A menina da selva
[do Público de 16 setembro 2006]
Tal como os meninos da selva aprenderam a linguagem dos animais, Natascha aprendeu a linguagem dos media. É como se tivesse fugido da sua masmorra pelo écran da televisão.
Temos um fascínio antigo e mitológico pelas histórias de meninos da selva. Vem desde antes da fundação de Roma, da lenda de Rómulo e Remo, criados por uma loba nas margens do Tibre. Nasce das dúvidas que temos sobre nós mesmos e sobre as origens daquilo que em nós é humano. Por outros palavras, da velha questão sobre o inato e o adquirido. Por isso nos interessamos tanto pelas pessoas que não sociabilizaram, julgando que elas nos darão pistas para os nossos enigmas mais irresolúveis.
Diz-se, por exemplo, que o faraó Psamético I ordenou a um pastor que criasse dois meninos sem lhes dirigir a palavra, na esperança de assim vir a descobrir qual teria sido a primeira língua da humanidade. Essa história intrigou filósofos e escritores, desde Platão a Paul Auster, que no seu romance A Cidade de Vidro inventa uma personagem cujo pai tentou repetir nela a experiência de Psamético I, não a ensinando a falar.
Mas há um problema. Segundo as lendas, os meninos da selva — de Rómulo fundador de Roma ao Segismundo de Calderón de la Barca, tão habituado à sua masmorra que julga que a vida cá fora é um sonho — possuem qualidades superiores de inteligência, força e liderança. Na triste realidade, os casos de crianças abandonadas em galinheiros e pocilgas, ou encontradas junto de matilhas de lobos e cães selvagens, revelam gravíssimos problemas de crescimento, doenças e malformações várias, e — sobretudo — incapacidade de adquirir linguagem. A centelha de humanidade que cada um traz consigo não basta; ela só germina através da sociabilização.
Creio que este fascínio ajuda a explicar as razões que levaram tanta gente a assistir à entrevista de Natascha Kampusch, a jovem que foi sequestrada e ficou encerrada dos dez aos dezoito anos numa masmorra (falo por mim: evitei deliberadamente assistir mas acabei por sucumbir a uma repetição do programa). O interesse pelo caso nasce, em primeiro lugar, da preocupação real pelos traumas dos abusos sexuais, uma apreensão recente que por vezes sucumbe à morbidez e ao sensacionalismo, mas que é correcta na sua essência. Mas em segundo plano, estou convencido que havia muita curiosidade por saber como seria uma pessoa que passou os seus anos de formação afastada da sociedade, e cujo único contacto com o mundo se dava pelos jornais, a rádio e a televisão.
O que vimos surpreendeu a todos. Mas principalmente o que ouvimos: a linguagem de Natascha era bizarramente televisiva, com uma qualidade acima da média. A sua amplitude lexical era notável e nela cabia até uma preocupação rara pelos seus próprios limites: hesitando sobre se deveria chamar “masmorra” ou “quarto” ao lugar onde passou oito anos, queixou-se de que “a língua alemã não dá muitas alternativas”. Tal como os meninos da selva aprenderam a linguagem dos animais, Natascha aprendeu a linguagem dos media.
Mas ao mesmo tempo que revelava um domínio incomum das palavras, aquilo que dizia com elas não andava muito longe das trivialidades dos reality shows: Natascha falou da sua força interior, da vontade de ser actriz, de um contrato com Hollywood que “ainda não chegou”. Natascha não socializou durante oito anos mas é, por assim dizer, uma sobre-aculturada no mundo dos media. É como se tivesse fugido da sua masmorra através do écran de televisão.
Tão ou mais inquietante do que a entrevista é um artigo da revista Der Spiegel (disponível na versão inglesa em aqui), que revela que em torno de Natascha já se juntou o equivalente a uma pequena empresa, não só de médicos e psicólogos, mas de advogados, assessores de imprensa e consultores de media. Dietmar Ecker, o seu consultor de media, admite candidamente que “do ponto de vista puramente capitalista, esta mulher é uma mina de ouro”, embora acrescente — tarde demais —, “claro que estas coisas não se devem dizer em voz alta”. Foi ele que preparou a entrevista e corrigiu a percepção inicial de que Natascha não gostaria da mãe. Uma coisa dessas não é agradável para o público, e depois da entrevista, o público tem de gostar de Natascha: “as velhinhas vão chorar e o povo vai amá-la”.
Por mais irritante que o consultor de media seja, ele tem consciência aguda das regras da cultura das celebridades. E embora pelas razões mais tristes, Natascha tornou-se uma celebridade (o seu consultor rectifica: “uma estrela”). Ele limita-se a geri-la enquanto tal.
Ora, uma das coisas que a cultura das celebridades sempre teve é que não é preciso fazer coisas, como cantar ou escrever livros, para se ser famoso. Também há outra gente, mais famosa ainda, apenas porque as coisas lhes aconteceram a eles (nomeadamente, aparecer na TV e nas revistas ou outrora ter nascido nobre) sem nunca terem feito nada para que coisas acontecessem (como descobertas científicas ou revoluções democráticas). O teatro trata estes dois tipos de personagem pelos seus nomes em íidiche: são eles Schlemiel (aquele que faz acontecer coisas) e Schlemaziel (aquele a quem as coisas acontecem). Uma celebridade dos reality show é apenas um Schlemaziel e por isso tem um problema: torna-se cansativa e é rapidamente descartável pelo público que perde o interesse nela (daí o frenesi com que as figuras das revistas procuram que lhes aconteçam mais e mais coisas: gravidezes, divórcios, amantes).
Natascha está farta de que lhe aconteçam coisas e preparou-se longamente para inverter a situação. Hoje não quer mais ser vítima; está sedenta de agência. A fuga foi só o primeiro passo. Ela deseja ardentemente passar de Schlemaziel a Schlemiel, ou seja, fazer as coisas acontecer pelas suas mãos: estudar, criar fundações, ajudar outras mulheres.
Ninguém lhe levará a mal se não conseguir tudo isso. Afinal de contas, todos vivemos num corrente indistinta em que nem sempre sabemos bem o que fazemos porque queremos e o que nos acontece porque calhou. Acima de tudo, desconfiamos que o empurrão dos media é efémero. A atenção do público desviar-se-á para outros assuntos, a sobre-vigilância das revistas começará a mostrar o seu lado negativo e até os consultores se começarão a interessar por outros clientes com mais potencial. No final, talvez isso venha a ser finalmente o começo de uma vida mais ou menos normal. E uma vida normal, sabemo-lo bem, é uma coisa cheia de frustrações e desilusões mas — e isto é o mais importante — vivida em liberdade.
Comments
OTIMO
Posted by: BEATRIZ | março 4, 2008 05:13 PM