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O pecado, ida e volta

[do Público de ontem]

Qualquer cientista aprendiz sabe que não se deve personificar um planeta. Se caem na candura de perguntar “porquê?”, costuma responder-se-lhes: “porque o planeta não gosta”.

Haverá alguma correspondência, como sugeriu ontem Helena Matos, entre os profetas religiosos que declaravam que as catástrofes naturais eram provocadas pelo pecado e aqueles que hoje identificam causas humanas nas alterações climáticas? Poderá considerar-se que a crença numa e na outra coisa é “uma atitude igualmente superticiosa”? Será legítimo concluir que “onde uns colocavam a vontade de Deus coloca-se agora o equilíbrio da Terra”? Tomemos os exemplos do Padre Gabriel Malagrida, aqui lembrado pela minha parceira de pingue-pongue, e Al Gore, o mais conhecido dos activistas das alterações climáticas.

O primeiro insistiu, até ser queimado na fogueira, que o Grande Terramoto de 1755 fora provocado “unicamente pelos nossos intoleráveis pecados”, — por exemplo a troca de bilhetinhos de namorados durante as missas. O segundo vem defendendo que as emissões de CO2 têm responsabilidade nas alterações climáticas.

Nessa perspectiva, podemos dizer que Helena Matos tem razão. Há sim uma certa correspondência: ambos defendem uma causa para um efeito. Ambos defendem uma causa humana para um efeito natural. Um cínico poderia acrescentar isto: a diferença é que um está errado e o outro certo. Pelo menos à luz dos conhecimentos actuais, a troca de bilhetinhos na missa não provoca terramotos, ao passo que o aumento de CO2 na atmosfera provoca efeito de estufa. Talvez seja demasiado fácil, porém, lembrar que a explicação de Malagrida depende de Deus, sobre cuja existência não há certezas, e a de Al Gore parte do planeta Terra, que é uma coisa que se não existe imita muito bem. Procuremos então outras diferenças entre Malagrida e Al Gore.

A primeira que salta à vista é: Malagrida só falou depois do terramoto ter ocorrido, o que o diminui até um pouco como profeta. Al Gore tem vido a falar nas alterações do clima antes delas se tornarem mais enfáticas, e apresenta cenários para o que pode vir a suceder no futuro. As suas previsões serão verificáveis e caso o não sejam a sua teoria será desacreditada. Ao colocar-se na balança da opinião pública e dos factos, o discurso de Al Gore está no plano da responsabilidade colectiva e não do pecado.

Além disso, não creio que o discurso ecologista trate de um “castigo que foi de Deus e agora é da Terra”, como diz Helena Matos. Qualquer cientista aprendiz sabe que não se deve personificar um planeta (se caem na candura de perguntar “porquê?”, costuma responder-se-lhes: “porque o planeta não gosta”). Ora, a Terra não castiga; reage apenas. É-lhe indiferente se na sua reacção inunda uma cidade, devasta uma civilização ou acaba com a espécie.

Foi isto que levou Voltaire, logo após 1755, à conclusão de que a Natureza era amoral. Na altura, um Rousseau tão ingénuo quanto teimoso não podia aceitar esta ideia e escreveu que o problema era os lisboetas terem feito uma cidade numa zona de risco sísmico. Naturalmente, quando se vive a céu aberto nunca nos cai a casa em cima. Encontro ecos deste Rousseau em Helena Matos quando culpa as casas construídas na Costa da Caparica pelo mar galgando as arribas. Não que isto esteja completamente errado: o tipo de construção agrava certamente o problema. Mas porque para confirmar a subida das águas dos mares à escala global basta consultar fotos aéreas das costas oceânicas, algumas delas em áreas sem construções da África ou da América do Sul. Ora não é bom fingir que se ignora estas coisas. Até porque a ignorância fingida, como ensina a Bíblia, é pecado.

Comments

Há, de facto, algo de comum entre alguns ecologistas, mais fanáticos e catrastofistas, e o mito da punição divina. É o chamado complexo de frankenstein: se tentarmos imitar Deus, seremos punidos. Acontece que os religiosos dos séculos passados e alguns actuais (leia-se João César das Neves) achavam ou acham que a "arrogância científica" levará inevitavelmente ao desastre. Esta crença, já expressa no mito biblico de Babel, tem muitas versões actuais, muitas das quais de grande agrados do ecologistas mais radicais: o "nuclear-não", as "novas doenças" (sida e doença das vacas-loucas, por exemplo), os organismos geneticamente modificados (nesto caso estamos perto do mito de frankenstein), etc.

A razão é sempre a mesma, e é o fundamente de qualquer religião: o medo do desconhecido.

Viva!

esse texto da Helena Matos foi publicado no Público?

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