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abril 26, 2007

Em busca do dia perfeito

[Público 25 abril 2007]

Dias destes, meus queridos amigos, há muito poucos na história de um país, e a pouquíssimos é dada a oportunidade de vivê-los.

A pergunta com que se começa é sempre: como escolher as palavras? É a pergunta que eu me faço, que sou forçado a fazer-me, mas em cada texto ela é mais implícita do que explícita. Hoje essa pergunta tem uma forma e uma personagem concreta.

Há trinta e três anos, em plena confusão do Largo do Carmo, pediram a Francisco Sousa Tavares que escolhesse as palavras.

À frente dele, uma multidão assistia a um golpe militar da maneira mais bizarra que se pode imaginar: em cima dos acontecimentos, em cima das árvores, no meio das partes beligerantes. Os militares não davam conta do recado e daí o pedido, a um civil, que se dirigisse à multidão de civis. No fundo, que realizasse o primeiro discurso político da democracia. Caso viesse a haver democracia.

É por isso que me pergunto: como conseguiu Francisco Sousa Tavares escolher as palavras certas, assim de repente e naquele lugar? As palavras que saíram, conforme preservadas em banda magnética, foram estas:

“Povo português, vivemos um momento histórico como desde os dias de 1640 não se vive: é a libertação da Pátria!”

Imagino Francisco Sousa Tavares observando aqueles acontecimentos inesperados, exaltantes, inacreditáveis até. Ao mesmo tempo, não parava de vasculhar na sua mente: quando terá havido, na história deste país, algo que se compare ao que estou vivendo? Há cem anos atrás? Há duzentos? Com as referências históricas que lhe eram próprias, a data a que chegou estava mais de trezentos anos para trás. Outros chegariam a outras datas. Pode dizer-se até que há uma certa candura em falar de história a uma multidão: quantas daquelas pessoas saberiam o que “1640” significava? Mas estou certo que ninguém deixou de compreender o que Francisco Sousa Tavares tinha para dizer: dias destes, meus queridos amigos, há muito poucos na história de um país, e a pouquíssimos é dada a oportunidade de vivê-los. Todos compreenderam isto, ou algo como isto: provavelmente, até já o sabiam antes de ser dito.

Nesse sentido, estas foram as palavras certas para o dia perfeito. Efectivamente, que outro dia português se lhe pode comparar? Continua aberta a pergunta que Francisco Sousa Tavares fez a si mesmo. Percorra-se as cronologias em busca de datas e os calendários atrás de feriados. De poucos dias, como de 25 de Abril de 1974, se poderá dizer: amanheceu numa ditadura com polícia política, censura, presos de opinião. Quando entardeceu tudo isso era inaceitável, e essa é a diferença que acaba com qualquer regime. Vejam que todos os regimes, do mais livre ao mais brutal, se fundam no consenso. Voluntário ou forçado. Nem que seja o consenso do medo. Se as pessoas se apinhavam naquela praça, entre o quartel e os tanques, era porque o consenso do medo tinha acabado.

No que a dias perfeitos concerne, seja na vida de uma pessoa ou de um país, sabemos que eles são poucos e sabemos que viram tudo do avesso. Foi o que aconteceu também. Pelo caminho descobriu-se que havia outras coisas que tinham deixado de ser aceitáveis: eleições forjadas, guerras absurdas, donos da nação ou da história. É claro que antes e depois de um dia perfeito, os outros podem parecer cinzentos, penosos, absurdos. Acontece assim, e acontece muitas vezes.

Mas não ter vivido o dia perfeito seria como nunca ter vivido de todo.

abril 24, 2007

Clichés-sur-France


[Público 23 abril 2007]

Ségolène navegou para o centro, pelo que deve ter coragem de assumir o que toda a gente já percebeu: que está mais próxima de Bayrou do que Bayrou está de Sarkozy.

Em Portugal cerca de metade dos eleitores não se dá ao trabalho votar para eleger o seu presidente da república. Nas eleições de ontem, em França, participaram 87% dos eleitores. Nos EUA, mesmo em eleições controversas e muito disputadas, a situação é idêntica à portuguesa e à de muitos países industrializados: um em cada dois eleitores não vota. Em França é apenas um em cada sete que não o faz.

Suspeito que pouca gente, em Portugal ou no resto do mundo, dê relevância a este facto.

E não se trata de um acaso: já quando foi o referendo sobre a constituição europeia, ninguém reparou que uma quantidade apreciável dos franceses não só votara como principalmente tinha lido o maçudo tratado de 300 páginas que era submetido à sua apreciação.

No entanto, quem ler tudo o que se escreve sobre a França – e no nosso país é muito – diria que é a democracia francesa que está em crise, ao passo que no resto do mundo vai de vento em popa. A França de hoje não tem amigos e tornou-se num saco de pancada fácil, previsível, dos comentadores mais preguiçosos. A França deixou de ser uma realidade a conhecer ou a investigar; tornou-se apenas num acumulado de lugares-comuns. Para quem conheça bem a França, – não a de há vinte ou trinta anos mas a actual –, a maioria do que se escreve não passa de lixo impresso.

Ontem virou-se finalmente a página sobre uma contelação política que vinha do tempo em que o General de Gaulle era vivo. O que restava da geração Giscard-Mitterrand-Chirac saiu de cena. Não é por acaso que tanto Nicolas Sarkozy como Ségolène Royal foram escolhidos contra o baronato dos respectivos partidos – e que ambos tiveram melhores resultados do que os candidatos da geração anterior. E reparem como as duas derrotas mais dolorosas da noite, mesmo nos extremos mais lunáticos, pertencem a políticos que estão em cena desde o tempo do General: o inominável Jean-Marie le Pen e a trotsquista repetitiva Arlette Laguiller.

Também não é por acaso que o grande vencedor da noite, François Bayrou, vem de um partido menor. Apesar de não ter chegado à segunda volta, a sua aposta numa reinvenção total da política francesa foi validada por quase um quinto dos votantes. Os eleitores de Bayrou não podem a partir de agora ser ignorados, pois são eles que detêm a chave do resultado final.

Sarkozy é sem dúvida o mais brilhante dos dois candidatos que passam à segunda volta, e dificilmente será derrotado. Mas ele sabe que tem contra si o facto de ser divisivo, e por isso encheu o discurso de expressões que devem causar arrepios aos seus apoiantes estrangeiros, reivindicando o direito de “falar contra as deslocalizações”, “ser a favor da protecção sem ser acusado de proteccionismo”, “ver o pleno emprego como meio de chegar à plena cidadania”.

O discurso de Ségolène foi, pelo contrário, tenso e inseguro. Ela sabe que parte para a segunda volta com a derrota no pensamento. Mas é quando já se está derrotado que a liberdade política chega finalmente e todos os riscos podem ser assumidos.

E o risco a assumir é simplesmente este: propôr a François Bayrou um governo de coligação. É verdade que o partido de Bayrou era um aliado tradicional de Chirac. Mas Sarkozy navegou demasiado para a direita, até às águas de Le Pen. E Ségolène navegou para o centro, pelo que deve ter coragem de assumir o que toda a gente já percebeu: que está mais próxima de Bayrou do que Bayrou está de Sarkozy. Numa eleição à alemã, Merkel teve de fazer uma grande coligação com a esquerda. Para ganhar a França sem a dividir, Ségolène terá de fazer o mesmo com o centro.

abril 22, 2007

As armas e os blogues

[Público 19 abril 2007]

Foi através do uso das ferramentas que nos tornámos quem somos e, em certa medida, nós não as fizemos: elas é que nos fizeram. Por isso, uma ferramenta nunca é só uma ferramenta

Quando um atirador tresloucado massacra uma pequena multidão, a discussão recorrente é sobre o controle de armas. Se a mortandade ocorreu nos EUA, a discussão ganha rapidamente fronteiras irredutíveis, de natureza ideológica, que a impedem de ganhar qualquer valor construtivo. O que é, em parte, a intenção: dentro dos EUA, porque o lóbi das armas é poderoso e pretende bloquear a discussão o mais rapidamente possível; fora dos EUA, porque há quem ache que a única discussão que interessa é a entre pró-americanismo e anti-americanismo. Para uns e outros, interessa defender que a abundância e disponibilidade de armas nos EUA não tem nada a ver com os massacres, de forma que o ideal é encerrar a discussão num chavão e depois forçá-la a não sair dali. O chavão predilecto costuma ser: não são as armas que matam pessoas, as pessoas é que o fazem.

Este chavão tem uma lógica impecável: as armas são, na verdade, objectos inanimados.

Quem diria? Nunca ninguém viu uma arma levantar-se sozinha, dirigir-se a um lugar público e fazer uma chacina. Quando tal acontece, a arma é invariavelmente empunhada ou detonada por alguém. A culpa, portanto, não pode ser da pobre arma mas das malvadas pessoas. Se as armas não têm culpa, não se deve proibir as armas. Deveríamos, talvez, proibir as pessoas?

Quando o discurso começa a não andar muito longe do que seriam os pensamentos tresloucados do atirador (as armas não têm culpa... as pessoas é que são más... vamos acabar com as pessoas... ) é porque o conseguiram colocar abaixo do nível do senso-comum. E se o senso-comum às vezes não nos leva longe, imaginem o que é discutir abaixo do senso-comum. Ora é verdade que as pessoas podem ser perigosas. As pessoas têm surtos de agressividade. Às vezes apetece-lhes que o mundo acabe. É precisamente por isso, aliás, que não devem ter armas por perto. Assim quando tiverem o seu acesso de loucura limitar-se-ão a atirar a sobremesa contra a parede do refeitório universitário (já vi isto acontecer, e confesso que como não era num país onde se vendem armas na mercearia nem cheguei a ficar preocupado).

Com isto esqueci-me de dar continuidade ao pingue-pongue de ontem, que versava sobre a maneira como os blogues começam a ser tratados no discurso político. O procurador-geral da República chegou a afirmar, em pleno parlamento, que isto dos blogues “é uma vergonha”. Ocorreu-me que o chavão pró-armas seria aqui uma resposta possível: os blogues, afinal, não se escrevem sozinhos. São as pessoas que o fazem e, como sempre, há tantos blogues quanto pessoas que os escrevem. Alguns são lixo, mas também é verdade que as pessoas, às vezes, podem ser talentosas. Às vezes têm surtos de genialidade. Às vezes apetece-lhes partilhar uma coisa com todo o mundo, e um blogue é uma belíssima ferramenta para o fazer. Se o procurador-geral não lê blogues e o diz com orgulho isso é, francamente, um problema para a cultura geral do procurador-geral.

E agora? Sei que depois desta analogia entre armas e blogues haverá certamente quem me exija aquilo a que eu chamo coerência com “c” minúsculo. Se a culpa (ou o mérito) é sempre das pessoas, como se explica eu defender ao mesmo tempo o controle apertado para as armas e a liberdade ampla para os blogues?

Porque, na verdade, as pessoas são em larga medida aquilo que as suas ferramentas lhes permitem. A nossa espécie foi homo habilis antes de passar a homo sapiens. Foi através do uso das ferramentas que nos tornámos quem somos e, em certa medida, nós não as fizemos: elas é que nos fizeram. Por isso, uma ferramenta nunca é só uma ferramenta. Com um acesso de loucura e um blogue é possível fazer de tudo. Uma arma oferece possibilidades mais limitadas.

abril 17, 2007

Regresso à escola

[Público, 13 abril 2007]

Ao apresentar o estudo como mero instrumento da profissão, a profissão como mero intrumento do sucesso, e o sucesso medido pela cultura de celebridade, acabamos a degradar tanto o conhecimento como o trabalho.

Até pode ser que o governo tenha uma imbatível estratégia de comunicação. Mas se assim for, fica por explicar como é que o próprio governo põe nas ruas uma campanha sobre a importância de acabar os estudos no auge de uma polémica sobre os estudos do Primeiro-Ministro. Pode ser que algum desses gestores de comunicação bem pagos possa explicar o fenómeno.

Além do escape cómico que proporciona, esta campanha tem outros pontos de interesse. Vou tentar resumi-la, fingindo que é para benefício dos estrangeiros e emigrantes que vivem fora de Portugal, e que verdadeiramente não fazem ideia do que perdem.

Na sua ideia um tanto arrevesada, a campanha mostra celebridades reais “de sucesso” ficcionalmente travestidas em trabalhadores de baixas remunerações em profissões desqualificadas, para às avessas enfatizar a importância dos estudos no sucesso real daquelas celebridades. Num cartaz-tipo vê-se Carlos Queirós, que na realidade é um treinador de futebol de topo no Manchester United, vestido como um apanha-bolas e tratador de relva num estádio de futebol, enquanto o slogan anuncia: “Este é o Carlos Queirós que não acabou os estudos”.

Se há coisa que se pode imaginar é que a campanha foi concebida com toda a boa vontade. A esse nível muito básico, segundo o qual “tudo o que vier” para promover os estudos virá necessariamente por bem, é até um pouco ingrato atacá-la. Mas como muitas ideias excelentes defendidas pelas razões erradas, a campanha tem um fundo pernicioso que vale a pena comentar.

Poderia começar-se por considerar que ela é contaminada por uma cultura que usa o “sucesso” como medida de todas as coisas. Nessa cultura, os estudos aparecem como meramente instrumentais na obtenção do sucesso, como para as crianças a sopa é apenas a provação a que são forçadas pelos pais para poder chegar à sobremesa. O pior, como sabe qualquer pai ou mãe, é que as crianças são rápidas a arranjar contra-exemplos. Então que tal o Cristiano Ronaldo que não acabou os estudos (e vai ser o jogador de futebol mais bem pago do mundo)? E o José Saramago que não acabou os estudos (e é só o Prémio Nobel da Literatura)?

Claro, estes contra-exemplos são raros. Mas há outros bem mais numerosos — e dolorosos também. No nosso tempo e no nosso país o que não falta é gente que acabou os estudos e que desempenha trabalhos mal pagos e mal considerados. Há-os às dezenas em cada call-center, essa espécie de manjedouras onde são despejados depois da universidade e trabalham à comissão pela venda de cartões de crédito. Inevitavelmente, esta falsa promessa de sucesso através dos estudos é para eles uma memória amarga. Um deles, chamado Pedro Vieira e artista de talento, reagiu a este murro no estômago redesenhando o cartaz, mas com o seu caso pessoal. O resultado está no seu blogue em irmaolucia.blogspot.com e, avisa-se já, termina com um merecido palavrão.

Falta ainda acrescentar toda a gente que não pôde estudar mas que gostaria de tê-lo feito independentemente do sucesso, pela simples razão de que acham indesejável viver ignorante. Ao apresentar o estudo como mero instrumento da profissão, a profissão como mero intrumento do sucesso, e o sucesso medido pela cultura de celebridade, acabamos a degradar tanto o conhecimento como o trabalho. Parabéns, ó génios da comunicação!

abril 12, 2007

O ideal universitário

{Público 11 abril 2007}

O resto pode ser importantíssimo. Mas quando se salta a etapa do ideal universitário tudo o resto, por importante que seja, corre mal.

Há qualquer coisa no ideal universitário que o torna difícil de explicar, apesar de ser tão simples. O ideal universitário é as ideias. Ideias sobre como são as coisas, sobre como funcionam, sobre como deveriam funcionar, ideias sobre ideias. Algumas dessas ideias são conhecimento, outra são comentário, outras criatividade, a maior parte delas um pouco disso tudo. Mas é difícil explicar aos alunos, ou até ao resto da sociedade, que dentro daquelas paredes (metafóricas: pode ser cá fora, na esplanada, no trabalho de campo, na visita de estudo) essas ideias devem ter precedência sobre tudo o resto. Se os alunos querem um diploma e os pais pagam por um bom emprego, não é fácil dizer-lhes que por agora a única coisa importante é o que escreveram alguns mortos de há mais de cem anos, ou como se comporta a partícula x, ou que interpretação dar à arte de y. Só depois de ganhar verdadeiro interesse ou paixão por tais coisas chega a altura de se poder começar a tratar de notas, de diplomas e de empregos.

Isto parece idealista, e é.

Não poderia deixar de sê-lo, porque a razão de ser da Universidade é precisamente o idealismo, e não falo da doutrina filosófica do mesmo nome mas do projecto e da experiência histórica de haver um lugar inventado pelas ideias e só para as ideias. O resto pode ser importantíssimo. Mas quando se salta a etapa do ideal universitário tudo o resto, por importante que seja, corre mal.

Esta é uma das razões pelas quais o episódio da Universidade Independente nos enche de vergonha alheia. Sabemos que foram defraudadas pessoas que queriam o seu diploma e pessoas que queriam uma carreira académica, que alunos ficaram sem aulas e professores sem salários. Mas se ouvirmos os autores da fraude, como não esperar este resultado? Desde há semanas nos media só os ouvimos falar de andares e piscinas, lutas pelo poder e diamantes, acções e hipotecas. Nunca por uma vez sequer nos disseram para que queriam uma universidade. Que gostariam de fazer com ela. Que diferentes concepções defendia cada facção em confronto, se é que pensavam em tal coisa.

Infelizmente, estão longe de ser caso único. Os sinais de degradação do Ensino Superior Privado no nosso país são claros: as instituições esquecem-se que antes de serem privadas têm de ser universidades. O relaxamento geral em que viveu a UnI não é, ao contrário do que pretendeu o Ministro, coisa recente nem isolada. O que é preciso explicar é como se deixou atingir este ponto, o que não coloca apenas em causa o seu ministério. Por exemplo: como podem ter leccionado tantos jornalistas importantes na UnI sem a imprensa ter investigado aquele ninho de mafiosos? O ideal universitário pode vingar em qualquer ambiente – público, privado, cooperativo, livre, há excelentes universidades para todos os gostos. Mas é um ideal frágil. Tem de ser protegido sem ser asfixiado: pelo estado, pela sociedade, pelas próprias instituições.

Por mero acaso, Portugal tem algumas condições para se sair bem no mercado universitário, à escala global e a longo prazo. Um país pequeno, agradável e seguro com uma língua falada por duzentos milhões, uma universidade das mais antigas do mundo, uma capital com potencial cosmopolita e meia-dúzia de cidades históricas ou com razoável vida cultural, integração à escala europeia e laços em todo o mundo. Neste contexto, as universidades podem ser boas para o desenvolvimento e para a economia. Mas em primeiro lugar, se não quisermos as universidades para aquilo que elas servem, elas não servirão para mais nada.

abril 10, 2007

Um país de ironias

[Público, 09 abril 2007]

Para pagar os favores que deve às empresas, a CML é relaxada. Para os cidadãos fazerem política ou cultura ou arte a CML é rigorosa.

Para os leitores que não vivem na capital, vamos contextualizar: na maior parte dos dias, não se dá pela existência da Câmara Municipal de Lisboa [CML]. Quando ela se faz notar, é invariavelmente pelas más razões.

Quando a CML desperta da sua hibernação, a suspeita é que vem aí disparate. E na sexta-feira passada (um feriado!) a CML decidiu fazer horas extraordinárias para confirmar essa suspeita. Por uma vez, nesta cidade onde um prédio pode cair antes de uma folha de papel transitar entre gabinetes, a CML foi célere.

E nesta cidade entupida de poluição visual, a CML foi célere para arrancar talvez o único cartaz de grandes dimensões que recebeu os louvores quase unânimes de todo o país, da esquerda à direita: a sátira dos “Gatos Fedorentos” ao cartaz racista do PNR ali ao lado.

(Digo “quase unânime”, porque os racistas reagiram mostrando a sua face, com ameaças de violência física e a divulgação do endereço do colégio onde estuda a filha de um dos humoristas. Como sempre, estes cobardes incitam ao ódio na esperança de que alguém faça o trabalho sujo.)

Enfim: durante uma semana, o país discutiu qual seria a resposta adequada aos racistas. Quando os “Gatos Fedorentos” no-la deram de forma brilhante, esta CML a quem nunca se viu grande queda para o legalismo decidiu que não constituindo eles um partido político, a sua mensagem era publicidade. Neste raciocínio binário só há partidos que fazem propaganda ou empresas que fazem publicidade. Todos nós outros que andamos aqui, cidadãos deste país, eleitores, contribuintes e consumidores, somos parentes menores.

É verdade que a lei prevê regimes diferentes para a propaganda partidária e para a publicidade. Mas isso acontece para impedir as empresas de tomar conta de todo o espaço público, não para dificultar a intervenção cívica. Ora o cartaz dos “Gatos Fedorentos” pode não ser propaganda partidária mas não é certamente publicidade; é antes enquadrável como intervenção artística e deveria ser interpretada com a folga que a lei permite.

Reparem que esta é uma obsessão particular de Carmona Rodrigues: em plena crise da sua vereação saiu para a rua de mangueira em punho para arrancar cartazes de bandas rock. Só que é uma obsessão estranha para quem preside à principal poluente visual da capital e das suas praças emblemáticas, desde o tempo em que Santana Lopes encheu a rotunda com imagens do Marquês defendendo a construção de um túnel, até aos enormes cubos que o Casino de Lisboa colocou por todo o lado, até às massivas esferas da Volkswagen que pagaram a iluminação de Natal. Sob qualquer pretexto até no Terreiro do Paço a CML deixa instalar objectos publicitários de mau gosto. A diferença é que essas empresas contaram com o beneplácito de uma câmara falida. A CML vê o espaço público como um activo publicitário e fonte de receitas. A rua é dela apenas; serve para alugar às empresas e tolerar os partidos. Qualquer outro cartaz – desde o anúncio de uma banda amadora até aos “Gatos Fedorentos” ridicularizando os racistas – é concorrência desleal.

Para pagar os favores que deve às empresas, a CML é relaxada. Para os cidadãos fazerem política ou cultura ou arte a CML é rigorosa.

Resta somente apreciar mais esta genial ironia de um país de ironias, cuja capital é governada por Carmona Rodrigues, engenheiro. É um engenheiro a sério, daqueles com diploma e carteira da ordem. Não percebe é rigorosamente nada de cidades, de liberdade ou de política.

abril 06, 2007

Inconcebível! Inaceitável!

[Público, 05 abril 2007]

E “perder a face”, como sabemos, é a pior coisa que pode acontecer a um político – perto disso morrer, matar e mutilar são problemas menores.

No momento em que escrevo, a imprensa internacional dá como certa a libertação dos marinheiros britânicos que desde 23 de Março estavam reféns das autoridades iranianas. Como já houve guerras que começaram por menos, a confirmação desta notícia trará um momento de alívio ao mundo.

Para os belicistas de um lado e do outro, porém, é uma notícia perturbante. Afinal, vinha aí uma guerra novinha em folha, agora que a do Iraque está velha e gasta. Durante duas semanas vivemos como nos tempos da guerra fria, num mundo de realidades incompatíveis. Tudo era inadmissível ou inaceitável. A única solução era falar grosso e ameaçar com a força. Para o Ocidente era inconcebível admitir que os marinheiros britânicos pudessem ter entrado em águas iranianas, para o Irão era inconcebível que eles não fossem julgados por espionagem a não ser que os britânicos pedissem desculpa. Para os britânicos um pedido de desculpas seria “perder a face”, para os iranianos a libertação dos marinheiros sem pedido de desculpas seria “perder a face”.

E “perder a face”, como sabemos, é a pior coisa que pode acontecer a um político – perto disso morrer, matar e mutilar são problemas menores.

Só um capitulacionista como Hans Blix, o homem a quem foi necessário desautorizar e humilhar para que houvesse guerra no Iraque, poderia sugerir que “a capacidade de perder a face ainda um dia salvará a espécie”. Em inglês rima e tudo (“the ability to lose face / will one day save the human race”), mas esta é sempre uma realidade difícil de engolir. Atrasar assim o relógio da guerra é quase uma deslealdade.

No mundo dos belicistas não há espaço para hesitações: ou se é forte ou se é fraco. Pior ainda: só se é forte se andarmos a proclamar permanentemente a nossa força. No mundo belicista, dialogar já é um sinal de fraqueza e nunca ninguém ouviu falar em desculpas simbólicas e em declarações pró-forma. O reconhecimento de que a fronteira marítima entre Irão e Iraque não foi nunca acordada e uma declaração simultânea sobre como seria desejável evitar qualquer entrada acidental em águas alheias poderia resolver a situação sem nenhuma das partes admitir o erro inicial. Inconcebível! Inaceitável! Inadmissível! Nancy Pelosi, presidente do Congresso americano, desobedeceu ao seu presidente e foi à Síria entregar uma mensagem do israelita Ehud Olmert ao sírio Bachir Al-Assad. Inadmissível! Inaceitável! Inconcebível! A diplomacia funcionou. Inaceitável! Inconcebível! Inadmissível!

Mas os belicistas não devem desanimar. Não faltarão novos casus belli, que é a forma elegante de dizer “pretextos para entrar em guerra”. Qualquer deles será até mais sério do que os últimos. Os iranianos recusam-se a suspender o seu programa nuclear. Os EUA recusam-se a reconhecer o regime iraniano. Ninguém nega que os serviços secretos estejam no terreno iraniano tentando promover rebeliões nas províncias sunitas do Baluchistão e árabes do Kuzestão. Os cinco diplomatas iranianos que foram capturados num consulado do seu país no Iraque sob uma acusação de espionagem continuam presos (não me admiraria que alguma “inadmissível” concessão tenha sido feita em relação a estes cinco reféns para ajudar à libertação dos outros quinze). E, acima de tudo, os belicistas de um lado têm os belicistas do outro, que tudo farão para que desilusões destas não se voltem a repetir.

Para os restantes, contudo, foi um bom dia neste planeta. Quinze marinheiros voltam para casa. A guerra está um pouquinho mais longe. Às vezes, o inconcebível acontece.

abril 04, 2007

Abram-me esses olhos

[do Público de 3 abril]

Com o PSD exangue e o CDS em cacos, a extrema-direita comporta-se como uma infecção oportunista num corpo debilitado. Sabe que tem de aproveitar, agora, a crise da direita enquanto esta lhe dá condições ideais para crescer.

Comentando a visibilidade crescente da extrema-direita na sua coluna de sábado neste jornal, Pacheco Pereira sugere que ela é concomitante do politicamente correcto e da atitude geral da esquerda. Previsível: o discurso da “hipocrisia da esquerda” é o tema único dos nossos neoconservadores, que lhe atribuem tudo e a morte do Manolete. Desde o cavaquismo que esta é a cantilena de Pacheco Pereira. Ainda não aprendeu uma nova.

Se olharmos para a esquerda, o que vemos? O PS está no governo, o PCP e o BE sobem sondagem após sondagem. A batalha histórica da despenalização do aborto foi ganha com quase 60% dos votos, alguns dos quais de uma direita desamparada pelas suas lideranças. Não é à esquerda que estão os votos e também não é ali que estão as causas. A extrema-direita tem visibilidade porque tem actividade, e o motivo precipitante da sua virulência está bem em frente do nariz de Pacheco Pereira.

Com o PSD exangue e o CDS em cacos, a extrema-direita comporta-se como uma infecção oportunista num corpo debilitado. Sabe que tem de aproveitar, agora, a crise da direita enquanto esta lhe dá condições ideais para crescer.

Não vale a pena fingir que não vemos gravidade nisto. As pessoas esquecem-se, mas desde o tempo das FP-25 – como o nome indica, uma excrescência do período pós-revolucionário – que há mais de vinte anos a violência política em Portugal veio sempre desta extrema-direita. Espancaram um actor, esfaquearam até à morte um sindicalista, fizeram uma “caça ao negro” pelas ruas de Lisboa, e em matilha assassinaram o português Alcino Monteiro pelo crime de ser mulato e passear pela cidade. Recentemente foram provocar imigrantes para o Martim Moniz, apostaram forte no concurso dos “Grandes Portugueses” e passaram para a fase da propaganda xenófoba. Mudam de sigla, contornam cuidadosamente a lei, fazem da desonestidade a táctica principal. Quem tiver estômago para os procurar na internet verá que se estão a organizar. Os jornalistas que se dão ao trabalho de os investigar ficam assustados com histórias de tráfico de drogas e extorsão. Mas quando eles vieram empunhar orgulhosamente as suas armas ilegais na TV, o mesmo Pacheco Pereira que vê sinais alarmantes em todo o lado minimizou o assunto para inventar fantasiosas equivalências com a esquerda. A mesma tese que continua a reciclar.

Se o problema não desaparece por o minimizarmos, será que para o levarmos a sério teremos de importar a agenda da extrema-direita? Grave erro. A questão não é a “hipocrisia sobre a imigração” que alega Pacheco Pereira. É a hipocrisia sobre o racismo. A nossa direita blasé tem dificuldade em chamar os bois racistas, violentos e criminosos pelos respectivos nomes de racistas, violentos e criminosos. Prefere antes escandalizar-se com o escândalo da esquerda.

Ora o escândalo da esquerda não é ineficaz por estar errado. É-o porque atinge apenas o seu auditório, maioritariamente já convencido. Marcelo Rebelo de Sousa, no seu comentário televisivo, atacou os racistas enquanto “homem de direita”, demonstrando que ao contrário de Pacheco Pereira percebeu essa ideia simples. A direita tem de cair na realidade actual e fazer, se for capaz, um discurso anti-racista para o seu próprio eleitorado. Quanto mais não seja porque são os vossos eleitores – actuais e futuros – que os racistas sonham roubar-vos. Com mil raios, será que teremos mesmo de vos explicar tudo?