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As palavras que merecemos

[Público 7 maio 2007]

O “respeito” de Sarkozy vem subordinado: é respeito pelo trabalho, pela autoridade e pela moral. Não há mal intrínseco nisso. É apenas diferente do respeito inerente pelas pessoas e pela sua liberdade.

1. Dizem os brasileiros que cada país usa como lema não aquilo que mais tem, mas aquilo de que mais precisa. No Brasil é “Ordem e Progresso”. Na França é “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”.

Uma palavra sozinha pode querer dizer tudo, o que faz com que o seu conteúdo seja nulo, o que faz com que toda a gente concorde. É no meio dos gestos e das outras palavras que ela ganha sentido. Quando Sarkozy disse, no seu primeiro discurso após a vitória de ontem, que seria o presidente “do trabalho, da autoridade, da moral e do respeito” pouca gente poderá discordar da presença do “respeito” naquela lista. Mas não é por acaso que se a palavra “respeito” viesse em primeiro lugar ela quereria dizer uma coisa completamente diferente. O “respeito” de Sarkozy, pelo contrário, vem subordinado: é respeito pelo trabalho, pela autoridade e pela moral. Não há mal intrínseco nisso. É apenas diferente do respeito inerente pelas pessoas e pela sua liberdade (que não estava na lista). Entre o respeito que o estado deve aos cidadãos e o respeito que o estado exige que os cidadãos lhe devam, Sarkozy opta pelo segundo. E não o esconde.

Mitterrand dizia, ao contrário da opinião geral, que a França não é um país de esquerda. A França é um país conservador, cuja administração é arrogante e onde o temperamento fundamental é pouco conciliador. São os bloqueios do sistema que, ciclicamente, abalam este edifício autoritário – e estes abalos, vistos do exterior, parecem maiores do que o edifício. E assim Sarkozy é visto de fora como uma ruptura e não como a continuação do culto presidencial que já vem de Chirac, de Gaulle e mais atrás ainda. Na cabeça de Sarkozy, como na de Napoleão ou de Luís XIV, o estado é ele, a França é o estado, e a Europa começa e acaba onde a França disser.

2. Parece que quando Sarkozy conheceu Sócrates ficou impressionado. Se a história é verdadeira, não foi certamente com os seus dotes de comandante eleitoral do PS. Aparte a sua maioria absoluta, Sócrates já conseguiu fazer o PS passar por três humilhações: nas autárquicas, nas presidenciais e agora nas regionais madeirenses, onde o PS local deixou de existir. Sócrates tem jeito para ganhar eleições sozinho e para abandonar os seus soldados à má fortuna; num dia mau estes fantasmas voltarão para atormentar o general.

Alberto João Jardim ganhou uma batalha retumbante. Mas agora resta-lhe uma guerrilha constante com o governo central, feita com todas as manhas que se lhe conhece, mas que esbarrarão na impassividade de Sócrates e Cavaco Silva. Os madeirenses e os restantes portugueses desistiram de tentar entender-se e infelizmente não podemos contar com a oposição no arquipélago para fazer a síntese. Por uma razão simples: não há oposição no arquipélago. Os próximos anos serão de ressentimento, mesquinhez e, na melhor das hipóteses, indiferença. Nada a que não estejamos habituados.

Nós só usamos como lema as palavras “República Portuguesa”, e faz sentido. Mais uma vez, não é o que temos mas aquilo de que mais precisamos.

Comments

É fantástico que como historiador, escamoteie até a História recente num discurso insistentemente arrogante e tendencioso, aliás comum a todos os opinion makers sem qualquer competência para tal.
A oposição na Madeira nunca existiu. Nunca teve qualquer expressão. Por razões óbvias: o populismo e o controlo total de todos os sectores estratégicos na Madeira por João Jardim, não deixa espaço para qualquer oposição. Não há vitória, mas apenas mais um dos efeitos perversos do desrespeito pela democracia. Em causa estava e está, acabar de vez com desregramento das finanças regionais, mas talvez não se lembre. Convém recordar-lhe, já que a sua memória como historiador é curta, são os contribuintes, suponho que você será um deles, que pagam o populismo de João Jardim. Pelos vistos, quer continuar a sê-lo. Alguma imparcialidade seria possível, se o fel e o mel ....fossem menos comuns neste país que promove medíocres. Um senhor é um deles, a julgar pela sua actividade de opinion maker.

Brovo! Mais claro não é possível.
Esperam-nos tempos difíceis para nós e para a europa.

a exma Dona Sommer aprendeu a soletrar "opinion maker", achou-se muito competente por isso e voltou a repetir

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