurso público. Em consequência, as coisas que cada um diz passam a valer zero; só estão lá para mascarar as motivações reais dos protagonistas. A partir daí basta um passo para substituirmos as intenções dos outros por aquilo que achamos que são as intenções dos outros.

Um bom exemplo está na desvalorização do discurso ecologista, tão bem representada pela crónica de ontem de Helena Matos. Os ecologistas dos anos 80 eram contra o campo de tiro de Alcochete porque isso servia aos interesses do PCP. José Sá Fernandes era contra o túnel do Marquês por capricho e teimosia e “perde votos de cada vez que um automobilista atravessa o túnel do Marquês”, esquecendo-se assim que cada carro que de lá sai em segurança deve alguma coisa às dezenas de alterações que o tribunal impôs ao avaliar a queixa de Sá Fernandes – se foi capricho, foi um capricho que salva vidas. Quanto aos ecologistas da Quercus ou da LPN, tornaram-se “membros do staff socialista” e a sua função é somente encontrar um bicho qualquer que justifique uma opção política. E agora o PP e o BE descobriram a ecologia porque na ecologia há votos.

Mas há riscos neste tipo de leitura. O primeiro, e mais importante, é que atira temas inteiros para a agenda dos adversários. Se a ecologia é “de esquerda“ e os direitos das minorias são “de esquerda“, a esquerda agradece o presente. E é por isso, para dar um exemplo, que a direita em Lisboa não tem discurso sobre problemas urbanos.

Um segundo risco é que poucos aguentam ver a leitura cínica aplicada a si mesmos. Se digo que o político X faz propostas porque é vaidoso, ele pode responder que eu o digo porque sou preguiçoso. Se digo que o ecologista Y é só caprichoso, ele pode responder que eu sou só mesquinho. Eu gostaria que levassem a sério as minhas genuínas (talvez equivocadas, mas genuínas) intenções. É útil ter em mente que do outro lado está um rosto e um nome que deseja o mesmo.

Mas atenção. O rosto e o nome do outro lado são essenciais: funcionam como penhor daquelas opiniões. E é por isso que, pesando todos os riscos de que falo, não comentarei o documento da CIP sobre a localização do novo aeroporto enquanto a CIP não disser quem são os trinta empresários que financiam aquele estudo. Num debate já tão poluído e baralhado, e onde pouca gente tem competência para julgar o estudo pelos seus méritos intrínsecos, cada interveniente tem de vir às claras. Para mim, em consequência, a CIP até pode ter o melhor estudo técnico do mundo se me disser quem o pagou. Terei todo o prazer em comentá-lo e prometo não responder que se trata de interesseiros só porque são empresários. Mas enquanto eu não souber quem eles são, o estudo que eles pagaram é como se não existisse.

Comments

Dá gosto encontrar adversários que debatem razões, que discutem argumentos e afirmam valores. E são raros. O resto são conversas de tasca ou de autocarro, por mais engravatados ou por mais títulos académicos que tenham os seus intervenientes. Mas lá está, as conversas de tasca são muito apreciadas por muito boa gente...

Concordo em absoluto com o comentador anterior.
Fico pasmado com as resposas da Helena Matos

Para mim argumentos muitas vezes sem a minima consistência e muita sobranceria relativamente à "estupida esquerda"

Para mim RT 2o - HM 0

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