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Falemos então de irresponsabilidade

[do Público de 14 de Outubro de 2006]

Não há nada mais irresponsável do que um demagogo armado em durão. Na maior parte dos casos, inventa um problema onde não havia. Nos outros, o problema que prometeu resolver piora. Nos restantes, a solução é pior do que o problema.

1. Pode estranhar-se o facto de se dedicar qualquer artigo a Paulo Portas cujo título não seja “Já Era”. E no entanto, ainda mal Paulo Portas deu início aos seus planos de entrar em criogenia política durante a oposição e já os seus órfãos sentem necessidade de o descongelar. António Pires de Lima lançou o primeiro sinal. Luís Nobre Guedes o segundo. E agora passámos à categoria de missa de corpo presente, com o próprio Paulo Portas a rodar as concelhias do partido não tanto para dispensar novas ideias mas antes para lhes relembrar quais eram as velhas. Na passada terça-feira dirigiu-se a Odivelas para falar de imigração e segurança (haverá outro tema?), descrevendo os passos para uma legalização menos dificultosa de imigrantes como uma “irresponsabilidade”.

Falemos então de irresponsabilidade.

Este é ainda o Paulo Portas que impôs no governo quotas altamente restritivas de imigração e aumentou as barreiras burocráticas à obtenção de visto. Para o ano de 2004, por exemplo, não poderiam entrar mais de 8500 imigrantes; até Setembro desse ano haviam conseguido legalizar-se três (um é pouco, dois é bom, três é demais?). No entanto, qual foi o resultado? A imigração não diminuiu, longe disso; passou simplesmente a ser ilegal, e em termos massivos. Não só aumentaram os imigrantes sem outro direito que não o de serem explorados, como ainda por cima o Estado não tem maneira de saber quantos são.

Na verdade, não há nada mais irresponsável do que um demagogo armado em durão. Na maior parte dos casos, inventa um problema onde não havia. Nos outros, o problema que prometeu resolver piora. Nos restantes, a solução é pior do que o problema. Se confrontado com o fracasso das suas propostas no mundo real, o demagogo inventa para si um estatuto de “vítima do politicamente correcto”, último refúgio da cobardia política. Isto quando corajoso é, no nosso contexto, reconhecer que Portugal precisa de mais imigrantes. Corajoso é explicar que eles nos podem ajudar a sustentar a Segurança Social (mas não queremos tal coisa, ou queremos?). Corajoso é perceber que com eles podemos superar uma insularidade cultural que subsiste no nosso país.

2. Para outros sinais de vida da nossa direita conservadora, vale a pena recuperar um artigo de Mário Pinto no Público de passada segunda-feira. Sob o título “O aborto: as razões e a vergonha”, Mário Pinto não perde tempo e não faz por menos: ainda vamos no primeiro parágrafo e já os seus adversários no debate do aborto são comparados a Goebbels e Staline. Isto faz lembrar o corolário da chamada Lei de Godwin, que diz o seguinte: numa discussão, o primeiro que comparar os seus adversários aos nazis, perde.

Desse ponto de vista, o texto de Mário Pinto é um prodígio — não só marca um golo na própria baliza como insiste em fazê-lo no primeiro minuto de jogo. E em reincidir; cinco parágrafos depois Mário Pinto volta a comparar os seus adversários aos nazis, afirmando taxativamente que não mostrar imagens de fetos abortados na campanha para o referendo seria como esconder a realidade dos campos de concentração nazis: “Qualquer pessoa razoável poderá então interrogar-se: mas porque é que não hão-de mostrar-se as técnicas do aborto? E até os embriões e bebés abortados? Mostrar honradamente o horror não é imoral; imoral é escondê-lo, como se fez nos campos de concentração nazis”.

Também esta frase mereceria uma lei com o seu próprio nome, a Lei de Pinto, que poderia resumir-se assim: se um homem precisa de mostrar fetos abortados para ganhar uma discussão é porque está realmente desesperado.

Mas há método neste desespero. Se o debate em torno do aborto, ainda antes de o referendo estar marcado, mergulhar numa espiral descendente, é bem provável que grande parte do público se enoje e afaste dele. Os comentadores e jornalistas enfastiados farão o resto do serviço, declarando cinicamente o desinteresse da discussão e repartindo as culpas, como costumam fazer, pelos “dois lados”. É bom então assinalar — desde o primeiro momento — quem está dando ao seu campo sinal de que baixar o nível é admissível e até “honrado”, fazendo disso estratégia de campanha.

As comparações aos nazis e as exortações a mostrar imagens de fetos abortados são demasiado desajeitadas para negar esta intenção, mas poderíamos juntar-lhes a retórica incomparavelmente mais hábil de Manuel Queiró, que no Público de quarta-feira passada chamava ao seu campo “os adversários do aborto totalmente livre”, insinuando por implicação que do outro lado estariam adeptos do aborto totalmente livre. Totalmente livre, como? Até aos nove meses de gravidez? Ora, Manuel Queiró sabe muito bem que a lei a ser referendada pretende descriminalizar o aborto até às dez semanas.

Distorcer a posição dos adversários, defender a utilização de imagens chocantes e lançar mão de comparações com ditadores e genocidas; tudo isto nas vésperas de um referendo. Sobre irresponsabilidade, estamos conversados.

3. Junto aqui estes exemplos do debate sobre imigração e do debate sobre o aborto porque para além da sua gravidade específica eles são uma janela sobre a essência da velha direita portuguesa, algo que deveria preocupar seriamente os seus partidários. O problema é que a nossa direita é mais atávica do que conservadora. Sendo conservadora, compreender-se-ia que tivesse uma relação crítica com a modernidade. Como é atávica, pretende apenas negá-la. A nossa direita não tem ilusões sobre acabar com o aborto: quer apenas fazer de conta que o criminaliza. A nossa direita não consegue lidar com a imigração: prefere apenas não a legalizar. Nada de novo: fingir que a realidade não existe se a negarmos é uma atitude mais velha que a Sé de Braga. Mas é também um caminho certo para a irrelevância.

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