11 de Setembro e os media
[do Público de 9 Setembro 2006]
As redes fechadas, civis ou militares, que transportam informação exclusiva, e que serviam para fazê-lo de forma mais rápida e menos adulterada, já não são superiores ao cúmulo de redes civis mais ou menos abertas.
Há cerca de dois meses, a revista americana Vanity Fair publicou as transcrições do que se disse na secção regional Nordeste do Comando de Defesa do Espaço Aéreo Norte-Americano (NORAD, na sigla original) durante a manhã de 11 de Setembro. Na versão para internet, que está disponível em http://tinyurl.com/rc2dn, o utilizador pode clicar para ouvir as gravações do que foi dito na sala de comando e ainda os sucessivos telefonemas que foram sendo feitos para as autoridades civis e militares à medida que os ataques se iam sucedendo. A versão completa com áudio é, sem dúvida, muito superior. Os militares que tinham por missão proteger cidades como Nova Iorque, Chicago, Boston e Washington — e muitos deles, quando entraram para aquele serviço, eram treinados para uma guerra com a União Soviética — recebem os primeiros sinais de que algo se está a passar, trocam impressões, ficam confusos, entram em pânico, dizem palavrões, chegam a rir-se de nervoso, perguntam ao superior se aquilo é um teste, gritam ao telefone e, em geral, não conseguem acreditar no que está a acontecer e, de repente, já aconteceu. Este é o mundo pré-11 de Setembro. Mesmo logo a seguir aos ataques, ainda não tinha ganho a sua categoria histórica e a sua nomenclatura oficial.
Ambas as coisas chegariam, como nos lembramos, muito rapidamente — na tarde e noite do próprio dia e, claramente, na manhã do dia seguinte ao ler os jornais. Mas essa sensação de historicidade, que então nos ajudou a digerir aquilo, é hoje uma carapaça por cima das sensações efectivamente vividas no momento. Num acontecimento tão saturado por imagens, o áudio dá-nos acesso a essa porta da memória, revelando-nos coisas surpreendentes. E a mais surpreendente delas todas, pelo menos para mim, foi perceber que aquele comando militar se deu conta das coisas praticamente ao mesmo tempo que todos nós, e às vezes mais tarde.
De forma recorrente nos ficheiros áudio, os militares dizem uns para os outros: “olhem para os nossos gajos, não olhem para a TV”, chamando a atenção para a informação das redes internas que cruzavam radares, rotas e simulações. Mas inevitavelmente o olhar deles fugia para os televisores que davam as mesmas imagens que nós víamos. E foi assim que, ainda mal se tinham dado conta do desvio do segundo avião e já ele se despenhava contra a torre Sul do World Trade Center. Souberam pelas mesmas imagens que nós vimos e, tal como nós, não perceberam logo se era mesmo um segundo avião ou se era apenas uma repetição vídeo do primeiro ataque. E mesmo aí, há um que acrescenta: “para ser honesto, acho que isto é o raio de um exercício”.
Que quer isto dizer? Que as redes fechadas, civis ou militares, que transportam informação exclusiva, e que serviam para fazê-lo de forma mais rápida e menos adulterada, já não são superiores ao cúmulo de redes civis mais ou menos abertas. Na verdade, podem ser significativamente mais lentas, mais incertas e infiáveis do que todas as nossas redes de telemóveis, internet, rádio e televisão empilhadas umas em cima das outras como panquecas, sobrepondo-se aqui ou acolá, cada uma compensando as deficiências das outras, e sem tapar o lugar à chegada de novas. No “meu” 11 de Setembro fui, com uma colega e amiga, visitar um casal de professores. Ao chegar ao estacionamento ouvi na rádio a notícia do primeiro embate. Entrámos no edifício, apanhámos o elevador, e quando chegámos lá acima vimos o segundo ataque em directo. Isto foi uns bons minutos antes de Bush ser informado e praticamente meia hora antes de ele conseguir computar a informação. Hoje sei da maior parte das novidades pela internet, e quase sempre antes do telejornal — a conclusão é a mesma.
O 11 de Setembro coloca muitas questões à nossa cultura mediática, muitas mais do que é possível enunciar no espaço de que disponho. Uma das que mais me impressionou desde o início (sem muito conseguir saber o que pensar dela) é a semelhança entre o carácter visual dos ataques e a estética do filme de acção. A única coisa de que eu tenho a certeza que aqueles terroristas consumiram, além de terem lido muito (demasiado?) o Corão, é terem visto muito (demasiado?) cinema americano. Essa terá sido uma influência maior do Ocidente nas suas vidas do que eles alguma vez admitiriam. Sabemos todos como muita gente, ao ver o ataque na TV com o som desligado, ficou convencida de que estava a ver um velho filme de Hollywood. Mais revelador foi ter descoberto, no último número da New York Review of Books, que pelo menos uma pessoa que viu o primeiro ataque do outro lado da rua e ao vivo (o crítico literário Daniel Mendelsohn) pensou que estava a assistir à rodagem de um filme in loco e se perguntou por que não usavam efeitos especiais para reproduzir a cena.
Outra questão é aquela com que começámos: como a natureza incremental, sobreposta e confusa das “nossas” redes de media corre mais e dribla melhor do que a informação das redes oficiais. Isto foi patente nos ataques do 11 de Março em Madrid e na rapidez da resposta por SMS às tentativas de manipulação do governo Aznar. Mas não devemos ceder à complacência. Por um lado, essas nossas redes são inseguras, mesmo as supostamente privadas, e não há muito que os defensores dos direitos civis tenham conseguido fazer contra isso (ou que o cidadão comum se preocupe). Por outro lado, ter informação é bom mas não significa conseguir fazer qualquer coisa com ela: o próprio Bush foi informado das intenções da Al’Qaeda com muita antecedência e por desleixo, incompetência, cegueira ideológica ou qualquer outra razão não soube agir. Finalmente, há coisas para as quais a nossa opinião, mesmo maioritária, conta pouco ou conta demasiado tarde, como foi o caso da Guerra do Iraque.
Mas uma coisa é certa: não é o paternalismo do Estado que conseguirá guiar-nos por esta confusão de media sobrepostos. Cada um terá de orientar-se sozinho, e este trabalho exige inteligência, paciência e doses iguais de cooperação e competência. Essa é a única boa notícia dos últimos cinco anos.