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janeiro 29, 2007

Da vontade de não ser levado a sério

[do Público de 28 janeiro]

Somos todos contra a prisão, desde que a prisão continue na lei. Somos todos pela despenalização, desde que a lei penalize. Somos todos compreensivos com as mulheres que abortam, desde que a lei as criminalize.

No meu tempo de faculdade, a única maneira de ainda ter aulas com o professor José Mattoso era inscrevermo-nos numa cadeira opcional de História das Religiões na Idade Média. Eu fui um dos sortudos que assistiu a essas aulas — e uma em particular é o ponto de partida para esta crónica. Naquele dia o professor comentava um catecismo medieval irlandês e, de passagem, notou como muitas das suas interdições sobre alimentação e sexualidade eram praticamente impossíveis de cumprir, seja pelo seu grau de pormenor, seja pela profusão de dias sagrados (e respectivos interditos) que quase chegavam a ocupar um terço do ano. Tal não nos devia espantar, dizia o professor, pois o cristianismo medieval tem uma relação que se poderia chamar de “dialógica” com o Ideal da lei. O Ideal era para ser aclamado, consagrado, glorificado; não tanto para ser cumprido. Quanto mais próximo do ideal, melhor. Porém, todos nascemos em pecado e vivemos em pecado, tendo a doutrina margem suficiente para cobrir a lacuna entre esse Ideal que está escrito e as práticas de nós todos pecadores aqui em baixo. Aliás, se pensássemos bem, essa relação “dialógica” com a lei sobrevivera muito mais no catolicismo e muito menos no protestantismo, sendo especialmente visível em países como a Irlanda (de que tinhamos ali um vestígio antigo naquele catecismo) e Portugal, onde a relação com a lei era fluida e cheia de folgas.

Espero ter sido fiel ao pensamento do professor Mattoso, e devo desde já deixar muito claro que não faço ideia se ele concordaria com o resto do que vou escrever. Mas o facto é que me tenho lembrado muitas vezes dessa sua lição sobre a natureza “dialógica” da nossa relação com a lei, e nunca tantas vezes como desde que a campanha do referendo sobre o aborto entrou a todo o vapor.

Reparem se grande parte do debate que temos tido não é a tal relação “dialógica” — aqui dúplice, elástica, acomodatícia — em toda a sua glória.

Sabemos que a actual lei não diminui o número de abortos; no entanto, há quem sendo contra o aborto insista em ela continuar como está. Sabemos que a lei não é cumprida nem respeitada; no entanto, há quem ache que o grande escândalo social seria mudá-la. Sabemos que a lei prevê penas de prisão até três anos para as mulheres que abortarem; no entanto, os mesmos que defendem a lei parecem estar aliviados por não haver nenhuma mulher presa (apesar de haver mulheres condenadas à prisão com pena suspensa). Note-se, porém, que muitos destes são os mesmos que equiparam o aborto ao homicídio; ora, pergunta-se, como é possível esta intermitência da lógica? Acaso se regozijam quando não se prende os homicidas?

Na verdade, por detrás de tamanha falta de clareza, tem havido uma evolução. Arriscaria dizer que, na prática, já ninguém acha que o aborto de um embrião até às dez semanas é equivalente ao homicídio (e, no entanto, o pároco de Lordelo do Ouro diz que é pior do que o infanticídio...). Enfim, praticamente ninguém acha que uma mulher deva ser presa por três anos por ter abortado. Chegou até o momento em que grande parte do movimento do 'não' começa a perceber que a despenalização é uma coisa boa. O bispo de Viseu diz que votaria “só” pela despenalização. O próprio Cardeal Patriarca fala de uma solução política e demonstra abertura para deixar a fórmula definitiva aos juristas — despenalização, descriminalização ou legalização.

Temos então consenso? Ainda não. Ainda não, e mais uma vez teremos de nos socorrer da nossa relação dialógica com a lei, que por vezes desce a caminhos verdadeiramente tortuosos. Somos todos contra a prisão, desde que a prisão continue na lei. Somos todos pela despenalização, desde que a lei penalize. Somos todos compreensivos com as mulheres que abortam, desde que a lei as criminalize.

É precisamente pela sua participação dual neste caminho que vai da mesquinhez política portuguesa à maleabilidade da lei que ninguém mais do que Marcelo Rebelo de Sousa, nos vídeos com que tem intervindo no debate do referendo, tão bem sabe compor o discurso mais adequado às suas circunstâncias. Em primeiro lugar, eu até ia a escrever “uma posição”, mas a verdade é que não Marcelo Rebelo de Sousa não tem uma posição: tem uma série delas, mutuamente exclusivas entre si, e crescentemente elaboradas em contradição. Mas Marcelo Rebelo de Sousa não precisa de uma posição; precisa apenas da aparência de uma posição. Não precisa que ela seja clara; pelo contrário, ela é obscuríssima mas envolta numa aparente facilidade, num mecanismo típico de sofista. O seu principal efeito é confundir; mas também não faz mal porque a confusão é precisamente o seu valor acrescentado.

Não sei se Marcelo sabe, ou se é apenas o seu instinto natural que lho diz, que a “confusão” era no início um termo militar (que depois passou para a retórica), sinónimo de “desbaratar os adversários” e “desmobilizar”. Que a intenção é desmobilizar fica evidente ao ver um vídeo de Marcelo em que ele apela à desconfiança crónica dos portugueses para insinuar algo como “esta lei não é cumprida, a próxima também não vai ser, é o costume”. O efeito é claro: assim sendo, para quê dar-se ao trabalho de ir votar?

Mas há mais: acaba por passar a impressão de que neste referendo há, além do “sim” e do “não”, uma espécie de “não de Marcelo” que seria um “assim não”. Para confusão mais perfeita, essa posição seria pela despenalização total (sem limites de tempo!) mas, por uma série encalacrada de pretextos, votaria contra a despenalização. E o que aconteceria se esta atitude vingasse? A prisão continuaria na lei. E o que diríamos quando um juiz (ou juíza) condenasse uma mulher por aborto? Que a intenção não era essa, meretíssimo? E o que diríamos a uma mulher que quisesse abortar em condições de segurança? Que abortasse clandestinamente, sem limites de tempo (nem de preço, nem de risco), porque combinmos todos fazer vista grossa? E quando a lei doesse, — o que como vimos recentemente inevitavelmente acontece —, viríamos chorar-nos por não a ter mudado? Alegaríamos que a lei não quer dizer aquilo que ela literalmente diz? Ou diríamos apenas que, tal como Marcelo, temos uma irresistível pulsão para que não nos levem a sério?

Simplesmente, não existe um “não de Marcelo”. Não existe um “assim não” que seja favorável à despenalização mas que vote contra a despenalização. Nada de confusões: existe apenas uma pergunta “Concorda com a despenalização (por opção da mulher, até às dez semanas, em estabelecimento legalmente autorizado)?”. Quem é pela despenalização vota sim.

janeiro 26, 2007

Mais Medo, Incerteza e Dúvidas

[do Público de 20 janeiro 2007]

Numa paróquia da encantadora cidade alto-alentejana de Castelo de Vide exerce um cónego que decidiu esta semana ameaçar com a “excomunhão automática” a todos os cristãos que votarem “sim” no referendo de dia 11 de Fevereiro. O nome do cónego é Tarcísio Fernandes Alves, e reparem num pormenor curioso:

se em condições semelhantes um patrão ameaçasse despedir os seus empregados ou uma associação expulsar os seus associados, ninguém teria dificuldade em identificar ali um caso claro de chantagem, intimidação e constrangimento da liberdade de voto. Ora não é de excluir que para muitos paroquianos de Castelo de Vide e do país inteiro seja igualmente grave a ameaça de ser expulso da comunidade dos fiéis, com todas as suas implicações terrenas e celestes, que aliás o cónego faz questão de também desenvolver, avisando já que pretende excluir da missa os abstencionistas e anunciando para mais tarde uma interdição de enterros religiosos. Colocadas no seu contexto, são ameaças sérias — caso contrário, a chantagem não funcionaria — além de ilegais se forem repetidas em período oficial de campanha.
(Já agora, note-se a má-fé do cónego: o que o Código Canónico diz sobre a excomunhão “automática” pode apenas aplicar-se a quem estiver envolvido num aborto — “Qui abortum procurat, effectu secuto, in excommunicationem latae sententiae incurrit”, diz o cânone 1398 — e não tem absolutamente nada a ver com votar “Sim” no referendo, até porque muitos cristãos votarão “Sim” precisamente porque acham que essa é a melhor maneira de combater o aborto clandestino e tentar fazer diminuir o número de interrupções da gravidez, — com as suas consequentes excomunhões automáticas. E digo apenas má-fé, porque não se pode supor tão oportuna ignorância por parte de um doutorado em Direito Canónico por Salamanca.)
Algures em Coimbra, um grupo chamado “Acção Família” mandou imprimir uns milhares de folhetos ornados com uma imagem de Nossa Senhora de Fátima chorando por causa do referendo. “Nossa Senhora chora”, diz o texto, “e Ela chora por milhares de inocentes que podem perder a vida”, pelo que “é indispensável você ir às urnas... dizer que NÃO está de acordo com o assassinato brutal de inocentes ainda no ventre materno!”.
Quando na semana passada escrevi sobre o FUD — “Fear, Uncertainty and Doubt” na abreviatura inglesa para a utilização do Medo, da Incerteza e das Dúvidas como armas de propaganda cujo objectivo é desmobilizar e confundir o público — estava a pensar em exemplos menos caricatos do que estes. Mas a simples razão de serem caricatos não deve desobrigar-nos de os levar a sério. Desde logo, por uma questão de equidade: se todo o movimento do “Sim” tem sido fustigado pela fortuita razão de alguém, há oito anos atrás, ter decidido escrever “aqui mando eu” na barriga, como se justifica esta complacência quando autoridades religiosas e grupos organizados fazem da coacção e da violência psicológica uma forma de propaganda?
Mas é principalmente ao movimento do “Não” que cabe tomar uma posição oficial sobre estes métodos de pressão. Como é evidente, caso não haja uma demarcação clara do movimento e uma declaração sobre a total inadmissibilidade destas atitudes junto dos seus apoiantes, será legítimo inferir que o movimento do “Não” se permite beneficiar delas. Ou seja, é preciso saber se as lideranças do “Não” calam, consentem, saem incólumes e ainda esperam lucrar com propaganda desta.
Enquanto isso, no discurso oficial do “Não” vai aparecendo outro tipo de Medo, Incerteza e Dúvidas, em exemplos elaborados para um público-alvo diferenciado. E a campanha do “Sim” até colabora na desconversa, com alguma moleza, parecendo não se aperceber de que nestas coisas cada lado só faz o que o outro deixa fazer. Dou um exemplo da semana passada. O “Não” organizou uma conferência na qual se afirmava que as sequelas psicológicas a que estão sujeitas as mulheres que abortam são medonhas. O “Sim” respondeu entrando num debate sobre se elas não estariam sobreavaliadas e assim contribuiu para desviar mais uma vez o assunto da pergunta a referendo, perdendo a oportunidade de devolver a pergunta ao “Não”: se as sequelas psicológicas a que está sujeita uma mulher que aborta são assim tão terríveis, então como se justifica abandonar as mulheres ao aborto clandestino? Mais ainda: se uma mulher que aborta corre riscos de saúde psíquica (não sei se corre ou não, nem compete a este referendo deslindar a questão), como se justifica manter uma lei que a criminaliza? Se esse sofrimento é tão mau, como podem defender que a mulher ainda por cima continue sujeita a uma pena de prisão prevista até três anos? Os apoiantes do “Não” tem de nos dizer se acham correcto que seja perseguida judicialmente uma mulher que eles próprios afirmam estar sujeita a grave sofrimento psíquico.
Por vezes, são até os próprios convidados do “Não” que melhor põem o dedo nas contradições do seu discurso. Esta semana uma autora espanhola convidada falar de casos de abortos forçados respondeu assim quando informada da lei portuguesa: “Discordo completamente. Não serve de nada castigar as mulheres.” Mas não podemos andar dependentes destas demonstrações ocasionais de clareza.
Chegou o momento de o “Não” começar a responder a algumas perguntas. Uma delas até deveria ser simples para quem demonstra tanto ardor na condenação: afinal de contas, quantos abortos terá evitado a lei que defendem? Alguma mulher deixa de abortar por causa da lei que temos? A criminalização resulta em menos abortos, ou em mais abortos?
O tempo urge, e o “Não” tem andado a evitar explicar-nos que a lei actual funciona. Talvez se tenham esquecido, mas é essa lei que defendem e cabe-lhes por inteiro a demonstração das suas virtudes. Caso contrário, talvez seja melhor mudá-la.

janeiro 25, 2007

Medo, Incerteza e Dúvidas

[do Público de 13 de janeiro 2007]

Qualquer aprendiz de propaganda sabe o que fazer quando a mensagem do adversário parece ter boa aceitação entre o público: lançar FUD — a abreviatura em inglês para Fear, Uncertainty and Doubt. O Medo, Incerteza e Dúvida é uma arma poderosa na luta pela opinião pública. Por isso os defensores do “Não” no referendo de 11 de Fevereiro sobre a descriminalização do aborto não parecem muito preocupados com as sondagens que dão grande vantagem ao “Sim” nas intenções de voto. Em primeiro lugar, porque já no primeiro referendo sobre o assunto, em 1998, o quadro era semelhante e o “Não” conseguiu uma vitória surpreendente, embora curta e pouco participada. Mas principalmente porque o “Não” tem a sua campanha construída em torno do medo, das incertezas e das dúvidas, e conta com essa campanha para desmobilizar o campo do “Sim” e repetir 1998. Não é ilegítimo, embora possa ser reprovável; é certamente muito eficaz e já está a dar efeitos.

Considere-se o cartaz do “Não” onde se lê: “Contribuir com os meus impostos para financiar clínicas de aborto?”. Eis um exemplo básico da utilização do FUD, que consiste em pôr as pessoas a discutir uma incerteza para as desmobilizar da questão que vai efectivamente a referendo, que é saber se o aborto até às dez semanas deve deixar de ser crime. O cartaz destina-se a suscitar dúvidas às muitas pessoas que acham que o aborto até às dez semanas deveria deixar de ser crime (que é aquilo que vai a referendo) e confundi-las com uma questão de gestão dos dinheiros públicos que pertence a um debate mais geral. A formulação é intencionalmente vaga para dar a ideia de que o dinheiro (público) dos “meus” impostos poderia servir para financiar clínicas (privadas), desmobilizando também quem ache que o dinheiro público deve ir apenas para o Sistema Nacional de Saúde.
Mais uma vez, não é nada disto que está em causa. Cada governo terá certamente a sua opinião sobre como devem ser utilizados os dinheiros dos impostos, e cada parlamento sucessivo legislará em conformidade, na área da saúde pública como na da economia ou das artes. Mas é certamente muito útil para o campo do “Não” que as pessoas se ponham a discutir incertezas em vez de certezas, porque essa é sempre a maneira mais eficiente de evitar que qualquer coisa mude. Basta perguntar a quem se quiser mudar se a casa nova não tem goteiras (ainda que a casa velha as tenha em maior quantidade): atiram-se as dúvidas para um futuro que ainda não existe e escondem-se os defeitos do presente que existe.
Para contrariar o espírito e responder à letra bastaria ao campo do “Sim” fazer algumas perguntas simples. A diferença está em que nenhuma delas remete para possibilidades vagas num futuro incerto, mas todas dizem respeito à realidade e à lei que hoje em dia temos. São elas:
“Contribuir com os meus impostos para financiar a perseguição de mulheres que abortaram?” — afinal de contas, de quem são os impostos que pagam as investigações policiais, as escutas telefónicas, os interrogatórios? Terá esse dinheiro caído do céu? Em Aveiro, mulheres que tinham acabado de abortar foram detidas na rua e obrigadas a fazer um exame ginecológico sob alçada da polícia. Quem pagou esse acto de violência e humilhação? Os “meus” impostos. Os “seus” impostos. Os “meus” impostos pagaram àqueles agentes que teriam certamente melhores coisas para fazer. Os “meus” impostos pagaram a papelada. Os “meus” impostos pagaram aos inspectores, aos procuradores e aos funcionários.
Mas há mais perguntas para entreter os nossos amigos do “Não”: “Contribuir com os meus impostos para financiar julgamentos a dezenas de mulheres?” é um exemplo. Outra: “Contribuir com os meus impostos para ajudar a entupir os tribunais com uma decisão que os próprios juízes dizem ser política?”. Melhor ainda: “Contribuir com os meus impostos para ajudar a financiar clínicas de aborto (em Espanha)?”. E que tal: “Contribuir com os meus impostos para ajudar a financiar o aborto (clandestino)?”. E contribuir com os meus impostos para atender mulheres em risco após abortos improvisados? E contribuir com os meus impostos para perpetuar um problema de saúde pública?
Poderia estar aqui a coluna inteira com estas perguntas, que não são possibilidades vagas ou a discutir no futuro mas realidades indiscutíveis que existem com a lei que temos hoje — e que os partidários do “Não” querem manter.
Esse é outro aspecto revelador que a táctica do medo, da incerteza e das dúvidas permite esconder. Afinal de contas, o campo do “Não” é favorável à lei actual, mas faz tudo o que pode para evitar referir-se a ela, chegando ao cúmulo de nunca citar a lei que defende, nomeadamente a parte que é a mais visada pela pergunta do referendo: “A mulher grávida que der consentimento ao aborto praticado por terceiro, ou que, por facto próprio ou alheio, se fizer abortar, é punida com pena de prisão até 3 anos” (sugestão para uma campanha que não seja de “Medo, Incerteza e Dúvidas”: colocar este artigo da lei ao lado da pergunta do referendo e deixar as pessoas decidir).
Mais uma vez, trata-se de substituir a certeza da lei que existe pelas incertezas na sua aplicação, e preconizar mesmo o seu desrespeito, nem que para isso o “Não” tenha que rever periodicamente o seu discurso. Lembrem-se que durante anos eles nos garantiram que não havia “mulheres julgadas por aborto” (embora houvesse). Depois aconteceram os primeiros julgamentos divulgados pelos media, e os partidários do “Não” passaram a dizer que não havia “mulheres condenadas por aborto”, como se a investigação policial e a suspeita não fossem já uma forma social de condenação. Mas entretanto houve mulheres efectivamente condenadas em tribunal por terem abortado, e agora os partidários do “Não” agarram-se à última réstia de credibilidade para dizer que “não há mulheres presas por aborto”, embora saibam perfeitamente que a prisão até três anos está prevista pela lei que defendem.
Um dia, se esta lei não for mudada, poderemos sempre vir a ter mulheres presas por terem abortado. Adivinhem de onde virá o dinheiro para pagar as suas celas na penitenciária? Dos impostos de Ribeiro e Castro ou de Maria José Nogueira Pinto? Seria justo. Mas terá de vir dos “meus” impostos também.

janeiro 18, 2007

Ops, lá foi um país pelo cano

[do Público de 6 dezembro 2006]

Na Aljazira árabe, transmitida a partir do Golfo Pérsico, dois senhores discutem acaloradamente. A milhares de quilómetros de distância, um grupo de intelectuais de um país magrebino assiste a isto sem perder pitada, com um sorriso nos lábios e um ou outro comentário, enquanto estão sentados a uma mesa de café. A meu pedido, concordam com simpatia em traduzir porções do debate, mas é difícil chegar a acordo sequer sobre os pontos mais básicos. Quem são os contendores? Diz um dos meus companheiros de mesa: são dois iraquianos, um sunita e outro xíita. Interrompe alguém para dizer: não, um deles é um verdadeiro iraquiano e outro um falso, um tipo que viveu anos no Irão e se faz passar por iraquiano. E de facto, a certo momento na televisão, um dos adversários mostra as fotocópias do passaporte do outro e diz-lhe: você não é iraquiano! este documento não vale nada! você não passa de um agente iraniano! O outro está para se levantar e ir embora, mas o debate continua. Discutem a execução de Saddam Hussein. Pergunto aos meus generosos tradutores: quais são as posições de cada um? “O xíita é a favor e o sunita é contra” — nada disso, explica outro — “o sunita acha que o Saddam Hussein merecia a pena de morte mas não concorda com a data da execução”.

A data da execução, para quem se lembra da coluna de sábado passado, foi a do Aid al Adha ou Dia do Sacrifício (chamado pelos magrebinos de Aid el Quebir, Dia do Carneiro). Quando então escrevi sobre o Aid al Adha estava longe de imaginar que Saddam Hussein seria enforcado neste dia, o mais sagrado do ano para milhões de muçulmanos. Mas mesmo depois da notícia ter sido divulgada e de as célebres imagens obtidas por telemóvel já passarem por televisões de todo o mundo (e constatemente no mundo árabe, depertando grande interesse em todo o lado, de mercados a casas particulares) ignorava qual seria o impacto desta coincidência. O próprio primeiro-ministro iraquiano Nuri al'Maliki, se referiu ao assunto, dizendo que fora desejado que Saddam Hussein morresse “num dia especial”. A referência, além de um tanto macabra, parece destinada a constituir uma provocação.
Terá isto alguma importância? O editorial do Le Monde sobre a execução de Saddam Hussein defendia que os opositores à pena de morte não deveriam sequer discutir os detalhes deste julgamento. Ser contra a pena de morte é ser contra a pena de morte, ponto final, sem discutir os pormenores. Na minha opinião, isto é um equívoco. Há a questão geral da pena de morte, mas há também a questão das circunstâncias de cada execução em particular, cujas implicações não devem ser desprezadas.
Para ver essa distinção, façamos um exercício: imaginemos que, no Chile, um tribunal tivesse tido o poder (e a vontade) de não só julgar como condenar à morte o ex-ditador Augusto Pinochet. Isto por si já seria mau para todos os que se opõem à pena de morte, mesmo aqueles que (como eu) acham que Pinochet era monstruoso em tudo o que fazia. Mas imaginemos o que sucederia se a actual presidente do Chile, sabendo como Pinochet era um devoto católico, — tal como a sua família e grande parte dos seus apoiantes —, tivesse decidido que a execução da pena teria lugar no Natal ou na Páscoa? Isto significaria que estaríamos perante um poder incendiário num país em que nenhuma parte da sociedade faz um esforço de conformação com a restante.
É isso que se passa hoje no Iraque. A execução de Saddam Hussein, com as suas circunstâncias que lhe dão o significado mais completo e precisam por isso de ser avaliadas, é em primeiro lugar uma demonstração de força dos xíitas que estão no governo, e uma forma de conformar a maior e mais irrequita das suas facções, a comandada por Moqtada al'Sadr, cujo pai terá sido assassinado a mando de Saddam Hussein. Os xíitas no poder tiveram a sua justiça. Não só justiça como vingança. E não só vingança como humilhação.
Mas há mais. Os xíitas provaram que podem fazer tudo isto sozinhos. E deixaram pelo caminho os curdos, que foram as piores vítimas de Saddam Hussein no Iraque, com centenas de milhares de mortes por armas químicas que nunca chegarão a ser esclarecidas em tribunal. Por isso, a maior ofensa deste linchamento vai provavelmente para os curdos, — e em especial para um deles, o presidente Talabani, que sempre declarou ser contra a pena de morte. Que Saddam seja condenado pela morte de quarenta homens na repressão a um atentado do partido Dawa, de que o primeiro-ministro hoje no poder faz parte, e nunca venha ser julgado pelos massacres de Al Anfal que foram dos piores na história da humanidade, define a hedionda caricatura desta justiça privativa e mesquinha a que assistimos.
Na origem de tudo isto está o governo dos EUA, que nunca quis entregar o ditador iraquiano a um tribunal internacional, que teria certamente de julgar por inteiro estes e outros crimes do tempo em que Saddam Hussein tinha a cumplicidade dos antecessores de George W. Bush. Desde logo, salta à memória a invasão do Irão, em que Saddam Hussein utilizou tranquilamente as armas de destruição em massa que mais tarde viriam a justificar a sua queda, para tentar mudar o regime iraniano cuja queda é ainda hoje o grande objectivo externo dos EUA, sob o mesmo pretexto das armas de destruição em massa.
Há mais ironias nesta guerra do que é possível listar num artigo de jornal.
Entrentanto, já morreram mais iraquianos desde a invasão do que aqueles que mataria Saddam Hussein no mesmo período, mesmo no auge da sua actividade sanguinária. Entretanto, as tropas ocidentais repetiram em Fallujah os métodos de punição colectiva de que Saddam Hussein era um símbolo, com utilização de armas de fósforo branco e o massacre de milhares de homens adultos. Entretanto, as próprias tropas americanas já perderam mais soldados nesta ocupação do que vítimas houve no atentado às torres gémeas usado (e principalmente abusado) para a justificar. E no entanto, a criança grande que é George W. Bush planeia enviar mais tropas para o Iraque, pelos vistos ignorando que a guerra civil vai ali sofrer uma mutação terrível que os próprios países vizinhos terão dificuldade em enfrentar. É que há uma enorme diferença entre uma guerra civil na qual as partes lutam pelo poder no país, e uma guerra civil na qual as partes não querem saber do que poderá acontecer ao país. O que isto quer dizer não precisa de tradução.

janeiro 10, 2007

O dia do carneiro

[do Público de 30 dezembro 2006]

Um recurso universal de qualquer narrativa típica consiste em criar um momento de tensão crescente e levá-lo até ao limite, para no fim aliviá-la de uma vez só, para descompressão geral do público. Nos filmes de acção é quando o herói desarmadilha a bomba no último segundo. No Antigo Testamento é quando Abraão, obedecendo a uma ordem directa de Deus, se prepara para sacrificar o seu próprio filho. O joelho segura firmemente o rapaz ao altar e a faca está já encostada ao seu pescoço quando a voz do Senhor (em off) revela que aquela ideia de ter de Abraão sacrificar o filho não passava afinal de um teste para ver até que ponto Abraão era afinal um homem devoto. Mais: em vez de se matar o menino, Abraão tem permissão para sacrificar um carneiro, o que provoca o tal grande alívio da plateia (e até nos permite concluir que o público-alvo do autor do texto é humano e não ovino).

A superioridade estilística do Antigo Testamento sobre os filmes de aventuras está em que todos os filmes de aventuras têm sempre, mas sempre, uma cena destas. O Deus do Antigo Testamento, pelo contrário,

habituou-nos a cumprir com as suas ameaças, das Pragas do Egipto à destruição de Sodoma e Gomorra, pelo que o efeito-surpresa é muito maior quando o pior não ocorre. De momento, lembro-me de duas excepções importantes, das quais a segunda é a minha história favorita da Bíblia (está até guardada para uma crónica futura): quando Deus poupa Niníve, no Livro de Jonas. Esta parcimónia faz com que os momentos-chave fiquem guardados na memória colectiva. A cena de Abraão, do seu filho e do carneiro, ao apresentar-nos um Deus misericordioso (para os humanos) impressionou judeus, cristãos e muçulmanos até à época contemporânea. Woody Allen refere-se várias vezes a esta história, sempre estupefacto por Abraão estar mesmo até ao último momento seriamente decidido a matar o seu filho, prova de que “um homem cumpre com qualquer ordem estúpida desde que lhe seja transmitida por uma voz grave e bem colocada”. Os vestígios desta história encontram-se no cerne do cristianismo, pois é o próprio Filho, Jesus Cristo, que é o “cordeiro de Deus” sacrificado pelos pecado de todos os humanos. Também os muçulmanos preservam esta história fundadora do judaísmo, e de que maneira, uma vez que ela é comemorada todos os anos com uma festa importantíssima que cai (se a memória não me falha) quarenta e oito dias depois do fim do Ramadão, e que tem o nome de Aid Al Adha ou Aid El Quebir, o Dia do Carneiro — este ano, dadas as errâncias dos anos lunares e solares, coincide exactamente com a passagem do ano 2006 para 2007, de Domingo para Segunda-feira próximos.

Vamos imaginar o que sucederia se o leitor, em vez de se encontrar por exemplo em Lisboa, capital da República Portuguesa, se encontrasse antes seiscentos quilómetros mais ao Sul. De que falariam então os jornais que se vendem em Rabat, capital do Reino de Marrocos? Em geral, dos preparativos para o Dia do Carneiro. O diário Libération, cuja redacção se situa em Casablanca e me parece ser de tendência mais pessimista, informa-nos que a aproximação da festa levou a uma subida dos preços da carne de carneiro até limites pouco comportáveis para as famílias marroquinas. Numa secção de inquéritos de rua, pergunta-se mesmo se será aceitável que os agreados familiares se endividem para pagar os custos destes festejos. O patriótico L'Opinion assegura-nos que a oferta de carneiro no mercado satisfará amplamente a procura, e dá-nos conta das medidas de segurança rodoviária especiais no quadro da “Operação Aid Al Ahda”. O solícito e profissional Le Matin tem um caderno com os horários dos comboios especiais para todos aqueles que se deslocam para passar a quadra com a família. Há de tudo sobre o tema, desde conselhos culinários a um dossier especial sobre como lidar com as expectativas das crianças quando passar a meia-noite do Aid el Quebir. A impressão geral é a de que, se os jornalistas marroquinos se quisessem poupar ao trabalho, bastar-lhes-ia ter traduzido os jornais portugueses da semana passada, substituindo o nome da festa e alguns detalhes, porque de resto o tom é o mesmo, incluindo — sim! — os textos dos religiosos e conservadores lamentando-se de que os festejos do Dia do Carneiro têm vindo a perder o seu carácter sagrado e de que há uma importação crescente de hábitos novos e estrangeiros, como o de substituir a comemoração cristã do Natal pela sua versão pagã, com a venda de pinheiros e figurinhas do Pai Natal em certas lojas. E isto sem fazer o resumo da imprensa em árabe, que terá de esperar pela aquisição das competências linguísticas adequadas.

Há no entanto diferenças assinaláveis. Sendo o carneiro um animal manso, é possível comprá-lo no mercado, trazê-lo para casa e sacrificá-lo na data certa. Esta é uma grande vantagem que os marroquinos possuem sobre os portugueses, a quem é pouco prático trazer um bacalhau da Terra Nova ou da Noruega e alimentá-lo durante uns dias num aquário instalado no meio da sala para depois proceder à respectiva salga e cozinhá-lo na consoada. Assim sendo, e ao contrário do que sucede no L'Opinion, os nossos jornalistas não precisam de incluir no dossier “crianças” uma entrevista com um psicólogo sobre como evitar traumatizar os filhos à vista da degolação do carneiro (os pais com um sentido de humor arrevesado podem sempre dizer aos miúdos que ou se calam ou Deus pode voltar a mudar de ideias).

O Dia do Carneiro é então uma ocasião para os muçulmanos confraternizarem com a família em torno de uma refeição, mas também de cederem ao consumismo, de se endividarem, de passarem horas presos nos engarrafamentos das grandes cidades e de arriscarem a vida nas estradas. Não sei se isto vos lembra alguma coisa. A mim, dada a minha grande afeição pessoal e gastronómica pelo carneiro, torna-me nostálgico. De tal forma que vou suspender a reserva pessoal e contar aos leitores que em tempos, eu também vivi no campo, e logo numa casa com carneiros. Mais ainda, que cheguei a pastoreá-los uma vez ou outra e que tenho grande orgulho em ter lido As Aventuras de Mark Twain em algumas dessas ocasiões. Quando criança, também eu me lembro de implorar aos meus pais que poupassem um dos carneiros de quem eu mais gostava. Uma das vezes terei até chorado e berrado enquanto a faca se aproximava do pescoço do bicho, tanto que a mão (do meu pai ou da minha mãe?) hesitava e voltava a avançar, hesitava e voltava a avançar, sempre mudando de ideias, num momento de tensão quase insuportável.

Se não me engano, comêmo-lo no dia em que os futuros sogros do meu irmão foram jantar lá a casa.