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agosto 29, 2006

Transistor

[Já saiu a Blitz #3. De Svengali, a minha coluna, no número anterior:]

Aqui há uns anos, um rádio de pilhas bastava. Era de noite. Varrendo o breu enquanto se rodava o botão, reproduziam-se ruídos desconformes, guinchos que glissavam até implodir num grave, estalidos e chuva estática como grilos e cigarras eléctricas. Oscilando o sintonizador para trás e para diante, ritmicamente, fazia-se uma música particular. Em todo o mundo, crianças sem sono ligavam o rádio baixinho debaixo dos cobertores e ficavam magnetizadas. Às vezes dava-lhes medo: de onde vinham aqueles barulhos? seria de outro planeta? que desejavam eles? estariam para invadir-nos?

Seria errado dizer que o rádio iluminava a noite, mas antes que se infiltrava pela escuridão encontrando pequenos clarões de sons compreensíveis, retraindo momentaneamente o vasto ignoto, como um par de faróis num carro solitário. Passavam programas para camionistas acordados na estrada. O rádio de onda média apanhava estações espanholas com flamenco, relatos de touradas, noticiários. Espanha: havia um lugar chamado fronteira e depois dela as pessoas falavam outra língua — todas! — das crianças aos velhos. Mas havia mais. Havia Marrocos. Com sorte, nas noites favoráveis, encontrava-se uma daquelas estações com sumptuosa música oriental sinfónica, instrumentos de arco sinuosos, descendo e subindo languidamente as escalas. Depois um locutor interrompia a emissão para dizer umas palavras em árabe, não sei se eu já sabia que havia uma língua chamada assim, aquelas articulações guturais e vogais bruscamente interrompidas, uma espécie de regato brotando e dimanando por uma paisagem seca e acidentada. Mas às vezes — e isto era completamente diferente — ouvia-se falar a mesma língua por uma voz velosa de mulher, balsâmica e sedante, antes de entrar na noite sem estrelas com mais uma daquelas orquestras douradas. Eu adormecia.

Marrocos era um reino. O rei chamava-se Hassan II. Tinha cidades chamadas Casablanca, Fez, Tânger. Isso vinha na enciclopédia em três volumes, comprada às prestações. O atlas universal tinha as bandeiras de todos os países do mundo; alguém tinha assinalado com um pontinho os países comunistas e com um traço os países capitalistas, para fazer as contas à guerra fria e às medalhas nos jogos olímpicos.

A televisão foi muito tempo a preto e branco e, seja como for, tinha só dois canais. Tinha horário: começava ao fim da tarde e desligava-se depois do hino nacional. Eu às vezes implorava-lhe que me desse mais qualquer coisa; carregava em todos os botões e percorria UHF acima e VHF abaixo nessa vã busca de um surpresa. Uma noite, com todos já deitados, consegui apanhar a Radiotelevisión Española, por detrás de uma névoa de pontinhos brancos. Não voltou a aparecer.
Não havia comparação possível com a telefonia. Em casa de não sei qual tia havia uma enorme, com nomes de cidades dispersos pelo mostrador. Aquilo sim era o mundo: Johannesburg – Cairo – Leningrad. De regresso a casa no automóvel, pela Estrada Nacional nº 1, eu encostava a cabeça ao vidro do carro e via as luzes ao longe. O que eu via nem sempre eram cidades mas terreolas somente.

E cada uma daquelas tremeluzindo na distância devia ser como essas cidades do mostrador da telefonia. Cada uma delas deveria cintilar contra o negrume à força da luz eléctrica, e certamente com várias vezes mais força do que Castanheira do Ribatejo ou Vila Nova da Rainha. Algumas delas teriam forçosamente de ser clarões enormes, estelares, belos quando vistos de cima com fieiras infindas de candeeiros nas ruas como gotículas de humidade numa teia de aranha. Essas cidades teriam prédios grandes e elevadores com muitos botões; e desses prédios grandes sairia gente para entrar nos automóveis; essa gente seria também ela grande, homens adultos com chapéus e sobretudos, mulheres com casacos de peles e os lábios pintados. E por vezes famílias inteiras, com cães de estimação.

E a questão então era a seguinte: poderia numa dessas famílias acabadas de entrar agora para o seu automóvel ir um miúdo com a testa encostada ao vidro embaciado de vapor, e poderia esse miúdo estar a pensar em cidades grandes do outro lado do mundo? E poderia ele imaginar a hipótese de numa dessas cidades haver um miúdo como ele? Quem seria esse miúdo que ele imaginava existir — conseguiria descobrir que era eu mesmo? — ou inventaria um terceiro? E se havia um terceiro porque não haveria um quarto? A propósito: um em cada quatro humanos era chinês. Poderia então haver um outro rapaz igualzinho a mim na China, um irmão gémeo de mim mas em chinês, e teria ele consciência da possibilidade da minha existência? E se em vez de um miúdo fosse uma miúda, quer dizer: não poderia antes acontecer que do outro lado do mundo eu fosse o meu exacto oposto de tudo quanto eu aqui era? Teria eu essa irmã chinesa do outro lado do mundo? Estaria ela a pensar no mesmo que eu neste preciso momento? Viria eu a conhecê-la? E se sim — agora é levemente embaraçoso — poderíamos vir a casar?

Tenho hoje a certeza que muitas crianças estavam ao mesmo tempo perguntando-se as mesmas coisas, e se não eram exactamente as mesmíssimas, a verdade é que talvez sempre se tenham feito perguntas que não são em si muito diferentes destas. O que me intriga agora é saber quantos desses meus companheiros e companheiras se lembram de um dia as terem feito. O que farão eles agora? Terão certamente morrido alguns; e quantos dos sobreviventes terão já tido filhos? Quais desses filhos já se terão perguntado as mesmas coisas? Quantos serão na proporção total das crianças de olhos esbugalhados?

Quando penso que bastava um rádio de pilhas para tudo isto, vejo que tão certo como ter tido um irmão gémeo chinês, é termos ambos tido um irmão mais velho no Japão. Porque foi lá que começaram a substituir-se as rádios antigas dos velhos tubos de vácuo por novíssimas, agora de transístores, e por um momento conhecidas apenas por esse nome. Os transístores aguentavam-se bem com baterias apenas. Eram pequenos e poupados, passado pouco tempo começaram também a ser baratos, e não deixariam nunca mais de se tornar cada vez mais baratos e pequenos e poupados.

Hoje imprimimo-los aos milhões em cada bolacha de silicone dos circuitos integrados, junto com díodos e condensadores e resistências. Vistos de cima parecem cidades carregadas de prédios e casas e estradas paralelas, como as nossas cidades que cresceram juntando os tentáculos umas às outras, futuramente envolvendo o mundo inteiro, perpetuamente acesas num dia constante.

agosto 28, 2006

Como se pode ser Persa

[do Público de 26 de Agosto]

A ingénua francesinha não achava natural que houvesse mundo para lá dos salões da Tulherias ou de Versalhes, e também parece hoje a muitos impossível que se possa ser outra coisa que não ocidental.

Foi para desenjoar das maçadas que lhe dava o seu cargo no parlamento-tribunal de Bordéus que o jovem barão de Montesquieu começou a escrever às escondidas um divertimento literário. Imaginou primeiro um romance de tons exóticos, de preferência orientais, embrulhando nas entrelinhas uma sátira local, de preferência anti-parisiense. Chamou-lhe As Cartas Persas. Mas ao escrevê-lo acabou por descobrir uma fórmula de tal sucesso que durante o resto do século XVIII ninguém se cansou de o imitar: um romance epistolar que tinha uma mistura, em partes quase iguais, de filosofia e erotismo. A Europa cristã estava sedenta de ambas as coisas e quando o livro saiu, em 1721, o sucesso e o escândalo vieram também em doses iguais. Uma das personagens tinha o descaramento de escrever nas suas cartas que a Europa tinha um “grande mágico chamado Papa que faz crer às pessoas que três são apenas um, que o pão que se come não é realmente pão, e que o vinho não é realmente vinho”. Perante os protestos dos católicos, Montesquieu justificou-se dizendo que se as suas personagens eram persas, forçoso era que pensassem como persas e não como cristãos. Ora se os cristãos chamavam feiticeiros aos aiatolas, não seria provável que fizessem coisa semelhante os persas? A resposta dava-a uma personagem do próprio romance, uma jovem francesa encontrada na Ópera ou num dos palácios reais: “Ai, senhor, que coisa mais extraordinária! Como se pode ser persa?”

Avancemos quase trezentos anos e veremos que, nos nossos dias, há gente que ainda não percebeu como se pode ser persa. A ingénua francesinha não achava natural que houvesse mundo para lá dos salões da Tulherias ou de Versalhes, e também parece hoje a muitos impossível que se possa ser outra coisa que não ocidental. Por sua vez, do outro lado há também gente a quem parece impossível que se possa ser — venha o diabo e escolha — judeu, ateu, ou até as duas coisas juntas. Isto surpreenderia pouco Montesquieu, cujo romance só não é hoje tratado de relativista, multiculturalista e outras coisas hediondas porque Montesquieu também escreveu, vinte anos depois, esse texto fundador da modernidade política que é O Espírito das Leis — e a alguns convém pouco lembrar que a cabeça de onde saiu a separação dos poderes é a mesma de onde se imaginou que os persas pensassem e agissem à sua maneira.

Porém, saber como se pode ser persa vai ser a grande questão dos próximos meses ou anos. Os Persas de Montesquieu e de tantos séculos antes são agora Iranianos (Irão é o nome que sempre deram ao seu país) e as suas raízes podem ser seguidas até aos Medos que há mais de 2500 anos eram os grandes rivais dos Gregos. Muitos iranianos pensarão aliás que pelo simples facto de poderem ser considerados parte de uma grande civilização têm direito a ser também uma potência regional e a tudo o que isso implica — nomeadamente ter armas nucleares. Outros olharão simplesmente em volta e chegarão à conclusão de que muitos dos seus vizinhos já têm essas armas: a Índia, o Paquistão, Israel, a Rússia, a China e os Estados Unidos (em submarinos e bases na região). Se eles têm, porque não nós? — eis como é possível que pense uma maioria de persas.

Os restantes de nós poderiam responder que não, por esta simples razão: depois, todos quererão o mesmo. Se o Irão tiver armas nucleares, é mais do que natural que os seus grandes rivais da Turquia as queiram ter. E se os Turcos as tiverem, os Árabes (do Egipto, da Arábia Saudita, ou de outro lugar) também não passarão sem elas. Aquilo de que menos precisamos é de um Médio Oriente com inimizades mortais e armas nucleares por todo o lado. E não só no Médio Oriente: a Argentina anunciou esta semana que deseja enriquecer urânio (para fins pacíficos). Como pode a Argentina fazê-lo sem que o Brasil volte a ter planos de conseguir um arsenal nuclear? Poderíamos ainda lembrar aos iranianos que foi precisamente para impedir este efeito de escalada que eles assinaram, juntamente com quase todos os estados do mundo, o Tratado de Não-Proliferação Nuclear [TPN].

Mas se formos Montesquieu por um momento e nos metermos na cabeça de um persa, de preferência um dos que está no poder, rapidamente chegaremos à conclusão de que três dos nossos vizinhos (o Paquistão, a Índia e Israel) têm armas nucleares e não assinaram o TPN. Lembraremos que os EUA invadiram os dois países com quem temos fronteiras mais extensas (o Afeganistão e o Iraque), que praticamente nos têm cercados e que nunca esconderam que nos querem derrubar. Olhando para o lado, veremos que mais vale ter armas e não ser invadido (como a Coreia do Norte) do que não tê-las e ser invadido à mesma (como o Iraque). E mais: rapidamente veremos que estamos na mó de cima. Se houver sanções económicas, o custo do petróleo subirá tanto que os outros sofrerão mais do que nós. Se nos atacarem, poderemos sempre retaliar no Iraque através da maioria xíita e no Norte de Israel através do Hizbollah. Para já, basta-nos ir dando para fora sinais equívocos e contraditórios. Os nossos rivais enfraqueceram-se com os seus próprios erros e fortaleceram-nos no nosso país; terão agora coragem para cobrir a aposta e bombardear, por exemplo, a Isfahan de onde saíram as personagens das Cartas Persas e onde agora vivem mais de dois milhões de seres humanos próximo de uma central nuclear?

Pensando em algo como isto, Montesquieu respondeu impecavelmente, dizendo que se soubesse de uma arma terrível para os inimigos do seu país não revelaria o segredo ao seu rei, “porque sou Homem antes de ser francês, e sou forçosamente Homem e francês apenas por acaso”. Infelizmente, a maior parte dos outros humanos não acha o mesmo, sejam eles Persas ou Americanos.

agosto 22, 2006

A Senhora da Agonia

Provavelmente para demonstrar que não é um engraçadinho, Pacheco Pereira verbera o que chama de derrotismo:

«Lendo a imprensa impressiona como é cada vez mais forte o derrotismo puro, em versões brutas ou sofisticadas, mas derrotismo [...] mil e uma variantes do better red than dead circulam por aí. A forma mais peculiar do derrotismo é a de achar que tudo está mal, mas também não há nenhuma receita para ficar bem. Os que agem (EUA, Reino Unido, Israel) fazem tudo mal e só agravam o problema; os que não agem (França. UE, “comunidade internacional”, ONU) fazem também tudo mal porque não agem. Bem faz o Irão, o Hezbollah, a Al Qaida, o Hamas, e, numa versão mais caseira, os émulos de Zapatero.

Isto vai durar sempre? As minhas últimas reservas de optimismo alimentam debilmente a esperança de que não, em grande parte por um argumento ad terrorem: as coisas ainda vão piorar muito, muito mesmo, e pode ser que a catástrofe possa ser salvadora. Não é garantido, mas é uma esperança.»

O tom apocalíptico, por certo, não espantará ninguém: o forte de Pacheco Pereira está precisamente em ser uma Nossa Senhora da Agonia com barbas. Mais curioso é ver que aqueles a quem Pacheco Pereira chama derrotistas sejam, numa análise mais cuidada, os que não quiseram a guerra do Iraque nem acharam que ela tivesse algo que ver com o terrorismo, ou seja, derrotistas são precisamente os que não foram derrotados.

O que chega a dar um arrepio na espinha é a forma como Pacheco Pereira literalmente põe as suas esperanças em novo terror, muito terror, para que todos vejam como tem razão e se juntem a ele na ressaca de uma "catástrofe salvadora". Ter-se-á dado conta do que escreveu? Assim de memória, não me lembro de ver maior confissão de insegurança (e derrota) do que alguém depositar as suas "últimas reservas de optimismo" na esperança de que bin Laden lhe proporcione uma tragédia que lhe salve os argumentos.

agosto 21, 2006

A nossa melhor proposta

Todos teriam de trocar as bombas pelos fastidiosos dossiês de Bruxelas: uma forma de resolução de problemas (e às vezes não-resolução) que dá mais dores de cabeça mas menos mortos inocentes.

Mais uma crise internacional, mais uma ocasião para lastimar a falta de influência da Europa. Felizmente, a desunião europeia impediu o grande disparate que seria o envio de uma força da União para o Sul do Líbano, onde ficaria imediatamente presa numa armadilha: se confrontasse o Hezbollah, seria tratada como ocupante; se não o confrontasse, seria tratada como cúmplice. Mal por mal, antes mandar soldados sob a égide da ONU, que está mais habituada a estas missões ingratas. A União Europeia, enquanto tal, deve preservar-se. Na altura certa, terá uma cartada melhor para jogar: convidar Israel, o Líbano e o futuro estado da Palestina a tornarem-se membros de pleno direito da União.

Se estou louco? Talvez, mas tenho impressão que a ideia não é minha: a própria UE tem uma parceria com toda a região do Mediterrâneo (o Processo de Barcelona) e já se tem falado em oferecer um estatuto de associado a Israel e ao futuro estado da Palestina. A única novidade aqui seria subir a fasquia em termos de estatuto e meter o Líbano na jogada.

Vamos às objecções: é verdade que estes três países não pertencem ao continente europeu. Mas tampouco o Chipre se qualifica — como “continente” ou como “europeu” — e já é membro. Mário Soares e Adriano Moreira propuseram Cabo Verde, que fica mais longe. Timothy Garton Ash sugeriu o Canadá, enorme e longíssimo. Pouca gente sabe que a UE têm até um território na América do Sul; no entanto, se pegar numa nota de euro e a observar da esquerda para a direita, ele é logo o primeiro do mapa: a Guiana Francesa. Poderia dizer-lhe que a distância entre Bruxelas e Caiena, a sua capital, é mais do dobro da distância entre Bruxelas e Jerusalém. Mas mesmo isto seria enganoso. Na verdade, Beirute está a apenas 250 quilómetros da mais próxima capital da União (Nicósia no Chipre). Menos do que entre Lisboa e o Porto. Israel, o Líbano e a Palestina já estão nas nossas fronteiras.

Em termos de população e território, já vimos adesões mais difíceis. Juntos, os três países têm menos de metade do tamanho de Portugal e apenas mais metade da população: não chegam aos quinze milhões. A Roménia, que vai entrar em 2007, é maior e mais populosa.

Em paz, os três países têm boas possibilidades de desenvolvimento. Aliás, Israel já é um país desenvolvido e uma economia moderna (maior parceiro comercial: a União Europeia). O PIB/per capita é maior que o português (23 mil dólares contra 19 mil); os israelitas até se arriscariam a ser contribuintes líquidos da União. O Líbano tem um PIB/per capita baixo (cerca de 5 mil dólares), com enormes desigualdades na distribuição da riqueza, mas boas perspectivas no turismo, se houver paz. A Palestina é o caso mais bicudo dos três, mas iria certamente beneficiar do descongestionamento da região e do afluxo de subsídios europeus (nomeadamente para a construção de infra-estruturas, incluindo as ligações entre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia que permitiriam pôr todo o país em contacto e tornar o novo estado viável).

O que teriam estes três países a ganhar? O Líbano, um contra-peso aos pesos-pesados que o invadem e ocupam sempre que lhes apetece, como Israel e a Síria. Os palestinianos, um estado independente e dinheiro para o tornar viável. E Israel? Israel não pode continuar a ter apenas um amigo no mundo. Se numa geração os EUA (pressionados pelo petróleo ou por qualquer outro factor que hoje não prevemos) mudarem a sua relação estratégica na região, Israel ficará só perante os seus inimigos. Mas se Israel pertencer à União dará aos europeus o dever de protegerem o estado judaico, com quem têm irrevogáveis responsabilidades históricas.

Para poderem lá chegar, porém, estes candidatos à adesão teriam uma missão muito séria. Só para começar: fixar definitivamente as suas fronteiras, nas linhas do que os acordos internacionais já prenunciam (Jerusalém não ficaria sob jurisdição europeia mas internacional; ali se situariam as capitais de Israel e Palestina e provavelmente alguns serviços comunitários). E antes de poderem entrar teriam de aprovar legislação e ter uma prática condizente com os padrões europeus em questões de direitos humanos, liberdade de expressão, separação entre estado e religião, tratamento das minorias e das mulheres. Os partidos não poderiam ter milícias armadas; a violência do estado teria de ser legitima e proporcional.

Em resumo, todos teriam de trocar as bombas pelos fastidiosos dossiês de Bruxelas: uma forma de resolução de problemas (e às vezes não-resolução) que dá mais dores de cabeça mas menos mortos inocentes. Teriam de resolver os seus diferendos de recursos naturais, nomeadamente de águas, nas instâncias comunitárias. Em vez de disputar soberania a três iriam partilhá-la a trinta. Em troca teriam os seus emigrantes de luxo no Parlamento Europeu, um mercado alargado e, se desejassem, o euro. Não estariam em condições de segurança para entrar no espaço Shengen ou abolir as suas fronteiras internas? Paciência. Não há pressa.

Diz-se que os americanos são de Marte e os europeus são de Vénus. No entanto, há europeístas que defendem que a Europa só terá uma palavra a dizer a nível global quando investir na sua componente militar e falar a “uma só voz”. Ou seja, só poderá competir com os EUA imitando-os. Isso seria um erro tremendo. Pelo contrário, a UE tem sido uma experiência histórica inédita porque não é uma potência militar expansionista nem obriga todos a falar a uma só voz. Só entra quem quer e se esforça, e dá-se aos países pequenos e novos membros uma hipótese de navegar na sua indolente confusão institucional.

Já vimos onde nos levou Marte, o planeta da guerra, nos últimos anos; não sei se queremos ver onde nos pode ainda levar no futuro próximo. Se os americanos são duros e os europeus são moles, vamos dar uma chance à moleza. É absurdo? É impossível? É sim senhor — mas talvez menos do que esperar que o problema se resolva sozinho.

agosto 14, 2006

"Se queres julgar, compreende"

[do Público de 12 de Agosto]

Mas as crianças de quatro anos chegam aos cinco anos, e aí começam a exigir-nos mais: “eles são maus porquê, mãe?”

Cada ameaça de atentado terrorista dá aos políticos uma janela de oportunidade para tratar os cidadãos como crianças de quatro anos. Para ser rigoroso, o mesmo acontece nos atentados reais, mas nessas ocasiões estamos demasiado ocupados com a brutalidade daquilo tudo para prestarmos atenção à pincelada grossa com que os nossos líderes pintam a realidade do mundo. Mas numa ocasião em que felizmente não há vítimas a lamentar, sobressaem em toda a sua rudimentar trivialidade as declarações de Blair, despachando uma definição dos terroristas como pessoas com "mal nos corações" ou "com corações muito maus", e os afloramentos retóricos de Bush — esse magnífico simplificador — que esta semana andaram em torno disto: “detestam as nossas liberdades”, “querem destruir aqueles que amam a liberdade, magoar a nossa nação”, “este país está mais seguro do que antes do 11 de Setembro, mas obviamente não estamos completamente seguros porque ainda há gente que conspira e gente que nos quer magoar por causa daquilo em que acreditamos”. Com quem pensam eles que estão a falar?


Nós, cidadãos comuns que viajamos em aviões comerciais, já percebemos que há gente disposta a rebentar connosco. Sentimos medo e detestamos a ideia o bastante para poder pôr as coisas em termos semelhantes quando falarmos com os nossos filhos: “são homens maus, filha”. Mas as crianças de quatro anos chegam aos cinco anos, e aí começam a exigir-nos mais: “eles são maus porquê, mãe?” E nós, vendo chegar os cinco anos do 11 de Setembro 2001 sob a sombra de um atentado que poderia ter sido pior ainda, também começamos a exigir mais dos nossos líderes: que liberdades são essas que os homens maus detestam? será beber-se álcool, usar-se mini-saias, casarem os homossexuais em Espanha? matam-nos e matam-se apenas por isso, ou haverá mais qualquer coisa?

A partir deste ponto entramos em território perigoso. A qualquer momento poderemos incorrer na blasfémia de indagar sobre as causas do terrorismo. Sabemos o que acontece quando se sugere que é necessário tentar compreender o terrorismo. Mário Soares e Freitas do Amaral que o digam: os neo-conservadores não perdoam. Para eles, compreender o terrorismo é aceitá-lo. Pior: é apoiá-lo. É atirar todas as culpas para o Ocidente. Pior: é idolatrar Bin Laden e detestar o Ocidente.

Não importa que, seguindo a lógica neo-conservadora, o terrorismo se torne naquele grande mistério da filosofia que é o efeito sem causa. Para esses auto-proclamados defensores do Ocidente o essencial é condenar apenas e ficar por aí. No máximo, seguir o líder. Tudo o mais levar-nos-ia para uma via de depravação moral e política. Lamentavelmente para eles, isso vai contra a mais nobre tradição do pensamento, ocidental ou outro. Foi Séneca que nos ensinou: “se queres julgar, compreende”. E de resto, exigir que se condene sem julgar e se julgue sem compreender é chantagem que deixou de funcionar com a opinião pública nos últimos tempos.

Ousemos então ver o que se aprende com a conspiração que a polícia inglesa conseguiu desmantelar. Ficam algumas notas, de que a primeira é essa mesmo: foi a polícia que desmantelou a conspiração, aparentemente com apoio dos serviços secretos paquistaneses. A polícia, note-se, e não os exércitos no Iraque. Estes, pelo contrário, são parte do problema e não da solução, porque (e aqui repito-me em apenas uma semana) tratar o terrorismo como questão militar só ajuda a perpetuá-lo. É dar aos terroristas a guerra que os terroristas querem.

Excluindo a opção militar, contudo, há muitas maneiras de não ficar de braços cruzados, a começar pelo trabalho com as comunidades de onde saem os terroristas. O adivinhómetro de Vasco Pulido Valente diz-lhe que a ideia de uma “minoria extremista que a grande e virtuosa maioria muçulmana condena” não passa de uma “tese oficial”. Os dados das pessoas que efectivamente estudaram este assunto dizem que, por uma vez, a tese oficial acertou. Entre os paquistaneses que vivem em solo britânico apenas 1% aprovou os atentados do 7 de Julho, embora haja 13% que considera os terroristas “mártires” e quase 20% que simpatiza com os seus motivos. Quem sabe quantos destes virão dos 80% que se opõem à Guerra do Iraque? Provavelmente todos. Mas isto quer dizer que há até espaço para 20% que não discorda da Guerra do Iraque, o mesmo número dos que simpatizam com os motivos dos terroristas e vinte vezes mais do que os que concordam com os atentados [dados Populus e ICM, para o Times e o Telegraph].

Nestes diversos números há outras tantas oportunidades. Oportunidade de isolar os terroristas dos não-terroristas. Oportunidade de ter a colaboração dos segundos na detecção dos primeiros. Oportunidade de conseguir agentes infiltrados que falem não só árabe, mas farsi, pashtun e urdu. Construir pontes com as comunidades imigrantes não é somente, em geral, a coisa justa a fazer como em particular a mais esperta e eficiente.

É bom saber, pelo sucesso da polícia inglesa, que muitas destas coisas estão a ser feitas. Era este o programa consensual — à escala mundial — a seguir ao 11 de Setembro, que a arrogância e incompetência de alguns sequestrou para aventuras imperiais no Médio Oriente. O problema é que a questão não se resume ao mal absoluto de Bin Laden. Ele sozinho não explode aviões. A questão está nas milhentas razões de cada um dos homens que ele consegue recrutar, algumas das quais lhes foram dadas de mão beijada pelo nosso lado.

O resultado é que estamos hoje muito pior do que poderíamos estar; não criando mais terroristas, teríamos apenas de lidar com os que sobrassem. Se queres sobreviver, compreende.

agosto 07, 2006

Pataniscas

[do Público de 5 de Agosto Obrigado ao Pedro Vieira e ao Luís Aguiar-Conraria por terem ajudado a quebrar um galho recuperando a carta do leitor a que me refiro na terceira "patanisca".]

Para os neoconservadores e bushistas em geral, chegou o momento de reconhecer que possuem uma versão invertida do dom de Midas: tudo o que tocam vira escombros.


1. A Lista. A lista dos devedores ao fisco foi a solução que arranjou um antigo ministro das Finanças, Campos e Cunha, para não se quebrar o sigilo bancário. Quando foi publicada esta semana começou a cumprir aquela trajectória, tão portuguesa, que vai de não se querer incomodar alguns até não se contentar ninguém. Para já, contudo, parece haver grande satisfação pela exposição dos “caloteiros” — satisfação que eu não sinto nem quero acompanhar. Os caloteiros que podiam pagar fizeram-no antes da divulgação da lista; sobraram provavelmente os falidos e os acossados. Mesmo sabendo que esta artimanha permitiu fazer entrar nos cofres públicos dinheiro que era de nós todos, não posso ficar contente com a violação dos direitos daqueles indivíduos, nem com a correspondente degradação da comunidade em que eles se inserem.

A quebra do sigilo bancário não implicaria nada disto: quem tem dinheiro num banco já partilha esta informação com a instituição financeira, as suas filiais, os seus funcionários; passaria a partilhá-la também com um único serviço público e para um único fim restrito. As coisas ficariam entre o contribuinte, o seu banco e as finanças; não entre o contribuinte, o vizinho, o chefe lá do trabalho e os colegas dos filhos na escola.

A exposição dos nomes de prevaricadores tem uma triste história — por exemplo, nas listas de penitenciados dos autos-da-fé — e tristes são estes seus ecos modernos. Mais tristes ainda por serem a resposta inequívoca a esta pergunta: entre os direitos dos bancos e os dos cidadãos individuais, quais sacrificaram os nossos governantes eleitos em primeiro lugar?


2. O Toque de Midas. Esta semana soube-se que o embaixador britânico em Bagdad considera que o desfecho mais provável no Iraque é uma guerra civil, onde aliás já chegámos em baixa intensidade. Mesmo a versão revista em baixa das expectativas de Bush, “um governo que se consiga sustentar e defender o Iraque”, é menos provável do que a guerra civil. Ontem soubemos que dois dos principais generais americanos acham o mesmo.

Para os neoconservadores e bushistas em geral, chegou o momento de reconhecer que possuem uma versão invertida do dom de Midas: tudo o que tocam vira escombros. O Iraque está à beira do precipício, o Afeganistão não anda longe. Do Líbano, essa jóia do curriculum no Verão passado, pouco resta para dizer.

Se exceptuarmos Francis Fukuyama, que reconheceu os erros e se afastou do movimento, chega a ser indecorosa a forma como aqueles que defenderam a Guerra do Iraque continuam a pretender possuir uma espécie de monopólio sobre a realidade. Começaram a guerra por causa das armas de destruição em massa; continuaram-na para depor Saddam; depois para instaurar uma democracia liberal; a seguir para que os iraquianos se defendessem a si mesmos. Para consumo doméstico prometiam um governo iraquiano pró-ocidental e “amigo de Israel” (não sei se viram como Nuri al’Maliki, primeiro-ministro iraquiano, se escusou a condenar o Hezbollah). Quando começaram, o Irão era reformista e conciliador; hoje está extremista, converteu-se numa poderosa potência regional e pode agradecer o empurrão aos disparates de Bush. No coluna do “haver”: Saddam. Na coluna do “deve”: tudo o resto.

E, no entanto, continuam a exigir que a opinião pública lhes seja tão maleável quanto os pais de uma criança birrenta.


3. Uma resposta. O leitor J.C. Fernandes, da Maia, escreveu para protestar contra a minha coluna da semana passada. A sua carta saiu no Público de ontem, e nela me pede desculpa por me chamar “estúpido”. Não precisa de pedir desculpa, caro leitor; quem nunca chamou estúpido a um colunista que atire a primeira pedra. O meu texto está disponível, para isso mesmo e outras coisas, em http://ruitavares.weblog.com.pt — onde o leitor poderá confirmar que o tresleu, o citou mal e o distorceu literalmente a partir da primeira palavra: nem o título escapou. Eu próprio não responderia se o leitor, por sua vez, não me tivesse acusado de chamar estúpida “a uma nação inteira”, que se pressupõe ser Israel.

Esta acusação é inadmissível.

Desde logo, porque é falsa; pelo contrário, afirmei que uma das grandes forças de Israel era o seu povo. Acima de tudo, porque escrever tal coisa seria racista, esse sim o mais estúpido sentimento do mundo. Mas disso saberá certamente o leitor, que escrevendo sobre os povos vizinhos de Israel diz que são “turbulentos, extremistas, preguiçosos e pouco fiáveis”, não é verdade?

Propõe-me que imagine como seria se Portugal fosse atacado a partir da Galiza como Israel a partir do Líbano. O pressuposto é o de que Israel faz apenas “o normal”, o que todos os países fazem. A realidade não confere. Espanha foi alvo de terrorismo durante décadas, e sabia que a ETA se escondia no País Basco francês. Nunca bombardeou Saint-Jean-de-Luz. O Reino Unido foi alvo de terrorismo durante décadas e sabia que o IRA se organizava na República da Irlanda. Nunca bombardeou Belfast, muito menos Dublin. Há menos de um mês, sete atentados simultâneos mataram mais de duzentas pessoas em Bombaim. Há fortes suspeitas de que os autores tenham vindo da Caxemira paquistanesa. Todos os ocidentais louvaram a contenção da Índia; e no entanto, ao contrário do Irão, o Paquistão já tem armas nucleares e partilha uma fronteira terrestre com a Índia.

A lição é clara: o terrorismo é uma questão de segurança, policial, judicial, política. Pode ser atacado, com mais ou menos sucesso, por qualquer destas vias. Quando passa a ser uma questão militar, perpetua-se.

[Clique para ver reprodução da carta] A carta também se encontra transcrita no primeiro comentário.

agosto 01, 2006

O Fiasco do Milénio

[Já saiu o número 2 da Blitz, onde tenho uma coluna regular chamada Svengali, sob esta epígrafe do Trilby de George du Maurier

“[Svengali] conseguia ser impertinente de uma forma grosseira. Tinha um estilo de humor cínico que era mais ofensivo do que engraçado, e ria sempre da coisa errada, no momento errado, no lugar errado. E a sua gargalhada era sempre derrisória e cheia de malícia.”

Eis o texto do número 1, de Junho 2006]

Estamos em 2006 e eu tenho de varrer a casa — eu ou alguém por mim. Mas tem de ser humano. Não há ratos mecânicos, escondidos por detrás do rodapé, acorrendo segundos depois de uma bola de cotão ter pousado, estridente, no soalho.

Olho para os rodapés da minha casa.

Que dificuldade haveria em instalar-lhes umas dobradiças oscilantes para, no momento certo, deixarem passar os ratóides? Eu chegaria a casa esvaziando os bolsos, deixando cair moedas, papéis diversos, poeiras submilimétricas, parafusos encontrados na rua. Os ratóides levam tudo para dentro, separam o lixo do resto, sabem que facturas se declaram aos impostos, arquivam-nas no lugar certo, colocam o material indeciso num tabuleirinho, para minha consideração, que guardam depois inobservado. Transcrevem os números de telefone anotados em bilhetes de cinema. Deixam as chaves no prego da porta. Aquelas paredes têm espaço que chegue para um exército de ratóides e mais ainda: eles podem trazer-me de lá dentro o que eu quiser. Chinelos. Jornal. Preservativos. Corta-unhas.

Meus amigos, eu li as Crónicas Marcianas de Ray Bradbury. Li até o livro se desfazer. Li até me mandarem apagar a luz. Várias vezes. E li “Virão Chuvas Suaves”, o melhor conto do livro, vezes incontáveis, em leitura mental, ou em voz alta, ou imaginando uma versão cinematográfica, ou gravando um programa de rádio caseiro. E, tudo contado, sei perfeitamente que em 2006 já deveria haver ratóides que me limpassem a casa. E já nem sequer teimo que tudo isto se passaria em Marte, depois de um cataclismo nuclear, terrível mas necessário, que levara todos os gajos chatos do liceu, mas também algumas das miúdas bonitinhas e doces, memoráveis ao meu coração sofrido.

No fundamental, quero dizer que o milénio é a grande desilusão da minha vida. Fui dolorosamente envergonhado: o milénio é a fraude do milénio.

Consideremos o dia em que fui para o hospital com uma apendicite. O augustus imperator do Ocidente era um homem chamado Bush. O primeiro-ministro de Portugal chamava-se Cavaco Silva, professor de educação física — ou moral e religiosa, ou trabalhos oficinais — se a memória não erra.

O ditador da Líbia chamava-se Muhammar Kadhafi, ou Gadhdhaffyi (há mais de trinta alternativas). A questão era saber se Bush devia bombardear Kadhafi, e que cara, no seu registo fisionómico limitado, deveria Cavaco fazer quando apoiasse o ataque. Passaram os anos. Bush foi substituído por um filho que é uma cabal refutação à teoria de Darwin. Ninguém sabe o que foi feito de Cavaco Silva. Kadhafi continuou a sua carreira a solo, mas perdeu credibilidade como vilão, e já foi substituído por dois ou três gajos diferentes — o último ainda à experiência.

Tenho, como troféu de batalha, a cicatriz destes anos. Está numa posição rara em apendicites, dois ou três centímetros acima do lugar normal. Quando acordei da anestesia, pedi que me trouxessem livros de ficção científica: Stanis?aw Lem, Karel ?apek, Ray Bradbury, Robert Heinlein, os irmãos Strugatski, Harry Harrison, John Wyndham. E um ou outro policial para desenjoar. Os pais, os irmãos e os primos corresponderam. Um professor do Técnico, que tinha sido operado à vesícula, emprestou-me um dos seus Isaac Asimov. Nas camas em frente à minha, um comunista e um saudosista da ditadura discutiam política sem conseguirem ver-se, intercalados por um homem em coma, ou talvez já morto, que supúnhamos encontrar-se por detrás daquela cortina de plástico verde-claro. No canto oposto um militar da Guarda Nacional Republicana, em severa privação alcoólica, atirava as pantufas contra a janela, tentando atingir gatos invisíveis para a restante enfermaria. Um açoriano mostrava com orgulho a sua cicatriz, grossa como uma corda, que ia da traqueia até à bexiga: “foi revisão geral”, dizia.

Eu ia lendo os meus livros, que narravam acontecimentos que viriam a passar-se no futuro, especialmente em torno do ano 2000. À beira do fim, de Harry Harrison [no original, Make Room! Make Room!]: 9 de Agosto de 1999, vivem trinta e cinco milhões de pessoas em Nova Iorque, sem água potável, sem comida e sem papel. Para comunicar, usam tésseras de ardósia distribuídas por um exército de crianças de rua. Regresso das Estrelas, de Stanis?aw Lem [no original Powrót z gwiazd]: as bibliotecas são colecções de cristais que se copiam de graça e inserem num visor de plástico. A Porta para o Verão, de Robert A. Heinlein [no original The Door into Summer]: as pessoas guardam o seu pé-de-meia no banco, congelam-se, e acordam no ano 2000 milionárias, mas potenciais vítimas ingénuas de esquemas preparados pela população acordada, que trata os ressuscitados mais ou menos como nós tratamos os imigrantes. No que diz respeito ao trabalho doméstico — oh, meus amigos — não se preocupem: o Flexible Frank rega o jardim, muda as fraldas do miúdo e prepara cocktails [em português: cacharoletes] com vermute.

É certo que Heinlein escreveu em 1957, Lem em 1961 e Harrison em 1966. O milénio ainda vinha lá longe. Na altura em que eu recuperava da apendicite o tempo já começava a ser apertado. Tínhamos cerca de uma década. Não daria para colonizar Alfa-Centauro mas, que diabo, não se admitia chegar ao ano 2000 sem um robot doméstico.

Nada me preparou, porém, para o que se passou recentemente. Vi uma antologia de Ray Bradbury na livraria, e trouxe-a para casa, mais por nostalgia do que por empenho. Recolhi a minha colecção de Lem quando o autor morreu, em Março passado, para lhe prestar o melhor tributo que um leitor pode prestar. Reli A Porta para o Verão, de Heilein, talvez pela décima vez mas a primeira desde a adolescência, em menos de duas tardes.

E a evidência fulgurante impõe-se: estes livros estão escritos no passado.

Já não posso ler estes livros e projectar-me satisfatoriamente no futuro porque as datas estão lá, aquelas datas, e atrapalham-me. Como ler futurologia passada em 1999? Lembro-me perfeitamente de 1999: não foi assim tão mau. E também não foram assim tão bons dois mil e um, dois mil e dois e por aí adiante.

Tudo bem: tenho a internet, que me faz perder tempo quando deveria estar a escrever. Mas quando escrevo, ainda tenho de me sentar a uma cadeira, ainda tenho de premir teclas com dedos. As articulações queixam-se, os músculos exigem levantar-se, preciso de urinar. E onde está o eléctrodo implantado na nuca, mais o transmissor sem fios, que registasse directamente os meus pensamentos? Se precisar de rever o texto, onde está o monitor na lente dos óculos, controlado pelo mover brando da retina?

Lembro-me de ter seis anos e fazer contas para saber que idade teria no ano 2000. Não posso aceitar esta desfeita. Quero saber onde está o estéreo-tanque, televisor tridimensional que me permite contornar o apresentador do telejornal e vigiar a progressão da sua calvície. Onde está a noiva mecânica? Onde está o organizador de matéria e o teletransportador? Onde estão as cidades rotativas, itinerantes e suspensas? Onde estão as cúpulas de controle meteorológico? Onde está calster, a impressora portátil de dinheiro? Onde está o levitador magnético ou o seu rival, o elevador de repulsão gravítica? Onde está a electricidade sem fios?

Estamos prontos.


[com um agradecimento especial a João Macdonald pela tradução portuguesa de cocktail.]