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novembro 20, 2006

Palhaço pobre, palhaço rico

[do Público de 18 de novembro 2006]

Durão Barroso tem sido o palhaço rico desta dupla desde nem se sabe quando. Dos tempos da faculdade, talvez? No governo de Cavaco, Santana Lopes era o secretário de estado estouvado e Durão Barroso o secretário de estado atiladinho.

Portugal precisa de Pedro Santana Lopes. Não como primeiro-ministro nem líder da oposição, não como autarca nem presidente de clube recreativo. Precisa de Santana Lopes como artista de variedades. Num café da baixa, às primeiras imagens de uma nova entrevista sua, os olhos abandonaram por momentos os tristes copos de cerveja e o empregado de avental correu a subir o volume do aparelho de televisão: “deixa ouvir o gajo, pá!”. E os clientes ali ficaram, suspensos do desempenho daquele velho conhecido, recordando incrédulos os meses em que ele foi primeiro-ministro, pontuando aqui e ali com um gargalhada. O “gajo” é uma diversão: nos seus lamentos sobre as interpretações maldosas da sesta e da ModaLisboa, nos voos rasantes sobre a ingratidão dos que lhe sucederam, nas exortações aos portugueses: “só peço aos portugueses que leiam o meu livro”. Santana Lopes sente-se espoliado; por vezes refere-se aos cargos que teve como “o lugar que era meu” — Marques Mendes ficou com “o lugar que era meu no PPD/PSD”, Carmona Rodrigues na Câmara de Lisboa, José Sócrates no Governo. Como uma vedette que já viu melhores dias, agarra-se aos sucessos do passado, o tempo em que se dizia que era imbatível em eleições: “ganhei em Lisboa contra tudo e contra todos”, “fui a votos sozinho na Figueira”. Lisboa, Figueira da Foz, os congressos do PPD/PSD. Parece a lista de salas de espectáculos onde o grande Santana apresentou o seu número de triplo salto mortal sem rede política. “Não o deixem sozinho, que ele vai para a floresta estilo Rambo”, diz de si mesmo, como quem decorou uma crítica dos tempos em que era cabeça de cartaz.

Santana Lopes entretém como poucos, mas acontecem-lhe coisas como a ninguém. Ele é o ministro que se demite sem avisar, ele é o discurso da incubadora que foi mal entendido, ele é o presidente que lhe garantiu que não dissolvia o parlamento. Os clientes do café abanam a cabeça, saboreando: aquilo é que eram tempos, pá. Todos os dias havia uma nova. Ele foi o Professor Marcelo que aproveitou a primeira ocasião para o tramar. Santana, enquanto primeiro-ministro, comprou uma guerra com um comentador de televisão, mas até hoje ainda não entendeu como é que as pessoas foram achar que o governo queria condicionar os media.

Neste seu jeito de dar um trambolhão em público e depois vir mostrar as nódoas negras à plateia, Santana Lopes é uma espécie de palhaço pobre da política portuguesa. Por isso o público e os comentadores gostam tanto dele e não há quem não tenha molhado o pão naquela sopa. Eu sei como é irresistível, eu sei como é fácil. Fácil de mais, até. É por isso que se deve aproveitar este regresso às memórias do santanismo e dirigir o holofote para uma personagem que já se tinha escapado pelos bastidores quando o circo pegou fogo.

Durão Barroso tem sido o palhaço rico desta dupla desde nem se sabe quando. Dos tempos da faculdade, talvez? No governo de Cavaco, Santana Lopes era o secretário de estado estouvado e Durão Barroso o secretário de estado atiladinho, que chegou a ministro. Mais tarde, era Santana que levantava os congressos do partido, mas foi a Durão que lhe caiu a chefia do governo no colo. Guterres acabara de recusar o cargo de Presidente da Comissão Europeia declarando não desejar abandonar o governo do seu país, para depois de uma derrota eleitoral a meio do mandato convocar eleições antecipadas. Dois anos depois de ganhar o cargo de Primeiro-ministro nesse processo, Durão encarou uma derrota eleitoral a meio do mandato dizendo que ia continuar no governo, para depois aceitar o cargo de Presidente da Comissão Europeia que — sabemo-lo agora — já ambicionava desde antes das eleições, quando ainda dizia apoiar a candidatura de... Guterres. Confidencialmente, foi dizendo a Santana que se preparasse para o substituir e, finalmente, fez-lhe aquilo que os palhaços ricos fazem aos palhaços pobres: passar-lhes a batata quente para as mãos no mais periclitante dos momentos e deixar que eles se estatelem em palco à vista de toda a gente.

Anos passados, ambos permanecem firmes nos seus papéis. Santana dá entretenimento, fala do que poderia ter sido mas não foi e diz que não voltará à política enquanto “não estabilizar a vida profissional”. Como telenovela, não duvido que tenha ultrapassado em audiências o Presidente da República, que falava noutro canal. Quanto a Durão, também ele tem aparecido com mais frequência nas capas das revistas, patenteando aos seus compatriotas a honra que devem sentir por termos exportado para a Europa um Primeiro-ministro fraco que se tornou num Presidente da Comissão medíocre. Ainda não se lhe viu uma actuação decisiva em nenhum dos muitos problemas que a União Europeia tem, mas parece preparar já o dia em que regressará à pátria, na mó de cima, sempre.
 
Revisitando a “Grelha Queimada”: o meu texto de há duas semanas, nas sua parte sobre educação, foi comentado na blogosfera e também aqui, nas páginas do Público, através de um artigo bastante equilibrado de Paulo C. Rangel. Na medida em que este concorda que a visão dominante sobre educação, com a sua insistência na decadência e na catástrofe, se tornou injusta e (diria eu) asfixiante, temos motivo para acordo, como na ambição de ter um ensino verdadeiramente democrático e na consciência do muito que nos falta para lá chegar. Já não vejo como pode Paulo C. Rangel descrever como de “optimismo antropológico” um texto onde escrevi que “a minha ideia jamais seria dizer que tudo é maravilhoso na educação portuguesa dos últimos anos — o que além de falso seria pernicioso” e defendi apenas que uma comunidade é tão socialmente irresponsável quando ignora informação negativa como quando recusa ver sinais de progressão. Também a ideia, que Paulo Rangel sugere, de que Portugal começa a ter uma elite científica sem passar pelo fomento a uma “classe média do conhecimento”, uma população escolar com um fosso entre “excepecionalmente bons” e “fartamente medíocres”, me parece um tanto artificial. Brevemente, tentarei desenvolver o tema, respondendo também ao que se escreveu nos blogues, em http://ruitavares.weblog.com.pt/ e http://5dias.net/.

novembro 13, 2006

A vida dá muitas voltas

[do Público de 11 novembro 2006. Comentários temporariamente aqui.]

Os nomes nesta farsa são sempre os mesmos — Bush, Bush, Cheney, e uma corte de intelectuais tão prestimosos quanto caducos — sempre com a mesma mistura de cinismo, manipulação e hipocrisia. De resto, esta gente gosta imenso de falar de valores.

Os homens da semana: Saddam Hussein e Donald Rumsfeld. Saddam Hussein foi condenado à morte pelo massacre de mais de uma centena de xíitas na cidade de Dujail. Corria o ano de 1982 e não consta que Donald Rumsfeld, ex-Secretário de Estado da Defesa do presidente Gerald Ford, tenha tido grande reacção. Pelo contrário: no ano seguinte, já como enviado especial do Presidente Reagan ao Médio Oriente, Donald Rumsfeld visitou Saddam em Bagdad e de entre as amenidades trocadas na ocasião ficou a ideia de que Saddam Hussein era um aliado na luta contra (tente adivinhar) o terrorismo islâmico. O massacre de Dujail foi visto com uma retaliação a um atentado contra Saddam por parte do Partido do Chamamento Islâmico (Partido Dawa), que os EUA consideravam como sendo um grupo terrorista, aliado do Irão e logo depois grande apoiante do Hezbollah. O Partido Dawa defendia um estado islâmico, com a lei baseada na sharia e cujas decisões políticas não pudessem contradizer o Corão. E ainda defende. Mas a vida dá muitas voltas: o actual primeiro-ministro do Iraque, apoiado pelos EUA, é do Partido Dawa, tal como o anterior já foi.

Saddam foi condenado à morte a poucos dias de umas eleições intercalares nos EUA dominadas pela guerra do Iraque, entretanto conduzida a partir do Pentágono pela sua antiga visita nos palácios de Bagdad, que voltou a ser nomeado Secretário de Estado da Defesa por George Bush (não, não se trata do Vice-Presidente americano à época do massacre de Dujail, mas do seu filho George W. Bush, cujo vice-presidente, Dick Cheney, é o antigo Secretário de Estado da Defesa do pai). Nem toda a gente ficou contente com esta condenação à morte, por razões de princípio, de método ou de oportunidade. Mas uma das razões menos lembrada é que Saddam Hussein será executado logo que esta decisão passe pelo recurso, interrompendo e esvaziando de sentido os outros 14 processos contra ele. Poderemos nunca ver julgados até ao fim os piores crimes de Saddam Hussein, nomeadamente o genocídio dos curdos na campanha de Anfal, durante a qual morreram talvez cem mil pessoas. Será triste para a humanidade que não chegue a julgamento este crime. E seria fascinante ouvir o que Saddam Hussein tivesse para dizer sobre estes anos de 1987 a 1989 em que a campanha de Anfal decorria e George Bush pai subia de Vice-Presidente a Presidente dos EUA. Mais uma vez, sem grandes protestos contra o ditador iraquiano, — e assim continuou até ao dia em que Saddam Hussein, habituado à trela solta, decidiu invadir o Kuwait.

Sim, Saddam Hussein massacrava o seu próprio povo, como costuma dizer George Bush, filho. Sim, Saddam Hussein teve armas de destruição em massa, e até as usou sob os olhos semicerrados do Ocidente, na guerra contra o Irão. Sim, gostaríamos de saber tudo o que há para saber sobre estes assuntos, de preferência num tribunal internacional.

Nesta mesma semana, os americanos puniram este Partido Republicano e a sua política iraquiana numas eleições intercalares para o Congresso dos EUA onde, supostamente, a política externa não desempenharia qualquer papel. Ora, o Partido Republicano é o partido do Iraque. Não foi Carter que usou Saddam Hussein para atacar o Irão, apesar da crise dos reféns da embaixada americana em Teerão. E depois dos anos de Reagan e Bush pai, Clinton recebeu o Iraque já como facto consumado, com Saddam agora finalmente insuflado no seu papel de “monstro de Bagdad”. Tampouco foi um membro do Partido Democrático que, logo depois de um 11 de Setembro planeado no Afeganistão e perpretado por sauditas, insistia que se atacasse imediatamente o Iraque pela singela razão de que lá é que estavam “os bons alvos”. Foi antes o nosso velho conhecido Donald Rumsfeld. Aliás, os nomes nesta farsa são sempre os mesmos — Bush, Bush, Cheney, e uma corte de intelectuais tão prestimosos quanto caducos — sempre com a mesma mistura de cinismo, manipulação e hipocrisia. De resto, esta gente gosta imenso de falar de valores. Os valores são óptimos. Para os outros.

O que espanta é a moleza com que tudo isto ainda vai sendo recebido pela opinião instalada nos media ocidentais. Os mesmos comentadores que nos garantiram que o Iraque não teria qualquer peso nas escolhas dos americanos foram desmentidos pelo próprio George W. Bush, que poucas horas depois da derrota demitiu o arquitecto da guerra, Donald Rumsfeld, e declarou que estava aberto a qualquer ideia nova sobre o Iraque — demonstrando que ele, pessoalmente, não faz a mínima sobre como lidar com os seus próprios disparates.

Falido um modelo explicativo, passa-se com desenvoltura para a segunda hipótese da moda: afinal o resultado das eleições americanas é a demonstração da moderação do eleitorado e uma vitória dos centristas. Mas, que diabo, não foram estes mesmos comentadores que nos garantiram que os americanos nunca votariam na nova presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, porque esta era uma esquerdista de San Francisco, anti-guerra e apoiante do casamento dos homossexuais? E não pertence esta vitória também a Howard Dean, um dos líderes do Partido Democrático, diabolizado desde 2003 como um lunático pacifista? Ah, as virtudes da moderação. Vejam como as palavras de George W. Bush na sua mais recente conferência de imprensa foram descritas por John Murtha, porta-voz democrático para o Iraque: “lixo retórico”.

O mesmo se poderia dizer sobre as justificações de muitos outros apoiantes da guerra, nomeadamente daqueles que agora nos dizem que os seus adversários não têm nenhum plano para sair do Iraque. Pois é: só a retaliação das tropas americanas contra Falluja provocou mais mortos que os de Dujail e uma onda de terrorismo que não cessa de aumentar. Que surpresa: o nosso plano para sair do Iraque teria sido, simplesmente, não lá ter entrado. Dissemo-lo, aos milhões, nos meses que antecederam a guerra. Saddam deveria ter sido combatido com as armas do direito internacional, com um apoio consistente à oposição democrática, com paciência e superioridade moral. Mas há mais: talvez o melhor fosse mesmo não o ter visitado nem lhe ter dado apoio entre 1983 e 1989.

A vida dá muitas voltas, e a última delas é apenas o princípio do fim para esta amoral aliança entre a arrogância neo-conservadora e o egoísmo neo-liberal, que guardava os votos do fundamentalismo evangélico no bolso e chantageava a opinião pública com o pânico do terrorismo e o fervor patriótico. Donald Rumsfeld terá agora tempo e sossego para reflectir em tudo isto.

novembro 06, 2006

Para comentar? É já ali do outro lado...

Tenho continuado a receber queixas por não se poder comentar neste blogue. Os meus esforços para resolver o problema têm sido, até agora, pouco sistemáticos e infrutíferos. Tentarei dedicar-me ao problema brevemente. Enquanto não o conseguir resolver, deixem-me lembrar-vos que tenho andado a republicar os meus textos no 5 dias, onde o sistema de comentários está activo, e já há uma discussão em curso sobre o último texto, este da "geração rasca" e dos "convencidos da vida". Vou tentar responder a esses comentários até hoje à noite. Quem estiver interessado em participar, não deixe de lá dar um salto.

A grelha queimada

[do Público de 5 de novembro 2006]

Em vez do cepticismo melancólico dos "Vencidos da Vida" agora estamos resumidos aos sermões agressivos dos "convencidos da vida".

A «Geração Rasca» está mais velha e o mesmo jornal que celebrizou o termo — este mesmo onde escrevo — trazia há dias uma notícia curiosa. Segundo o Público, o número de artigos assinados por portugueses nas revistas-padrão do mundo científico, a Nature e a Science, ultrapassou as quatro dezenas no último ano. Ou seja, a Nature e a Science publicaram mais artigos de portugueses no último ano do que em toda a história de ambas as revistas. Os números não estão pormenorizados por idade dos cientistas, mas como a quase totalidade dos nomes de portugueses não aparece (ainda) como primeiro autor dos textos, a conclusão natural é a de que se tratam de investigadores "junior", ou seja, em torno dos 30 anos. Aposto que se fôssemos a olhar mais de perto descobriríamos que grande parte destes cientistas fez os seus estudos durante os anos 80 e 90, precisamente aqueles que a opinião dominante considera terem sido de "terra queimada" na educação. Estão de parabéns os autores dos artigos e muito em particular um cientista que, tanto quanto me lembro, nunca acreditou na tese da "geração rasca", José Mariano Gago.

Por que não foi esta notícia mais comentada pelos colunistas que costumam escrevem sobre educação básica, ensino superior e investigação? A resposta pode estar naquilo a que a ciência cognitiva chama de "enquadramento" (framing), mas que é já de há muito conhecido sob outras versões, como a de "grelha de leitura". Ora acontece que quando temos uma grelha de leitura muito vincada sobre um tema ela tende a anular os factos que a contradizem, mesmo que eles estejam debaixo do nosso nariz. É isso que se passa com o debate sobre a educação em Portugal, de tal forma dominado ideologicamente que não há facto contraditório que sobreviva ao rolo compressor da "terra queimada". Talvez por isso uma notícia destas não mereça comentário: se a geração rasca é assim tão rasca, como é que publicam nas revistas de referência internacionais como nenhuma geração de portugueses antes dela o fez? O cérebro baralha-se e recusa-se a acreditar.


E é por isso também que eu insisto em dar destaque a esta notícia e outras como ela, porque os factos que contradizem a grelha de leitura dominante precisam de poder cumprir o seu papel de antídotos. Antídotos, reparem: a minha ideia jamais seria dizer que tudo é maravilhoso na educação portuguesa dos últimos anos — o que além de falso seria pernicioso —, mas que há coisas boas que demoram tempo a acontecer, investimentos que já estão a dar certo e uma progressão que se arrisca a ficar pelo meio do caminho se a grelha da "terra queimada" não tiver contraditório. Aquilo que eu quero, no fundo, é que a próxima geração possa ser também tão rasca, mas tão rasca, que publique mais ainda na Nature e na Science do que esta.

Seria interessante perceber de onde vem esta ideologia da "terra queimada". Desde logo, é importante notar que ela não tem nada de original: desde a Antiguidade Clássica que falar da decadência dos saberes e dos valores é um lugar-comum, uma versão intelectual da "queda do paraíso" bíblica. No Ocidente esta tendência é reforçada pela trajectória hoje crescentemente conservadora das gerações dos anos 60 e 70. E o que é ser conservador senão considerar que o futuro é, com toda a probabilidade, pior do que o passado? (Este é o momento em que os extremos se tocam e os conservadores estão de acordo com Rousseau, mas suspeito que esta evidência tampouco possa penetrar em certas grelhas de leitura). Por razões históricas que seria complicado resumir, Portugal tem aspectos reforçados das duas tendências: a decadentista que teve o seu auge no século XIX, e a reviravolta conservadora da geração do 25 de Abril, que se nota não só nos que navegaram até à direita mas até nos que ficaram à esquerda. O problema é que em vez do cepticismo melancólico dos "Vencidos da Vida" agora estamos resumidos aos sermões agressivos dos "convencidos da vida".

Os efeitos destas tendências não se fazem apenas sentir nos debates sobre educação. Um exemplo especialmente evidente está na relação entre colunistas da imprensa e blogosfera (a distinção entre ambas é de base tecnológica, mas o debate também se faz sob um pano de fundo geracional). Vejamos alguns casos recentes, começando pela acusação de plágio (quanto a mim, e parece que à maioria das pessoas, perfeitamente infundada) que um blogue anónimo fez a Miguel Sousa Tavares. Esta acusação foi entendida como sintoma de uma espécie de doença crónica da blogosfera. Num editorial do Público, José Manuel Fernandes sugeriu que a blogosfera teria de fazer um esforço colectivo para se limpar destes maus exemplos. A intenção, por boa que fosse, parte de uma incompreensão de base do que é a blogosfera, um meio descentralizado e avesso a hierarquias, onde o máximo que cada blogue pode fazer para corrigir os outros é o que já faz: escrever sobre o assunto. Tudo o mais seria como pedir ao "Jornal de Letras" que se responsabilizasse pelo que escreve "O Crime", ou à "Nova Cidadania" que tomasse conta daquilo que sai na "Sexus".

Em casos como estes, não há blogosfera nem imprensa, há blogues e pessoas bem-intencionadas e credíveis e outras que não o são. E Miguel Sousa Tavares tampouco deu um bom exemplo ao responder com acusações genéricas a "um bloguista bloquista" ou a um "escritor frustrado obcecado com plágios" — acusações que não quis concretizar e que lançam suspeitas sobre pessoas individuais. O que vem provar que também na imprensa há quem não saiba cumprir com as regras básicas de enunciação e confirmação de factos. O mesmo se pode dizer da recente incursão de Eduardo Prado Coelho em território blogosférico, acusando de anonimato um blogue assinado por Luís Pedro Coelho [http://blog.luispedro.org] ou descrevendo como "aparvalhado" o estilo de um dos mais sérios bloggers nacionais, Luís Aguiar-Conraria [http://aguiarconraria.blogsome.com/]. Na resposta de Aguiar-Conraria, Eduardo Prado Coelho deve ter descoberto aquilo que Vital Moreira, Vasco Pulido Valente, Constança Cunha e Sá e até José Pacheco Pereira já descobriram: que a blogosfera dá luta e, de caminho, nos prova que afinal Portugal tem mais gente, mais bem informada e mais empenhada do que aquilo que se pensava.

Numa velha canção dos anos 60, Georges Brassens satirizava este tipo de debates explicando que "le temps ne fait rien à l'affaire, quando on est con, on est con". Traduzindo e adaptando, quer dizer que esta não é uma questão de tempo, de geração ou sequer de tecnologia — quando se é aparvalhado, é-se aparvalhado. Há gente que precisa de voltar a ouvir esta música antes de lançar os seus anátemas — e, curiosamente, os que mais parecem precisar são os que a conheceram logo na altura em que ela saiu.