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dezembro 26, 2006

Feliz Natal, ó excelências!

{do Público de 23 de dezembro 2006]

Qual é, então, a grande preocupação? É o cristianismo já não ser permitido, já não ser dominante ou já não ser obrigatório? É que a primeira hipótese, apesar de tanto esforço, é muito simplesmente absurda.

Quando o leitor do Público estiver perante estas linhas, pode ser que já se encontre na terra com a família, nesta antevéspera de Natal. Ou pode ser que ainda não tenha acabado de colocar os presentes no carro para sair da grande cidade em direcção à auto-estrada. Nesse caso, viaje com muito cuidado. Não tanto por causa dos engarrafamentos ou dos acidentes que todos os anos, por esta altura, são causa de ansiedade e sofrimento. Mas antes porque já devem andar por aí as brigadas do laicismo tentando impedi-lo de comemorar o Natal. Ao chegar, feche as janelas para ocultar as luzes compradas na loja dos chineses, e para que ninguém veja a avozinha enquanto ela frita os filhoses.

Por todo o país e em todo o mundo ocidental, não deve haver questão mais premente do que a dos cristãos perseguidos por comemorarem o Natal. Basta consultar este vosso jornal, na edição de ontem, e ver como lhe foram dedicadas as duas páginas do “destaque” da autoria de António Marujo (na sua segunda incursão pelo tema: a primeira chamava-se “quando o Natal é proibido”), o editorial de Nuno Pacheco, e os artigos de opinião de Esther Mucznik e Constança Cunha e Sá. E creio que não são os únicos nem serão os últimos, à medida que a data se aproxima.

Pode ser que a leitora, perdida entre as iluminações natalícias, o trânsito e os horários alargados dos centros comerciais, não se tenha dado conta de que o Natal está para acabar, não sabemos se por decreto. Talvez ao lisboeta lhe tenha escapado isso enquanto fazia o trajecto da “maior árvore de Natal da Europa” (oferta de um banco), atravessando uma Rua Augusta coberta de anjinhos, até um Rossio patrocinado por outro banco, comprando pelo caminhos os seus presentes em cada loja e cadeia comercial. Mas é precisamente para dar este alerta que o jornalismo de referência e a opinião informada aqui estão. Para lhe dizer que, este ano, não se vê outra coisa senão uma sanha persecutória contra o Natal, movida por perigosos secularistas e pelo grande capital, que morre de medo de ofender as outras religiões. É a “Guerra contra o Natal”.

É irónico que no artigo de António Marujo o professor da Católica António Teixeira se queixe da importação de festividades, como o Halloween, que “nada têm a ver com a nossa cultura”. Isto porque a própria “Guerra contra o Natal” que lhe pediram para comentar, longe de existir, é uma importação da agenda americana do ano passado, quando o canal FoxNews e a sua coligação de evangélicos decidiram que, no país mais cristão do mundo desenvolvido, havia uma ofensiva contra os cristãos. Tudo isto já foi ridicularizado que baste pelos restantes americanos, que não deixariam de olhar com condescendência para esta reciclagem em terras lusitanas, com um ano de atraso.

Como nos EUA, a nossa “Guerra contra o Natal” é uma amálgama de histórias contadas pela metade, lendas urbanas, inversões retóricas e interpretações extravagantes. Mas como, se no Editorial do Público nos é dito que “em Birmingham a câmara decidiu mudar Christmas (Natal) para Wintervall (intervalo de Inverno)”? Ora, não só a história vem com quase dez anos de atraso (o Wintervall ocorreu em 1997 e 1998), como nem sequer é verdadeira. A Câmara de Birmingham não “substituiu” o Natal por coisa nenhuma; limitou-se a fazer um festival de inverno, como fazem milhares de cidades por esse mundo fora, e incluiu nele as celebrações dos feriados religiosos. A própria sede do município estava iluminada com a frase “Happy Christmas Birmingham”. Mas cuidado, senhores autarcas, se fizerem para o ano um “Festival da Primavera”, ainda podem daqui a dez anos ser acusados de apoiar uma “Guerra contra a Páscoa e a Ressureição”.

Outras são insufladas até ao limite do inconcebível, como se vê quando o professor da Católica entrevistado por António Marujo declara que se pode caminhar “para sociedades assépticas e controladas a partir de um big brother, como as descritas em Admirável Mundo Novo e Mil Novecentos e Oitenta e Quatro”. Sério, senhor Professor? Esta guerra fictícia feita em torno de não-notícias vai levar-nos a um pesadelo orwelliano? E que dizer quando se lê que “o Fórum Andaluz da Família concedeu o Prémio Herodes 2006 à directora de uma escola pública em Mijas (Málaga, Espanha) que colocou no lixo um presépio feito por alunos da disciplina de Religião”? O Prémio Herodes! O Prémio Herodes — do nome do rei que (segundo o Evangelho de Mateus) mandou matar todas as crianças menores de dois anos — para a professora de Mijas! Não terá o bom Deus dado o sentido das proporções aos professores da Católica, ou feito a graça do bom-gosto ao Fórum Andaluz da Família?

A regra destas coisas é: qualquer algo que um alguém tenha dito pode ser usado na espiral pirotécnica do sensacionalismo. Assim Constança Cunha e Sá escreve que, se alguém sugeriu substituir o perú (se bem me lembro, bicho que não constava na Terra Santa) por um frango, então “bolo-rei, rabanadas, sonhos e fatias douradas deviam, com maioria de razão, abandonar o menu da consoada”, como se alguém cogitasse proibir essas iguarias. Coma rabanadas, Constança! Olhe que para mim não há maior metafísica no Natal senão comer rabanadas.

O problema é que, no meio de tanta sofreguidão vitimizada, ficamos sem perceber qual é afinal... o problema. Falta de liberdade ou excesso dela? Constança Cunha e Sá lamenta que o consumismo tenha substituído o sentido do sagrado. Mas se as pessoas são livres, afinal, tanto podem comemorar o Natal numa orgia consumista como os comentadores conservadores numa orgia de paranóia e mania da perseguição. O dizer-se “Boas Festas” em vez de “Bom Natal”, como alega o Editorial de Nuno Pacheco? Ora, eu desejo Bom Natal aos meus amigos cristãos e Boas Festas a todos os outros, e ainda não me lembro de alguém se ter queixado da minha intolerância.

Qual é, então, a grande preocupação? É o cristianismo já não ser permitido, já não ser dominante ou já não ser obrigatório? Ë que a primeira hipótese, apesar de tanto esforço, é muito simplesmente absurda.

Há muita gente que se lamenta do regime de “felicidade obrigatória” desta quadra a que chegamos quase sempre cansados, endividados e a tiritar de frio. Mas algo de muito estranho se passa — talvez qualquer coisa que puseram na água canalizada — quando um ateu anarquista vai desfrutar tranquilamente da quadra com a família de várias crenças e filosofias, ao passo que religiosos e conservadores parecem preferir passá-la mergulhados numa atmosfera de frenicoques, resmunguices e vibrações negativas.

dezembro 18, 2006

As cidades

[do Público de 16 dezembro 2006]

Se à escala macro as cidades são os nós que atam as redes globais, à escala micro é nelas que se dá a experiência quotidiana dos fracassos das políticas públicas.

Na Grécia antiga, os cidadãos que governavam o dia-a-dia das cidades democráticas como Atenas, onde tinham o nome de buleutas, eram escolhidos por sorteio. Não é um método que eu defenda. Mas é um método que dá que pensar: imaginem que alguém abria ao acaso uma lista telefónica da capital e punha o dedo em cima do nome da senhora Maria da Conceição Silva, de São Domingos de Benfica, ou do senhor Manuel Ferreira, de Marvila. Alguém acredita francamente que seriam piores presidentes da Câmara Municipal de Lisboa do que Carmona Rodrigues?

Muitos lisboetas devem ter sentido o mesmo, esta semana, durante a emissão daquela maratona televisiva que dá pelo nome de Prós-e-Contras. Só ali, na mesa em frente, estavam quatro vereadores da oposição — por ordem crescente de votação, Maria José Nogueira Pinto, José Sá Fernandes, Ruben de Carvalho e Manuel Maria Carrilho — e pelo menos três desses quatro parecem passar como mais sérios e consequentes do que o Presidente da Câmara. Pior ainda para Carmona Rodrigues, os “seus” vereadores na Câmara também não estão longe de andar convencidos que são melhores do que o chefe, e pareciam olhá-lo com cara de quem o considera um mero pretexto para que cada um deles se mantenha no seu respectivo pelouro. A presidente da Assembleia Municipal, Paula Teixeira da Cruz, também já fez questão de demonstrar que tem vida própria. Nada disto pode ser bom para a “liderança” de Carmona Rodrigues, caso não fosse este um termo demasiado caridoso: desconfio que parte da sua equipa não desdenharia fazer o mesmo que fez Maria José Nogueira Pinto, e fugir ao primeiro pretexto desta presidência em torpor radioactivo.

Carmona Rodrigues sabe que deve a sua eleição a ter-se mantido inodoro, insípido e incolor perante dois termos de comparação que eram as personagens mais escarnecidas do Portugal do momento: Pedro Santana Lopes (de quem ele foi braço-direito) e Manuel Maria Carrilho. No início era importante não ser o primeiro, com cujos desastres colaborou, e no fim teve a sorte de não ser o segundo, queimado numa campanha suicida. Com essas comparações, Carmona Rodrigues consegue parecer menos um produto da imagem do que efectivamente ele é. Carmona Rodrigues tem imagem de engenheiro tecnocrata mas não consegue acabar um túnel. Tem imagem discreta mas não há condomínio que ele não aprove. Tem imagem de “independente” mas veta o nome de um administrador em obediências ao líder de um partido. Tem imagem de não ser “político profissional” mas quando acossado recorre a todas as manhas da cartilha politiqueira (incluindo trazer uma claque organizada para o aplaudir). E finalmente, tem uma imagem de eficiência absoluta conquistada a fazer rigorosamente nada.

A gravidade de tudo isto em Lisboa seria menor no tempo em que o estado-nação era a unidade quase exclusiva da política, cuja acção determinava por arrasto a evolução das capitais. Então o presidente de uma cidade não precisaria de ser mais do que um regedor, e talvez Carmona Rodrigues chegasse para isso. Hoje, com as fronteiras nacionais diluídas (por causa da “globalização”, da concorrência intra-europeia e até da emergência de certas regiões), as escalas misturaram-se e o papel das cidades sofreu uma mutação notável. Há poucos anos, Londres não tinha sequer um mayor; hoje em dia não será propriamente uma cidade-estado como a Atenas do tempo dos buleutas mas aparece aos olhos contemporâneos como uma realidade autónoma, uma cidade-mundo que possui uma identidade particular ao mesmo tempo que é um motor do seu próprio país. Isto — que não começou ontem — não vale só para uma cosmopolis como Londres.

Se à escala macro as cidades são os nós que atam as redes globais, à escala micro é nelas que se dá a experiência quotidiana dos fracassos das políticas públicas. O deficiente que não consegue contornar o carro estacionado no passeio, a mãe que não passa com o carrinho de bébé, o filho de imigrantes que não sai do subúrbio, o idoso que está preso no centro — é aqui que se jogam os conflitos futuros. É nas cidades que se sente a primeira exclusão e injustiça (ou é nelas que, se as políticas forem boas, nos é dada a primeira oportunidade — que se entra na primeira biblioteca pública — que se participa num torneio desportivo).

Nada disto deixa de ser banal; inquietante é que Carmona Rodrigues não tenha sabido cumprir com nenhuma das estratégias possíveis e evidentes. Não tem servido para competir globalmente (tirando a ideia vaga — e lenta, lenta, lenta — de imitar Bilbao, sem pensar que Bilbao não chegou lá pela imitação). Mas o pior é que não tem sequer servido para tapar buracos no passeio.

(Olhando em torno, o panorama não é melhor. No Porto governa um populista que elegeu como principais adversários, não os especuladores, não a precariedade, mas os artistas. Braga parece ter passado directamente do feudo do Arcebispo para o feudo de Mesquita Machado. Coimbra curte ainda e sempre a sua crise de personalidade.)

Se passarmos cinco anos — os mesmos cinco anos que Carmona Rodrigues já leva de responsabilidade política na capital — sem visitar uma qualquer cidade europeia, as mudanças saltam imediatamente à vista. Em Lisboa é preciso puxar muito pela cabeça para lembrar algo que Carmona tenha feito (começado e acabado) ou que vá melhorar a cidade para o futuro. E não faltam coisas para fazer: de ano para ano Lisboa é cada vez mais dura para os seus habitantes, mais infestada de automóveis, entupida até à asfixia, com quartéis vazios a ocuparem espaços nobres na zona antiga (à espera do imobiliário?) e uma rede de transportes sem soluções. O potencial de Lisboa é grande e reconhecido, mas a cidade está hoje mais longe de o cumprir do que de tornar-se insustentável. Carmona Rodrigues não tem unhas para esta guitarra.

dezembro 11, 2006

Tortura para os amigos

[do Público de 9 dezembro 2006]

Os bons nunca torturam. O próprio vice-presidente dos EUA já no-lo disse, embora tenha acrescentado que para decidir se é permissível enfiar um terrorista debaixo de água “nem é preciso usar a cabeça”.

Convenção das Nações Unidas contra a tortura, artigo 3: 1) “Nenhum Estado signatário pode expulsar, devolver ou extraditar uma pessoa para outro Estado se existirem razões substanciais para acreditar que existe perigo de essa pessoa ser submetida a tortura.”

Sim, já entendemos todas as indirectas: não se deve remexer nesta história das “rendições extraordinárias” dos chamados “voos da CIA”. As cabeças simples dos europeus não devem ser baralhadas com todos os pormenores desta história mal explicada: nem os voos são exactamente da CIA, mas de uma série de proprietários-biombo, nem “rendições extraordinárias” dá uma ideia correcta daquilo que terá sido um programa de trânsito de presos ilegais, envolvendo por vezes sequestros, envio para prisões clandestinas e, com grande probabilidade, tortura por países terceiros. Até a proverbial incompetência portuguesa dá uma ajuda preciosa à confusão: as listas de passageiros fornecidas por diferentes serviços do Estado divergem entre si, isto para além dos voos que simplesmente (e estranhamente) não têm lista de passageiros. Para compor este ramalhete muitíssimo abreviado, a comissão do Parlamento Europeu que investiga estes voos-fantasma, de passagem por Lisboa, não teve acesso à Sala do Senado para uma reunião com os deputados portugueses. Sim, já entendemos as indirectas. É melhor não mexer neste assunto.

Tomemos o exemplo de Paulo Portas, Ministro da Defesa durante o período em que ocorreu a maior parte destes voos-fantasma e um inesgotável poço de ironias da vida. Paulo Portas refugiou-se em questões técnicas para evitar prestar declarações à comissão do Parlamento Europeu sobre um assunto que diz desconhecer. Paulo Portas poderia ter usado uma parcela deste seu zelo técnico e processual para controlar os aviões-fantasma que passavam por aeroportos sob a sua responsabilidade. E pensando bem, se desconhece este assunto qual é o problema de dizer isso mesmo aos eurodeputados? E pensando melhor ainda, como explicar este seu desconhecimento e despreocupação com tão graves suspeitas sobre dezenas de voos com escala por território nacional? Aquele Paulo Portas inflexível defensor das fronteiras fechadas e grande adversário do imigrante ilegal, parece (pelos vistos) significativamente menos soberanista se os ilegais em causa forem transportados por aviões executivos de empresas associadas à CIA. E claro que já volta a ser soberanista se for convidado a falar perante uma comissão do Parlamento Europeu.

Mas deixemos Paulo Portas e o seu soberanismo de plasticina. Os serviços secretos portugueses, no mínimo negligentes aquando da passagem destes voos, estão sob a alçada directa do primeiro-ministro, hoje José Sócrates, mas no início desta história Durão Barroso. Se o assunto não morrer depressa, quantos europeus gostarão de saber se o seu presidente da Comissão, como primeiro-ministro do país-anfitrião da “Cimeira das Lajes” era um homem que não se preocupou muito em controlar voos ilegais, transportando presos ilegais, provavelmente sujeitos a tratamento ilegal, para prisões ilegais, longe do olhar de qualquer juiz ou tribunal? Felizmente para Durão Barroso, não foi só ele: também sobre Tony Blair ou Gerhard Schroeder se podem levantar as mesmas perguntas. Só que nada disto parece muito “europeu”, não é verdade? Boa pergunta: como pode a União Europeia fazer exigências à Turquia sobre tortura quando uma mão-cheia dos seus governantes parece preocupar-se muito menos com o assunto desde que os torturadores tenham sido certificados pelos rapazes certos?

Por essas e outras razões, já entendemos a indirecta. E mesmo que não tivéssemos entendido, há sempre um apoiante da guerra para nos explicar que nada disto tem importância. Para começar, e por definição, os bons nunca torturam. O próprio vice-presidente dos EUA já no-lo disse, embora tenha acrescentado que para decidir se é permissível enfiar um terrorista debaixo de água “nem é preciso usar a cabeça”. E a própria definição de tortura esteja agora em vias de ser reescrita para permitir que se provoque “dor severa” desde que reversível. Quer dizer: continua a não valer arrancar olhos. Pelo menos, “nós” não o fazemos. Já no Egipto, na Jordânia ou no Uzbequistão... haverá alguma coisa que não se deslocalize neste mundo globalizado? Por outro lado, toda a gente sabe que não existem prisões clandestinas — ou pelo menos sabia, até o próprio George W. Bush ter admitido que existiam e que eram muito úteis para a segurança dos EUA. E recentemente foi até divulgado que o próprio cérebro do 11 de Setembro, Khalid Sheikh Mohammed, foi transferido de uma destas prisões clandestinas para Guantánamo.

(Sim, o cérebro do 11 de Setembro está preso. E agora pergunta o leitor porque não é ele levado a julgamento, como os terroristas do 11 de Março em Madrid? Segundo Seymour Hersh da New Yorker, pela simples razão de que a sua prisão está tão contaminada por ilegalidades, incluindo muita tortura, que qualquer juiz americano teria muita dificuldade em não se ver obrigado a soltá-lo.)

Chegados a este momento, vem normalmente o encolher de ombros final: tudo bem que é ilegal, mas quem se preocupa com terroristas? Ao que se pode responder: e como se sabe que eram todos terroristas? Não foram apresentados a nenhum juiz. Não houve nenhuma investigação independente. Não tiveram direito a advogado de defesa. Tanto podem ser terroristas como o primeiro barbudo da esquina. E em vários casos, já se provou que houve engano: um cidadão alemão foi torturado por cinco meses no Paquistão e depois abandonado numa estrada da Albânia.

Os norte-americanos lá saberão com o que contam, uma vez que os seus governantes são tão francos sobre os seus métodos. E os europeus, poderão confiar nos seus governos? Afinal a União Europeia respeita e faz respeitar a convenção de Genebra no seu território? E a convenção das Nações Unidas contra a tortura, cujo artigo 3 cito no início, e de que somos signatários? É para aplicar? Então porque deixámos passar incontrolados, em Portugal e na UE, aviões destinados a países onde se pratica a tortura e (já agora) de onde são oriundos terroristas, isto em pleno alerta máximo de segurança anti-terrorista? E quando Putin (ou a China, ou a Arábia Saudita) nos pedir um favor semelhante, que devemos responder? Que lamentamos, mas é só para os amigos?

Já entendemos que não dá muito jeito fazer perguntas destas. Mas agora que já entendemos, podem parar com as indirectas.

dezembro 04, 2006

Uma proposta salomónica

A TLEBS vai matar as nossas criancinhas. Não sabia? Vai penetrar naqueles encéfalos tenrinhos e secar-lhes os neurónios. Proteja os seus filhos. Caso contrário, ao fim de uma geração ninguém mais falará português em Portugal. Você foi avisado por Miguel Sousa Tavares, Eduardo Prado Coelho, Vasco Graça Moura, Helena Matos, Maria Alzira Seixo e muitos outros: uma conspiração de linguistas motivados pelo ódio à língua portuguesa e a raiva à literatura inventou os epicenos e os nomes contáveis, vírus de uma epidemia de TLEBS que pode vir a ser pior do que a gripe das aves ou a pneumonia asiática, juntas.


A reacção pública à TLEBS — que, no mundo real, é a Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário — foi, mais uma vez, exemplar dos debates sobre educação em Portugal. Os comentadores do costume (e algumas adições) continuam viciados em criar o pânico a qualquer gesto, com uma desconfiança crónica dos técnicos e professores, e sempre prontos a investir no sensacionalismo e na confusão, a serviço de um suposto tempo em que as coisas eram evidentes e “se aprendia”. Como me dizia um amigo biólogo, repete-se aqui o fundo da discussão sobre Plutão: como toda a gente tinha aprendido que Plutão era um planeta, era forçoso que Plutão continuasse a ser um planeta para sempre, independentemente do que entretanto tivessem descoberto os astrónomos.

Do outro lado, temos uma comunidade técnica e científica assarapantada no meio do espaço público como um bicho na auto-estrada. Ironicamente, os linguistas não são capazes de comunicar com a comunidade. Mas não lamentemos demasiado os académicos, que só têm de se queixar pelas suas culpas, principalmente quando a impotência desliza para o “não falem do que não sabem”, como fez Maria Helena Mira Mateus. Os académicos têm de entender que quando está em causa a generalização dos seus saberes, não só é natural como desejável que as pessoas acabem “falando do que não sabem”. Ou falamos todos do que não sabemos, ou sucumbimos à ditadura tecnocrática — e se os especialistas querem ajudar ao debate a melhor maneira de o fazer não é exigir-lhe que termine. Além de que, se os linguistas tivessem pensado no resultado final, teriam feito bem em trabalhar menos e não mais: a TLEBS desce efectivamente a um nível minucioso que, como se viu, atrapalhou mais do que ajudou.

Se eu fosse linguista, teria especial cuidado com este particular, porque já se chegou ao ponto em que Vasco Graça Moura conseguiu convencer as pessoas de que o linguista é o inimigo da língua e abomina a literatura. O que é uma especificidade portuguesa muito infeliz: nos EUA, por exemplo, basta ver a importância pública de autores como Steven Pinker e, de forma diferente, George Lakoff. A Linguística é talvez a disciplina das humanidades que mais evoluiu e que melhor diálogo tem com as ciências naturais: perguntem a António Damásio sobre os ecos entre o seu trabalho e o dos linguistas, na neurologia, nas ciências cognitivas e na inteligência artificial. A Linguística ocupa um lugar-charneira no arquipélago dos saberes, o que explica parte das linhas de fractura na discussão da TLEBS: os linguistas são hoje uma espécie bem diferente dos seus restantes colegas das Faculdades de Letras.

Acabamos então demonizando uma disciplina de ponta e, a acreditar nas últimas notícias, ferindo de morte a TLEBS. E para quê? Para voltar a uma terminologia obsoleta, divergente da utilizada no maior país de língua portuguesa e que não é menos específica nem complicada do que a TLEBS? Não haverá então nada que se aproveite desta discussão?

Claro que há. Há um aspecto que me intriga e estimula: esta tensão fundamental entre os que defendem a prioridade ao estudo da língua e os que defendem a prioridade à literatura. Para uns é essencial conhecer os alicerces, os tijolos e as traves-mestras da língua; para outros, habituar-se a passear pelos palácios da literatura. Por experiência pessoal, sou sensível ao argumento de Vasco Graça Moura de que o domínio da língua vem depois do entusiasmo da leitura, como quem diz: levem-nos a visitar o mosteiro da Batalha em vez de lhes dizerem o que é um arcobotante. Por outro lado, quem ainda não esqueceu o último grande pânico a propósito dos níveis de literacia compreende que se os estudantes desconhecerem os materiais de que é feita a língua não só nunca atingirão as alturas do mosteiro da Batalha (ou d'Os Maias) como terão dificuldades em ler um artigo de jornal ou em escrever uma carta de reclamação. Mas que devemos, então, ensinar-lhes: a engenharia, a arquitectura ou a decoração de interiores da língua portuguesa? A resposta a essa pergunta é outra pergunta: desde quando uma coisa nos obriga a prescindir da outra?

Este momento é o ideal para uma proposta salomónica. Em vez de termos apenas uma gaveta, a que se chama Língua e Literatura Portuguesa, para volta e meia assistirmos a uma nova batalha pela porção que deve caber a uma e a outra, deveríamos finalmente dar a dignidade merecida às duas matérias.

De um lado, teríamos a Literatura, não só pelo benefício que dela resulta para a língua mas reconhecendo a centralidade das letras na cultura universal. Os clássicos da literatura em Língua Portuguesa continuariam a ser o núcleo fundamental desta disciplina, mas tampouco há razão para excluir dela alguns clássicos fundamentais em tradução — Cervantes, Shakespeare ou Tolstoi. Além disso, desobrigada do estudo linguístico aprofundado, sobraria algum espaço para iniciar experiências de escrita criativa e estimular o talento literário. Idealmente, poderia aflorar as outras Artes: penso em Drama, Música ou Cinema.

Do outro lado, a Linguagem. Mais uma vez, o eixo central seria a Língua Portuguesa, mas não nos deteríamos aí. Desde os saberes clássicos com contributos pragmáticos — a retórica, a gramática e a dialéctica — à análise de discurso, à construção de argumentos e às distinções entre fonética, morfologia e sintaxe (ou entre dialectos e idiomas, tão incompreendida), há aqui muito de fundamental para os dias de hoje. Saber interpretar e analisar; conhecer a história dos media e o panorama linguístico do mundo — temas importantes e entusiasmantes de ensinar e aprender. Ajudando a combater o analfabetismo funcional e a melhorar os níveis de literacia sem se poder ser acusado de “matar” o gosto pela fruição estética ou roubar espaço aos clássicos da literatura.

Ao contrário do que se diz, não é de agora que vivemos na sociedade da comunicação. Os humanos respiram comunicação e cultura como respiram oxigénio, e provavelmente desapareceriam sem elas. Duas disciplinas diferentes não são demais para os desafios de um estudante médio. Por um lado, ampliar e sofisticar a sua cultura geral, pelo contacto com os melhores exemplos históricos da literatura e mesmo das restantes artes. Por outro, ganhar ferramentas de análise e construção do discurso nos seus vários níveis. Não temos de excluir uma opção pela outra — nem devemos.

dezembro 03, 2006

A casa do vizinho

[do Público de 25 novembro 2006. Atrasado por causa dos problemas da plataforma weblog em Portugal que, aparentemente, têm sido também a causa dos bloqueios nos comentários.]

E a mensagem para os políticos é a seguinte: estamos tão zangados, mas tão zangados convosco, que até nos dá vontade de ser espanhóis.

Aqui há uns meses, houve um assomo de polémica quando se anunciaram sondagens segundo as quais uma porção importante dos portugueses gostaria de fazer parte de uma união com Espanha. Mas eu não compreendo o que desejam realmente os meus compatriotas. Nós já vivemos numa união com Espanha: chama-se União Europeia. Melhor, é uma união com a Espanha, a França, a Inglaterra, etc. — e a Estónia. Se os portugueses estão assim tão empenhados na diluição das fronteiras do seu país, têm então bom remédio: investir no aprofundamento da integração europeia. Como não lhes vejo grande entusiasmo nesse particular, dou-me ao luxo de achar que é por capricho e desfastio que alguns portugueses falam da união que não têm quando pouco querem saber daquela que têm.

Mas esse capricho tem motivações que pode ser interessante explorar. Há então duas hipóteses conhecidas: ou os portugueses estão zangados, ou os portugueses estão cansados.

A primeira hipótese parte do princípio de que os portugueses — parte deles — desejavam enviar uma mensagem. A quem? Àqueles que vivem de ler sondagens — os políticos, por exemplo. E a mensagem para os políticos é a seguinte: estamos tão zangados, mas tão zangados convosco, que até nos dá vontade de ser espanhóis. Não é que o queiramos realmente ser, mas é para que vão sentindo o tamanho da zanga, e a ideia é magoar, como quando numa discussão de casal se diz: porque é que não és como fulano ou sicrana?

A segunda hipótese: os portugueses estão cansados da crise, do distanciamento em relação à Europa, da perda de poder de compra. Nesta ordem de queixas também culpam os políticos, é certo, mas quando se está cansado já não se sabe a quem culpar, nem isso interessa muito. Quer-se apenas que os maus tempos passem, que “isto” mude. E é então que se começa a invejar o vizinho, ou melhor: a casa do vizinho, o emprego do vizinho, a conta bancária do vizinho. Segundo o filtro do nosso cansaço, os portugueses não gostariam de ser espanhóis — gostariam apenas de ter a vida que os espanhóis têm. O vizinho é aqui meramente instrumental.

Nisto tudo vai-se perdendo um pouco aquilo que o vizinho verdadeiramente é, nas coisas boas e más, e as razões (também boas e más) por que nós não somos o nosso vizinho.

Um exemplo: os portugueses invejam a taxa de crescimento da economia espanhola, que anda à volta dos quatro por cento. Mas não se vê um único político português fazer suas as palavras do principal conselheiro económico de Zapatero, o economista Miguel Sebastián, que atribui grande parte desse crescimento económico aos imigrantes. No discurso português, a imigração é apresentada, meio envergonhadamente, como um problema. Miguel Sebastián, que Zapatero decidiu designar como candidato socialista para alcalde de Madrid, diz que o afluxo de imigrantes dinamiza a economia. Aqui a grande preocupação é o défice: Miguel Sebastián lembra que a contribuição líquida dos imigrantes para os cofres do Estado espanhol, nos últimos cinco anos, é de 4,7 mil milhões de euros. Nas palavras do diário francês Libération, que fez eco das declarações de Sebastián e que sigo na compilação destes dados, os imigrantes são o doping da economia espanhola.

Junto com a preocupação do défice, o outro grande problema português é o da Segurança Social. Aqui vale a pena citar os dados de um estado do banco catalão Caixa: os imigrantes estão a aumentar a taxa de fertilidade em Espanha, que é das mais baixas do mundo, e com eles já foi detida a queda da população. Os espanhóis, que são hoje cerca de quarenta e quatro milhões, seriam menos de quarenta milhões sem os imigrantes e os filhos que estes entretanto tiveram. Mas há mais: com o afluxo de mão-de-obra para os trabalhos domésticos, mais de um milhão e meio de espanholas pôde entrar no mercado de trabalho, aproveitando a descida na taxa de desemprego, e aumentando as contribuições para a Segurança Social. No nosso debate sobre segurança social, a imigração é uma variável de que nem sequer se fala, talvez porque a alternativa seja muito melhor: trabalhar mais, ganhar menos, aposentar-se mais tarde e, além disso, ter mais filhos e cuidar deles com menos poder de compra e menos tempo para estar em casa.

Nestas coisas, como diz o nosso primeiro-ministro, há sempre alternativa, mas a questão é saber se queremos viver com ela. Em Espanha — segundo Raquel Vázquez, co-autora do estudo do Banco Caixa — “o nível de vida teria caído 0,6% em vez de subir 2,6%” entre 1995 e 2005, se os imigrantes não tivessem contribuído para fazer crescer o bolo. Miguel Sebastián diz que, para prosseguir nesta fase de crescimento, a Espanha precisará de 200 mil imigrantes por ano até 2020. No ano passado, o governo espanhol chegou à conclusão que é melhor ter os imigrantes documentados do que na ilegalidade, e regularizou 600 mil de uma assentada.

Para contrariar a geral visão depressiva da imigração, aqui ficam estas pepitas. Claro que, como sabemos, nem tudo é fantástico: quase todos estes imigrantes têm vínculos de emprego precários e também em Espanha as sondagens de opinião lhes são adversas, o que demonstra uma certa ingratidão. Sinto-me tentado a dizer que se não os quiserem por lá, nós deveríamos aceitá-los de bom grado. Mas sem dúvida que preferiremos antes continuar a sonhar com a casa do vizinho, reconhecidamente muito simpática, sem querer fazer nada do que o vizinho fez. Em última análise podemos até, como já muitos fazem, mudar-nos para lá. Certamente que os cofres do Estado espanhol nos agradecem, e que mesmo que alguns espanhóis não o reconheçam, até esses se poderão queixar consumindo com os seus salários mais altos e as suas reformas de velhice mais seguras.