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Clichés-sur-France


[Público 23 abril 2007]

Ségolène navegou para o centro, pelo que deve ter coragem de assumir o que toda a gente já percebeu: que está mais próxima de Bayrou do que Bayrou está de Sarkozy.

Em Portugal cerca de metade dos eleitores não se dá ao trabalho votar para eleger o seu presidente da república. Nas eleições de ontem, em França, participaram 87% dos eleitores. Nos EUA, mesmo em eleições controversas e muito disputadas, a situação é idêntica à portuguesa e à de muitos países industrializados: um em cada dois eleitores não vota. Em França é apenas um em cada sete que não o faz.

Suspeito que pouca gente, em Portugal ou no resto do mundo, dê relevância a este facto.

E não se trata de um acaso: já quando foi o referendo sobre a constituição europeia, ninguém reparou que uma quantidade apreciável dos franceses não só votara como principalmente tinha lido o maçudo tratado de 300 páginas que era submetido à sua apreciação.

No entanto, quem ler tudo o que se escreve sobre a França – e no nosso país é muito – diria que é a democracia francesa que está em crise, ao passo que no resto do mundo vai de vento em popa. A França de hoje não tem amigos e tornou-se num saco de pancada fácil, previsível, dos comentadores mais preguiçosos. A França deixou de ser uma realidade a conhecer ou a investigar; tornou-se apenas num acumulado de lugares-comuns. Para quem conheça bem a França, – não a de há vinte ou trinta anos mas a actual –, a maioria do que se escreve não passa de lixo impresso.

Ontem virou-se finalmente a página sobre uma contelação política que vinha do tempo em que o General de Gaulle era vivo. O que restava da geração Giscard-Mitterrand-Chirac saiu de cena. Não é por acaso que tanto Nicolas Sarkozy como Ségolène Royal foram escolhidos contra o baronato dos respectivos partidos – e que ambos tiveram melhores resultados do que os candidatos da geração anterior. E reparem como as duas derrotas mais dolorosas da noite, mesmo nos extremos mais lunáticos, pertencem a políticos que estão em cena desde o tempo do General: o inominável Jean-Marie le Pen e a trotsquista repetitiva Arlette Laguiller.

Também não é por acaso que o grande vencedor da noite, François Bayrou, vem de um partido menor. Apesar de não ter chegado à segunda volta, a sua aposta numa reinvenção total da política francesa foi validada por quase um quinto dos votantes. Os eleitores de Bayrou não podem a partir de agora ser ignorados, pois são eles que detêm a chave do resultado final.

Sarkozy é sem dúvida o mais brilhante dos dois candidatos que passam à segunda volta, e dificilmente será derrotado. Mas ele sabe que tem contra si o facto de ser divisivo, e por isso encheu o discurso de expressões que devem causar arrepios aos seus apoiantes estrangeiros, reivindicando o direito de “falar contra as deslocalizações”, “ser a favor da protecção sem ser acusado de proteccionismo”, “ver o pleno emprego como meio de chegar à plena cidadania”.

O discurso de Ségolène foi, pelo contrário, tenso e inseguro. Ela sabe que parte para a segunda volta com a derrota no pensamento. Mas é quando já se está derrotado que a liberdade política chega finalmente e todos os riscos podem ser assumidos.

E o risco a assumir é simplesmente este: propôr a François Bayrou um governo de coligação. É verdade que o partido de Bayrou era um aliado tradicional de Chirac. Mas Sarkozy navegou demasiado para a direita, até às águas de Le Pen. E Ségolène navegou para o centro, pelo que deve ter coragem de assumir o que toda a gente já percebeu: que está mais próxima de Bayrou do que Bayrou está de Sarkozy. Numa eleição à alemã, Merkel teve de fazer uma grande coligação com a esquerda. Para ganhar a França sem a dividir, Ségolène terá de fazer o mesmo com o centro.

Comments

O Mundo virou-se perigosamente à direita!Habitualmente acaba em guérra em todo o Planêta,so que ésta foi muito mal preparàda,os Bush's nâo sabiam que fazêr com as mentiras,Portugal com os seus milagres e falsos tubos,vai pagar mais càro que o ultimato Britânico de 1890

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