De que precisa Lisboa (2)
[Público 29 maio 2007]
Os maiores partidos escolhem os candidatos por édito do chefe e/ou pressão dos aparelhos locais. Os independentes (na verdade, dissidentes dos partidos), depois de recolhidas as assinaturas, estão por conta própria. Os eleitores só têm influência no final do jogo.
Pensar agora nas eleições futuras - Se estas eleições intercalares são atípicas, em grande parte é porque reforçam os defeitos das nossas eleições locais. Mas são também uma ocasião para obrigar os principais actores a compromissos que aumentem a qualidade da democracia local, pensando já nas eleições de daqui a dois anos. Nessa ocasião, eu gostaria de ver...
...programas primeiro, personalidades depois - Os maiores partidos escolhem os candidatos por édito do chefe e/ou pressão dos aparelhos locais. Os independentes (na verdade, dissidentes dos partidos), depois de recolhidas as assinaturas, estão por conta própria. Os eleitores só têm influência no final do jogo. O processo deveria ser outro: abrir em cada área política um debate para constituição de programa, com a participação dos cidadãos que o desejarem. Depois, escolher o melhor intérprete desse programa, no quadro de...
...eleições primárias - A dispersão de votos pode voltar a beneficiar os medíocres já nas próximas eleições, perversamente por efeito do excesso de quantidade e qualidade à esquerda. Para o futuro, uma solução é abrir um período de candidaturas e debate em cada área política, aberto a não-militantes, seguido de uma eleição primária. Como em Itália, cada votante nas primárias paga uma quantia simbólica que contará como donativo para a campanha eleitoral. Caso contrário, teremos de pensar em...
...duas voltas nas eleições locais - A França tem, a Itália tem, o Brasil tem. Portugal deveria ter. O presidente da câmara tem poderes próprios e a relevância política do cargo não tem senão aumentado. Mas é frequente o presidente ser escolhido por cerca de trinta por cento dos eleitores. Não faz sentido. Os primeiros vereadores deveriam ser escolhidos na primeira volta. Os dois candidatos mais votados iriam à segunda volta para se escolher o presidente. Um cálculo misto determinaria a composição final da Câmara.
Um fórum permanente da cidade - Consultivo. Com participações individuais ou de associações locais, de olisipografia, de defesa do património e do ambiente. De preferência funcionaria na internet, com poucas reuniões e formalidades. Seria uma acta permanente das intenções e dos desejos dos munícipes. Dois funcionários bastam para o gerir, um dos quais para receber propostas deixadas em papel nos serviços da câmara, ou enviadas pelo correio, para a população sem acesso à web.
Proteger a Baixa dos carros - O leitor José Silva Jorge quer que a Baixa deixe de ser uma zona de atravessamento de trânsito. Para tal, propõe que se encerre ao transporte privado as ruas do Ouro, da Prata e dos Fanqueiros. As avenidas de acesso à Baixa passariam apenas isso, avenidas de acesso. Daria para se chegar aos parques de estacionamento ou para deixar passageiros mas os carros regressariam pelo mesmo caminho. Plenamente de acordo: uma Avenida da Liberdade com as cinco a sete faixas actuais alimenta a ilusão de que é possível continuar a entupir a baixa com carros. Com esta proposta e a redução de faixas que ela permitiria, a Avenida poderia recuperar parte do seu anterior carácter de Passeio Público.
Uma solução democrática para o património do estado - O leitor José Carlos Guinote vê a venda (ou aluguer, digo eu) do património do estado na cidade como uma oportunidade para repovoar a cidade. Tem é que ser feita com regras especiais, com obrigações num plano de habitação ou utilização para todas as bolsas, garantindo a diversidade social na ocupação desses espaços e edifícios. Vender para a pura especulação imobiliária é substituir um problema por outro, diz este leitor – e eu concordo.
Deixe mais sugestões aqui.
Comments
Antes de mais parabéns pelo blog!
Convido-o agora a visitar:
http://aguia-de-ouro.blogspot.com/
Futebol e política num só!
Obrigado!
Posted by: Tó | maio 30, 2007 12:47 AM
Caro Rui Tavares,
Vi o seu artigo no Público de 31 de Maio. Quero assim deixar as minhas ideias para Lisboa. Não vi outros comentários,programas eleitorais (por não lhes dar crédito) por isso corro o risco de não ser original.
1. Beneficiação da zona ribeirinha de Lisboa, desde a Expo até Belém. Devolver o Rio à cidade (todas as cidades que conheço o fazem) e às pessoas. Impedir a construção em altura para que o sol bata na água e se reflicta para a cidade.
2. A zona da Baixa e Terreiro do Paço sem carros e para as pessoas. O Terreiro do Paço deve ser espaço de comércio e animação ("Praça do Comércio").
3. EPUL não pode ser um agente imobiliário. DEve de facto promover a construção de habitação para arrendamento e compra por parte dos jovens, de preferência reabilitando prédios antigos no centro da cidade.
4. Pensar a política de transportes. Os túneis podem até resolver problemas pontuais de trânsito mas são meros paliativos. É preciso uma politica de fundo, melhorando a rede de transportes públicos.
5. Espaços verdes e livres para prática de desporto ao ar livre.
E fico-me por aqui.
PS: Não sou militante de nenhum partido, não tenho actividade política.
Posted by: Márcio | maio 31, 2007 03:47 PM
Proposta:
aumento da actividade dos transportes públicos em Lisboa e da cidade para os subúrbios no período nocturno, aos fins-de-semana. Quando o metropolino encerra à uma da manhã e parte significativa das carreiras para os suburbios encerra ainda antes da meia-noite ao fim-de-semana, a vida cultural da cidade está comprometida - por exemplo, é dificil ir ao teatro da Cornucópia, que tradicionalmente encena os textos na íntegra, por falta de transportes. Ao sábado, por exemplo, meia-noite é como se fosse meio-dia.
Obrigado.
Posted by: Miguel Domingues | maio 31, 2007 07:06 PM
Onde se lê "metropolino" deve ler-se, obviamente, "metropolitano". Vicissitudes de escrever depressa...
Posted by: Miguel Domingues | maio 31, 2007 07:08 PM