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O Paleólogo

[do Público de 23 setembro 2006]

Vemos pois que Ratzinger não defendeu a liberdade de expressão dos caricaturistas. Porém, tal não é razão para lhe fazer o mesmo seis meses depois.

Quando no início do ano rebentou a polémica das caricaturas dinamarquesas, o Papa tomou uma posição clara: a liberdade de expressão não inclui o direito a blasfemar. O Vaticano e toda a hierarquia católica foram unânimes em considerar que o jornal dinamarquês não deveria ter publicado as caricaturas porque, como disse então o Patriarca de Lisboa, "com o sagrado não se brinca", ou melhor ainda, "o respeito pelo sagrado é algo que a cultura não pode pôr em questão, mesmo em nome da liberdade". Quando a maior parte dos intelectuais defendia que a liberdade de expressão é sagrada, a igreja católica veio pôr as coisas nos seus termos: nem pensar; o sagrado é que é sagrado.


Vemos pois que Ratzinger não defendeu a liberdade de expressão dos caricaturistas. Porém, tal não é razão para lhe fazer o mesmo seis meses depois. A ética da liberdade de expressão implica que ela valha tanto ou mesmo mais para as opiniões de que discordamos e até para aqueles que a combatem.

Devemos ainda notar a coerência de Ratzinger no seguinte: efectivamente, os dois episódios começam, mas não terminam, pela liberdade de expressão. Se um rei de Espanha afirmar que os catalães são uns grandes chatos, se um ministro da saúde fizer declarações alarmistas que lancem o pânico entre a população, se um líder político ou religioso lançar gasolina para o fogo num ambiente de "choque de civilizações", a questão não é tanto a de saber se eles têm direito à liberdade de expressão (a resposta é sim) mas muito mais a de saber se estão a fazer bem o seu trabalho. E aí a resposta é não, como o próprio Vaticano implicitamente admitiu nos seus pedidos de desculpas.

Mas aquela citação que o Vaticano tratou como infeliz não teve apenas o efeito imprevisto de levar os fundamentalistas à violência (se é que isso se pode chamar imprevisto). Serviu também para fazer de Ratzinger um herói dos neo-conservadores, que andavam tristes com o Vaticano desde que João Paulo II denunciou a Guerra do Iraque. Mas basta um aparente ataque ao Islão para se esquecerem as desavenças passadas: o Público de passada quinta-feira trouxe dois textos que são um bom exemplo disto. No primeiro deles, Pacheco Pereira dá novo significado à expressão "ser mais papista que o papa", ao insistir que o discurso de Ratzinger seja lido da maneira que o Vaticano pediu expressamente que ele não fosse lido, ou seja, como uma interpelação ao Islão. No segundo, da autoria de Anne Applebaum, exige-se aos intelectuais que respondam ao monolitismo do Islão unindo-se todos em torno dos mesmos valores no Ocidente (um pouco monolítico demais, talvez?).

Há aqui muita precipitação. Em primeiro lugar, como vimos, o papa não é um mártir da liberdade de expressão e nem sequer um defensor da liberdade de expressão contra a religião. Além disso, se formos a ler o discurso propriamente dito (uma versão oficial em inglês, de que traduzo os excertos seguintes, está disponível em http://ruitavares.weblog.com.pt) veremos que Ratzinger tem mais problemas com os ocidentais modernos do que com os muçulmanos. O título, o tema principal e mais de metade do texto dedica-se a demonstrar a insuficiência da modernidade na sua versão ocidental, e muito particularmente a denunciar a liberdade do pensamento científico.

A referência ao Islão foi só um momento num processo de exclusão de partes que ocupa o início do discurso. O procedimento é, grosso modo, assim: o Islão não serve, porque é só fé sem razão; o judaísmo (pressupõe-se), porque não é a revelação completa; o protestantismo tampouco, porque é "sola scriptura", sem tradição da Igreja para a interpretar. Das outras religiões nem se trata, porque o seu Deus (caso seja apenas um) não é aquele que falou a Moisés na sarça ardente. A única mistura segura de razão e fé, como a fórmula secreta de um refrigerante, está patenteada pela Santa Madre Igreja: escritura, razão e tradição, nas proporções indicadas em cada caso. Nada disto é novidade: o Papa é católico e a sua doutrina é esta.

Mas Ratzinger não está sequer principalmente preocupado com as outras religiões. Aquilo que o preocupa é o que chama de "terceira fase da des-helenização" e que, num subterfúgio de retórica um tanto manhoso, Ratzinger trata por "cientismo" mas a todo o passo identifica com a modernidade científica e o racionalismo. A tal ponto que Ratzinger chega a justificar-se dizendo que a sua “crítica da razão moderna... não tem nada a ver com atrasar o relógio até antes do Iluminismo e rejeitar as concepções da era moderna”.

Se não era disso então que se tratava, pode dizer-se que o autor do discurso o imitou de forma quase perfeita. Àquilo a que se chama, desde a revolução científica, de autonomia da razão, Ratzinger trata como uma prisão: “temos de superar a auto-imposta limitação da razão ao que é empiricamente verificável”. A razão, liberta do empiricamente verificável e coberta de fé, torna-se de facto numa coisa maravilhosa! É, por exemplo, aquilo que resulta na condenação do preservativo em plena pandemia de SIDA. Mas isto não quer dizer que a ciência, segundo Ratzinger, seja má. Pelo contrário: “O ethos científico, acima de tudo, está na vontade de obedecer à verdade, e, enquanto tal, corporiza uma atitude que reflecte um dos postulados básicos do Cristianismo”. Esta técnica já Ratzinger utilizou num seu outro discurso polémico, em Auschwitz. Nesse o Holocausto era especialmente condenável porque os judeus estavam “na fonte do cristianismo”. Neste último, a ciência é boa porque obedece a um “postulado básico do cristianismo”. Ratzinger poderia simplesmente dizer que aquilo que é bom é certamente cristão, e que o que não é cristão (e, já agora, católico) é certamente de desconfiar. Seria mais fácil, embora um pouco indigno do brilhante intelecto que se diz possuir.

O papa pode afinal cometer erros, pode até já ser forçado a reconhecê-los, mas numa coisa acertou em cheio: no imperador que escolheu citar, da dinastia dos Paleólogos. Paleólogo, traduzível como "o do conhecimento antigo", "da razão antiga" ou da “verdade velha”, poderia quase ser uma definição do próprio Ratzinger, desde o seu gosto por chapéus antigos e imperadores bizantinos até ao cerne da sua filosofia. Independente das excitações dos bushistas, o conservadorismo de Ratzinger não tem nada de “neo”. Paleólogo é o título que lhe assenta como uma luva.

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