Esperteza parva
[do Público de 14 fevereiro]
Que numa campanha se desrespeite o adversário surpreendente pouco. Agora mais indigno é que numa campanha alguém se desrespeite a si mesmo. É o que sucede quando se chega à conclusão de que só se ganha uma contenda fazendo com que ninguém perceba nada do que se está a passar, e que para tal há que fazer-se passar por pouco inteligente. Fatalmente, este método é mais nocivo aos próprios do que aos adversários.
Recentemente vimo-lo levado à glória pela táctica linguistico-juridico-escaganifobética do PSD no referendo da despenalização:
que a pergunta que o próprio PSD votara era capciosa, que o referendo não tratava do que dizia que tratava, que sim queria dizer não e não queria dizer sim, que talvez queria dizer concerteza e sempre queria dizer jamais. O PSD ainda vai demorar para sair deste labirinto. O arrependimento será amargo.
Marques Mendes achou que era óbvio fazer o contrário do Sócrates, que se declarara pelo “Sim” dando liberdade aos deputados que quisessem defender o “Não”. O resultado foi Marques Mendes repetir durante meses que dava liberdade de consciência e depois fazer, encapotadamente, unicamente, dispendiosamente, campanha pelo “Não”. Querendo contentar a todos não ganhou o respeito de ninguém.
Mas há pior: Luís Filipe Menezes, o principal rival assumido de Marques Mendes, veio declarar que o resultado do referendo foi uma enorme derrota para Sócrates, explicando tal absurdo com a ideia macaca de juntar a abstenção aos votos do “Não”. Uma sugestão para este aprendiz de alquimista seria tentar convencer os árbitros dos jogos da selecção a considerar como golo as bolas que não conseguimos introduzir na baliza. E já agora, contar a nosso favor os remates do adversário.
Depois temos ainda o principal rival não-assumido de Marques Mendes. Marcelo Rebelo de Sousa partia para esta estratégia com uma enorme experiência em silogismos, e com um sorriso nos lábios demonstrou ao eleitorado que indubitavelmente as curvas eram direitas e que ser contra à despenalização é que era mesmo ser a favor da despenalização.
Teoricamente, trata-se de três homens espertos. Mas nesta campanha não conseguiram passar daquilo a que, num golpe de génio, os portugueses chamam de “esperteza parva”. O excesso de experiência política fê-los acreditar que era possível ser em simultâneo pelos valores do “sim” e do “não”, modernos e conservadores, representar a internet a igreja, mostrar a cara e esconder a opinião. Alimentados por anos de menosprezo fingido pelas causas culturais, e de sistemática rejeição de tudo o que lhes cheire a esquerda, as cabeças do PSD acharam que a confusão compensava.
Ora, se a demografia do “Não” poderia chegar e sobrar para um CDS em vias de inanição, para o PSD ela significa um encurralamento social, cultural e geracional. As consequências ultrapassam pois em muito a peculiaridade da figura de Marcelo na cultura de entretenimento nacional, que Helena Matos dissecou na sua coluna de ontem. É todo um partido que, salvo raríssimas excepções, não sabe para quem falar. E se soubesse, não saberia o que dizer.
Comments
Excelente comme d'habitude.
Posted by: Goldie | fevereiro 16, 2007 02:09 PM