Abram-me esses olhos
[do Público de 3 abril]
Com o PSD exangue e o CDS em cacos, a extrema-direita comporta-se como uma infecção oportunista num corpo debilitado. Sabe que tem de aproveitar, agora, a crise da direita enquanto esta lhe dá condições ideais para crescer.
Comentando a visibilidade crescente da extrema-direita na sua coluna de sábado neste jornal, Pacheco Pereira sugere que ela é concomitante do politicamente correcto e da atitude geral da esquerda. Previsível: o discurso da “hipocrisia da esquerda” é o tema único dos nossos neoconservadores, que lhe atribuem tudo e a morte do Manolete. Desde o cavaquismo que esta é a cantilena de Pacheco Pereira. Ainda não aprendeu uma nova.
Se olharmos para a esquerda, o que vemos? O PS está no governo, o PCP e o BE sobem sondagem após sondagem. A batalha histórica da despenalização do aborto foi ganha com quase 60% dos votos, alguns dos quais de uma direita desamparada pelas suas lideranças. Não é à esquerda que estão os votos e também não é ali que estão as causas. A extrema-direita tem visibilidade porque tem actividade, e o motivo precipitante da sua virulência está bem em frente do nariz de Pacheco Pereira.
Com o PSD exangue e o CDS em cacos, a extrema-direita comporta-se como uma infecção oportunista num corpo debilitado. Sabe que tem de aproveitar, agora, a crise da direita enquanto esta lhe dá condições ideais para crescer.
Não vale a pena fingir que não vemos gravidade nisto. As pessoas esquecem-se, mas desde o tempo das FP-25 – como o nome indica, uma excrescência do período pós-revolucionário – que há mais de vinte anos a violência política em Portugal veio sempre desta extrema-direita. Espancaram um actor, esfaquearam até à morte um sindicalista, fizeram uma “caça ao negro” pelas ruas de Lisboa, e em matilha assassinaram o português Alcino Monteiro pelo crime de ser mulato e passear pela cidade. Recentemente foram provocar imigrantes para o Martim Moniz, apostaram forte no concurso dos “Grandes Portugueses” e passaram para a fase da propaganda xenófoba. Mudam de sigla, contornam cuidadosamente a lei, fazem da desonestidade a táctica principal. Quem tiver estômago para os procurar na internet verá que se estão a organizar. Os jornalistas que se dão ao trabalho de os investigar ficam assustados com histórias de tráfico de drogas e extorsão. Mas quando eles vieram empunhar orgulhosamente as suas armas ilegais na TV, o mesmo Pacheco Pereira que vê sinais alarmantes em todo o lado minimizou o assunto para inventar fantasiosas equivalências com a esquerda. A mesma tese que continua a reciclar.
Se o problema não desaparece por o minimizarmos, será que para o levarmos a sério teremos de importar a agenda da extrema-direita? Grave erro. A questão não é a “hipocrisia sobre a imigração” que alega Pacheco Pereira. É a hipocrisia sobre o racismo. A nossa direita blasé tem dificuldade em chamar os bois racistas, violentos e criminosos pelos respectivos nomes de racistas, violentos e criminosos. Prefere antes escandalizar-se com o escândalo da esquerda.
Ora o escândalo da esquerda não é ineficaz por estar errado. É-o porque atinge apenas o seu auditório, maioritariamente já convencido. Marcelo Rebelo de Sousa, no seu comentário televisivo, atacou os racistas enquanto “homem de direita”, demonstrando que ao contrário de Pacheco Pereira percebeu essa ideia simples. A direita tem de cair na realidade actual e fazer, se for capaz, um discurso anti-racista para o seu próprio eleitorado. Quanto mais não seja porque são os vossos eleitores – actuais e futuros – que os racistas sonham roubar-vos. Com mil raios, será que teremos mesmo de vos explicar tudo?
Comments
Ver, no Flash:
AS COSTAS LARGAS DA ESQUERDA
(http://omeuflash.blogspot.com/2007/04/as-costas-largas-da-esquerda.html)
Posted by: José Luís Ferreira | abril 4, 2007 01:27 AM
Concordo quanto ao racismo e ao aproveitamento da extrema direita.
Porquê? Porque o PS, no poder, governa "à direita". As suas políticas são de direita (é fácil "bater" nos reformados, nos deficientes... nos pobres). Governando o PS à direita, o PSD, além dos problemas advenientes da mediocridade de liderança, fica com um espaço político reduzido e o CDS/PP perdido entre a "falta de jeito" da actual liderança e o oportunismo da próxima, vai-se devorando a si próprio.
Os únicos espaços de oposição possíveis ao governo do PS são à esquerda, (daí a subida do PC e do BE) e à extrema-direita que aproveita e se organiza.
Cá para nós, Salazar, quase quarenta anos depois, num "concurso" de qualidade profundamente lamentável, eleito "o maior Português de sempre", se estivesse a ver... ria-se.
E nós, Portugueses, "lá vamos cantando e rindo".
Posted by: Jose Gomes | abril 4, 2007 09:55 AM
Em cheio!
Só faltou referir a manifestação anti-gay organizada pelo PNR no Parque Eduardo VII em Setembro de 2005. Houve uma fraca participação, é certo, mas a comunicação social esteve lá em peso.
De facto, só não vê quem não quer...
Posted by: agent | abril 4, 2007 02:30 PM
Obrigado por existir!
Obrigado por perceber aquilo que nós na Faculdade de Letras andamos a sentir na pele. Obrigado por fazer os seus leitores entenderem que a história se reescreve e nos incluí. A direitazinha fascista e os Sr Nazis- assassinos precisam de um enquandramento legal...precisam de lições práticas de como viver com a diversidade ou de como lidar com a raiva. Eu, particularmente, digo-lhe que existe um grupo de 10 colegas de faculdade que acreditam que a luta contra os Srs Nazizinhos é diária e traz custos altos de intimdação...e confidencio-lhe que todos nós vibrámos com a sua crónica de 31/3/7.
Muito obrigado, Boa Páscoa :)
Posted by: Inês Leitão | abril 7, 2007 04:59 PM
«Estômago» para os ler? Diria antes carapaça! Trata-se de um bando de grunhos que exploram muito bem clichés e preconceitos. À falta de qualquer razão e proposta de civilização esgrimem o seu argumento: ameaças físicas. Não se tratará de um caso de polícia? Sim, polícia!
Quanto a Pacheco Pereira, está magistralmnete desconstruído.
Parabéns pelos seus textos.
Posted by: Sérgio | abril 7, 2007 06:00 PM