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Sonsão de Carvalho

[do Público de 20 de fevereiro 2007]

E, pensando bem, que independência há numa Câmara que nada mais parece fazer senão ocupar-se dessa casta bramânica que paira sobre nós: nomear administradores, premiar administradores, despremiar administradores e zangar-se por causa de administradores?

Durante anos não soubemos que havia na Câmara Municipal de Lisboa um vereador das finanças chamado Fontão de Carvalho. Sem nos darmos conta, Fontão de Carvalho foi passando de mandato em mandato e de partido em partido como um animal de plumagem cinzenta numa floresta cinzenta, até chegar ao ponto em que conseguiu ocultar durante meses a sua condição de arguido num processo relativo à sua conduta como vereador. Fê-lo tão perfeitamente que conseguiu não abrir a boca mesmo quando se sentou ao lado de uma outra vereadora no momento em que esta suspendia o mandato por ser arguida num outro processo. Fontão deixou-se estar como se não fosse nada com ele e assim foi até à já célebre ocasião em que, quando acusado, Fontão de Carvalho revelou que nada dissera porque ninguém lho perguntara. Há um elemento de genialidade no descaramento deste vereador: depois de tantos anos na Câmara sem darmos por ele, não se foi embora sem nos deixar algo de memorável.


No meio da balbúrdia, Fontão de Carvalho recusou demitir-se lembrando-se de repente que fora eleito, o que na sua maneira de ver parece dar apenas direitos e não deveres. E finalmente, no meio dessa balbúrdia, Fontão disse por uma vez algo de verdadeiramente importante: que omitira a sua condição de arguido com conhecimento e solidariedade de Carmona Rodrigues, o Presidente da Câmara de Lisboa. Só Carmona Rodrigues sabia, só ele aprovara. O Presidente da Câmara, que estava ali ao lado, não negou, antes assentiu e reforçou a sua solidariedade.

Chegados a este ponto, ninguém prossegue sem manifestar a sua crença na integridade e independência de Carmona Rodrigues. Há então que lembrar que estas são qualidades que não se ganham por capricho divino, recomendação dos próximos ou por se ter cara de boa pessoa, mas pelas acções que se praticam ou não praticam todos os dias. Ora que integridade há em ter sabido que o seu vice-presidente era arguido e ter colaborado com ele na ocultação desse facto? Como se explica que não lhe tenha comunicado imediatamente que era inadmissível esconder o facto dos eleitores? E quanto à independência: que independência há em só ter retrocedido após ter sido enxovalhado em público pela chefia do partido que o elegeu, e a que não pertence? E, pensando bem, que independência há numa Câmara que nada mais parece fazer senão ocupar-se dessa casta bramânica que paira sobre nós: nomear administradores, premiar administradores, despremiar administradores e zangar-se por causa de administradores?

Em suma: que um vereador ache legítimo omitir que é arguido num processo de peculato, é grave. Pior ainda é que dê conhecimento dessa informação ao Presidente da Câmara e que durante semanas, numa espécie de folie à deux, os dois colaborem na mentira. Mas que, por cima disso tudo, o Presidente da Câmara não se dê conta da gravidade do que fez só pode querer dizer que Carmona Rodrigues também deseja fazer-se passar por muito ingénuo, ou muito sonso. Caso contrário, só lhe resta uma saída digna.

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