« "Se queres julgar, compreende" | Main | A Senhora da Agonia »

A nossa melhor proposta

Todos teriam de trocar as bombas pelos fastidiosos dossiês de Bruxelas: uma forma de resolução de problemas (e às vezes não-resolução) que dá mais dores de cabeça mas menos mortos inocentes.

Mais uma crise internacional, mais uma ocasião para lastimar a falta de influência da Europa. Felizmente, a desunião europeia impediu o grande disparate que seria o envio de uma força da União para o Sul do Líbano, onde ficaria imediatamente presa numa armadilha: se confrontasse o Hezbollah, seria tratada como ocupante; se não o confrontasse, seria tratada como cúmplice. Mal por mal, antes mandar soldados sob a égide da ONU, que está mais habituada a estas missões ingratas. A União Europeia, enquanto tal, deve preservar-se. Na altura certa, terá uma cartada melhor para jogar: convidar Israel, o Líbano e o futuro estado da Palestina a tornarem-se membros de pleno direito da União.

Se estou louco? Talvez, mas tenho impressão que a ideia não é minha: a própria UE tem uma parceria com toda a região do Mediterrâneo (o Processo de Barcelona) e já se tem falado em oferecer um estatuto de associado a Israel e ao futuro estado da Palestina. A única novidade aqui seria subir a fasquia em termos de estatuto e meter o Líbano na jogada.

Vamos às objecções: é verdade que estes três países não pertencem ao continente europeu. Mas tampouco o Chipre se qualifica — como “continente” ou como “europeu” — e já é membro. Mário Soares e Adriano Moreira propuseram Cabo Verde, que fica mais longe. Timothy Garton Ash sugeriu o Canadá, enorme e longíssimo. Pouca gente sabe que a UE têm até um território na América do Sul; no entanto, se pegar numa nota de euro e a observar da esquerda para a direita, ele é logo o primeiro do mapa: a Guiana Francesa. Poderia dizer-lhe que a distância entre Bruxelas e Caiena, a sua capital, é mais do dobro da distância entre Bruxelas e Jerusalém. Mas mesmo isto seria enganoso. Na verdade, Beirute está a apenas 250 quilómetros da mais próxima capital da União (Nicósia no Chipre). Menos do que entre Lisboa e o Porto. Israel, o Líbano e a Palestina já estão nas nossas fronteiras.

Em termos de população e território, já vimos adesões mais difíceis. Juntos, os três países têm menos de metade do tamanho de Portugal e apenas mais metade da população: não chegam aos quinze milhões. A Roménia, que vai entrar em 2007, é maior e mais populosa.

Em paz, os três países têm boas possibilidades de desenvolvimento. Aliás, Israel já é um país desenvolvido e uma economia moderna (maior parceiro comercial: a União Europeia). O PIB/per capita é maior que o português (23 mil dólares contra 19 mil); os israelitas até se arriscariam a ser contribuintes líquidos da União. O Líbano tem um PIB/per capita baixo (cerca de 5 mil dólares), com enormes desigualdades na distribuição da riqueza, mas boas perspectivas no turismo, se houver paz. A Palestina é o caso mais bicudo dos três, mas iria certamente beneficiar do descongestionamento da região e do afluxo de subsídios europeus (nomeadamente para a construção de infra-estruturas, incluindo as ligações entre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia que permitiriam pôr todo o país em contacto e tornar o novo estado viável).

O que teriam estes três países a ganhar? O Líbano, um contra-peso aos pesos-pesados que o invadem e ocupam sempre que lhes apetece, como Israel e a Síria. Os palestinianos, um estado independente e dinheiro para o tornar viável. E Israel? Israel não pode continuar a ter apenas um amigo no mundo. Se numa geração os EUA (pressionados pelo petróleo ou por qualquer outro factor que hoje não prevemos) mudarem a sua relação estratégica na região, Israel ficará só perante os seus inimigos. Mas se Israel pertencer à União dará aos europeus o dever de protegerem o estado judaico, com quem têm irrevogáveis responsabilidades históricas.

Para poderem lá chegar, porém, estes candidatos à adesão teriam uma missão muito séria. Só para começar: fixar definitivamente as suas fronteiras, nas linhas do que os acordos internacionais já prenunciam (Jerusalém não ficaria sob jurisdição europeia mas internacional; ali se situariam as capitais de Israel e Palestina e provavelmente alguns serviços comunitários). E antes de poderem entrar teriam de aprovar legislação e ter uma prática condizente com os padrões europeus em questões de direitos humanos, liberdade de expressão, separação entre estado e religião, tratamento das minorias e das mulheres. Os partidos não poderiam ter milícias armadas; a violência do estado teria de ser legitima e proporcional.

Em resumo, todos teriam de trocar as bombas pelos fastidiosos dossiês de Bruxelas: uma forma de resolução de problemas (e às vezes não-resolução) que dá mais dores de cabeça mas menos mortos inocentes. Teriam de resolver os seus diferendos de recursos naturais, nomeadamente de águas, nas instâncias comunitárias. Em vez de disputar soberania a três iriam partilhá-la a trinta. Em troca teriam os seus emigrantes de luxo no Parlamento Europeu, um mercado alargado e, se desejassem, o euro. Não estariam em condições de segurança para entrar no espaço Shengen ou abolir as suas fronteiras internas? Paciência. Não há pressa.

Diz-se que os americanos são de Marte e os europeus são de Vénus. No entanto, há europeístas que defendem que a Europa só terá uma palavra a dizer a nível global quando investir na sua componente militar e falar a “uma só voz”. Ou seja, só poderá competir com os EUA imitando-os. Isso seria um erro tremendo. Pelo contrário, a UE tem sido uma experiência histórica inédita porque não é uma potência militar expansionista nem obriga todos a falar a uma só voz. Só entra quem quer e se esforça, e dá-se aos países pequenos e novos membros uma hipótese de navegar na sua indolente confusão institucional.

Já vimos onde nos levou Marte, o planeta da guerra, nos últimos anos; não sei se queremos ver onde nos pode ainda levar no futuro próximo. Se os americanos são duros e os europeus são moles, vamos dar uma chance à moleza. É absurdo? É impossível? É sim senhor — mas talvez menos do que esperar que o problema se resolva sozinho.

Post a comment