« O pecado, ida e volta | Main | Retratos do trabalho em Portugal »

Erros de atribuição

[do Público de ontem]

Ao contrário do pensamento religioso, que via no fim deste mundo o advento de um mundo melhor, o discurso ecologista parte do princípio contrário: se este mundo acabar não haverá qualquer hipótese de “melhorar as nossas condições de vida”.

Os psicólogos sociais chamam “erro de atribuição” à tendência humana para desacreditar um argumento apenas por causa das características que atribuímos ao seu autor. Queremos que a opinião de fulano esteja errada porque partimos do princípio que fulano é mal-intencionado; logo, tudo o que fulano diz só pode ser mal-intencionado. Ele é o fulano “errado” e por isso tem de estar errado. Para um pró-soviético, todas as opiniões críticas da União Soviética só podiam ser atribuíveis ao anti-comunismo primário de quem as emitia. A direita actual, por seu lado, está viciada em atribuições de anti-americanismo ou anti-semitismo aos seus adversários: antes isso do que admitir que eles possam ter razão. E o erro de atribuição pode ter consequências graves: muitos apoiantes da guerra recusaram-se a ver a fragilidade dos argumentos de Bush e ainda hoje continuam a alegar que o desastre da guerra não era previsível apenas porque ele foi previsto pela gente “errada”.

O erro de atribuição parte de uma amálgama.

Assim como os profetas do Apocalipse estavam errados, e aqueles que falavam das chuvas ácidas nos anos 70 estavam errados (estariam?), assim os activistas das alterações climáticas também terão de estar errados. Como vimos antes, esta ideia não resiste à análise de cada caso: Al Gore não se coloca na posição de Malagrida, a condição do planeta não está no lugar do castigo de Deus. Não é verdade que “no mundo das profecias nada se perde e tudo se reactualiza”, como diz Helena Matos. Cada discurso tem de ser julgado pelos seus méritos intrínsecos.

Quando a amálgama se torna insustentável é-se forçado, de forma quase pendular, a recorrer ao desmembramento. Afinal, há ecologistas bons e maus, globais e locais: “é preciso separar as águas entre quem vê o ambiente como uma forma de melhorar as nossas condições de vida e entre aqueles que, desaparecidos outros argumentos, usam as profecias do apocalipse ambiental não para anunciar um mundo novo, do qual já parecem ter desistido, mas pelo menos para afiançar o fim deste”. Uma formulação notável, que merece ser relida. Veja-se como a atribuição das más-intenções dos maus ecologistas recai nas suas supostas frustrações de esquerdistas que já não têm argumentos porque desistiram do “mundo novo” (e que portanto têm forçosamente de estar errados nas alterações climáticas, perceberam?). Mas já agora repare-se também nesta ironia da linguagem: toda aquela atribuição vem subordinada a esse velho lugar-comum esquerdista (e de tons proféticos) de que “é preciso separar as águas”.

Enfim, nada disto faz sentido. Ao contrário do pensamento religioso, que via no fim deste mundo o advento de um mundo melhor, o discurso ecologista parte do princípio contrário: se este mundo acabar não haverá qualquer hipótese de “melhorar as nossas condições de vida”. Alertar para as alterações climáticas não significa menosprezar o caos urbanístico e burocrático do território português. Uma preocupação não impede a outra. Em suma: não há ambientalistas bons, preocupados com o excesso de casas na Caparica, e ecologistas maus, que profetizam o aquecimento global porque estão frustrados com o fracasso das utopias esquerdistas. A direita e a esquerda até podem viver em mundos metafóricos diferentes, mas terão de partilhar o mesmo mundo físico. As atribuições, as intenções e as frustrações de uns e de outros são imateriais neste debate.

Comments

Um novo espaço de encontros e amizades , com videochat, mapas, blogs, albuns de fotos, videoteca, música e noticias sobre Africa! www.africamente.com

Post a comment