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Valores relativamente absolutos

[do Público de 22 de Julho]

O que mais me surpreendeu, porém, foi esta alegação genérica de que para Bush “matar é errado”. Para mim, é novidade.

George W. Bush vetou esta semana uma lei de financiamento público para investigação em células estaminais embrionárias. Estas encontram-se em embriões de quatro ou cinco dias, que nessa fase não passam de um novelo de algumas dezenas de células, e os cientistas pensam que elas têm capacidade para se transformar em células de praticamente qualquer tecido. No estado actual da pesquisa julga-se que doenças como as de Alzheimer e Parkinson possam vir a ser vencidas pela investigação em células estaminais. Também existem algumas células estaminais em humanos adultos, mas estas são menos plásticas e têm menos potencial curativo.

A maior parte da opinião pública americana quer que o sector público apoie fortemente a pesquisa em células estaminais e tem esperanças de que este tipo de pesquisa possa vir a evitar muita morte e sofrimento. Para certos cientistas, aquele favo de células não pode sequer ser considerado um embrião, uma vez que ainda não começou a diferenciação orgânica nem se implantou no útero. No entanto, resta o facto indesmentível de que eu e o leitor que está a ler agora estas linhas já fomos, em tempos, um embrião de quatro ou cinco dias. Para nós, essa é uma fase longínqua e esquecida, tanto física como mentalmente. Para George W. Bush, que ainda não colocou grande distância entre si e a sua fase embrionária, aquele novelo é equivalente a um humano nascido e crescido.

Para Bush, inutilizar um destes embriões é o mesmo que matar um humano. Não sou eu que o digo. É o seu porta-voz, Tony Snow, quando se lhe pergunta porque vetou o presidente a lei do congresso.

“ O presidente simplesmente acha que matar é errado”, disse Tony Snow. Outra palavra também utilizada foi “murder”, assassínio. A investigação em células estaminais embrionárias pode vir a salvar muitas vidas e diminuir muito sofrimento mas, no fundo, depende do assassínio. Logo, é errada.

Esta justificação surpreendeu-me. Se Bush acha que a investigação em células estaminais embrionárias é assassinato, deveria esforçar-se por proibi-la. Mas, atenção, não foi isso que ele fez; Bush limitou-se a impedir o financiamento público desta pesquisa. Nos EUA a investigação privada em células estaminais embrionárias prossegue a todo o gás. Como se trata de assassinato financiado por dinheiros privados já não deve incomodar tanto o presidente do país.

A coisa fica ainda mais bizarra quando se considera de onde vêm os embriões para esta investigação. Trata-se dos embriões excedentários que as clínicas de fertilidade produzem a mais para ajudar casais a terem filhos. Ao conseguir implantar com sucesso um dos muitos embriões obtidos, o que se faz com os que sobram? Grande parte das vezes, são “despejados”: lançam-se ao lixo. George W. Bush também não disse que vai lutar contra esta prática, e o seu porta-voz não esclareceu se ele considerava que lançar embriões ao lixo era menos assassinato do que usá-los para colher células estaminais e descobrir a cura para Alzheimers e Parkinsons.

A seguir a anunciar o veto da lei, George W. Bush foi para uma sala da Casa Branca deixar-se fotografar com famílias que “adoptaram” alguns poucos destes embriões excedentários e decidiram implantá-los nos ventres das suas mulheres. Isto pode assemelhar-se muito às “barrigas de aluguer” que os conservadores deploram, mas neste caso a prática é muito elogiada: chamam-lhes as “crianças flocos-de-neve”. Só que os pré-embriões congelados nas clínicas americanas andam neste momento em torno dos quinhentos mil (e vão aumentando) e não parece haver gente bastante que esteja disposta a adoptar pré-embriões de outros casais para os parir e criar. Resta pois a decisão: ou mantê-los congelados para todo o sempre (o que também não é vida), ou despejá-los no lixo (sobre o que George W. Bush não se pronuncia), ou usar as células estaminais para descobrir curas e salvar vidas (o que, segundo a Casa Branca, é assassinato).

O que mais me surpreendeu, porém, foi esta alegação genérica de que para Bush “matar é errado”. Para mim, é novidade. A informação que eu tenho é a de que, enquanto governador do Texas com direito de clemência, George W. Bush ordenou 152 execuções à morte. Ficou na história recente dos EUA como o governador de estado com mais condenações à morte e, independentemente do que se achar disto, a ideia com que se fica é a de que para Bush nem sempre matar é errado.

Note-se: a minha intenção não é encontrar contradições em Bush. Encontrar contradições em Bush é tão fácil que se torna um pouco como assistir, como fiz na quinta-feira, a um jogo de hóquei em patins entre Portugal e a Áustria (24-0). Entretém mas não entusiasma.

A questão está em que nos últimos anos temos assistido a uma constante repetição do sermão conservador sobre os valores absolutos, como o da vida. Ou acreditamos em valores absolutos ou somos seres imorais. Qualquer sugestão de que todas as convicções são provisionais e não contêm senão parte da verdade (como achava São Tomás de Aquino) é atacada como uma demonstração do infame e escandaloso “relativismo pós-moderno”.

Pela veemência com que o sermão do absolutismo moral é proferido, o mínimo que poderíamos esperar da parte dos seus autores seria um pouco de coerência. Mas como, se ainda esta semana os vimos defender o direito de Israel a um ataque desproporcionado que provocou a morte de civis inocentes? Matar já não é assim tão errado, se formos “amigos de Israel” — pobre Israel, cujos amigos deixam fazer tudo o que um amigo verdadeiro nunca admitiria.

Sim, pede-se aos defensores do “absolutismo moral” um pouquinho de coerência apenas. É que vai ficando demasiado evidente que a posição deles é apenas a mais velha manha do poder. No fundo, não passa disto: valores absolutos para a plebe, valores convenientes para nós.

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Porque vem a propósito:

http://www.youtube.com/watch?v=7nnSp2k4VC0

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