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Pedir demais

[do Público de 8 de Junho 2006]

O problema não está nas coisas em que os partidos de esquerda divergem. Está naquelas em que eles convergem.

A semana passada escrevi sobre os atavismos da nossa direita e o que tive a dizer não foi simpático. A direita portuguesa, mesmo nos seus melhores exemplos, tem aquela lusitana e velha tendência para a arrogância social, a hipocrisia e o autoritarismo. Mas a nossa esquerda tem também os seus atavismos e, uma vez que sou de esquerda, sinto a obrigação de ser ainda menos simpático. Na verdade, nem é por obrigação. É por impaciência: são já demasiados anos a aturar o dogmatismo, a irresponsabilidade e a velhacaria entre partidos de esquerda.

Desejo esclarecer que aquilo que eu deploro não é a diferença entre os partidos de esquerda. Bem pelo contrário. O PCP é um partido revolucionário e marxista-leninista, o BE é um saco de gatos anti-capitalistas com medo do poder e o PS é um saco de gatos com gosto pelo poder e uma espécie de ideologia extremista da moderação. Na medida em que há opção e variedade, nada disto me incomoda.

Só que o problema não está nas coisas em que os partidos de esquerda divergem. Está naquelas em que eles convergem. Para provar cabalmente esta asserção, consideremos o caso do aborto.


Vamos começar, às avessas, pela direita. A direita tem, no debate do aborto, enormes diferenças: há quem considere que matar um feto indefeso é pior do que matar um adulto, há quem não admita excepções à condenação do aborto nem para casos de violação e incesto, há quem ache que a actual lei é equilibrada e é para ser aplicada, há quem pense que a lei se deve manter mas que as mulheres não devem ser condenadas, há quem fale numa moratória para as condenações, há quem diga que o problema está na regulamentação da lei, há quem lembre que a lei espanhola é quase igual à nossa e permite o aborto e, finalmente, há quem concorde em mudar a lei.

Para piorar a situação da direita, esta semana implodiu uma das últimas ilusões que seguravam este campo: a de que não havia mulheres condenadas à prisão por aborto. Esta sempre foi uma intrujice ridícula, aguentada com cuspo pela boa vontade e humanitarismo de alguns juízes. Mas agora caiu por terra definitivamente. Há mulheres que foram perseguidas policialmente pelo estado, obrigadas a fazer exames médicos humilhantes num dos momentos mais difíceis das suas vidas, arrastadas para o martírio dos tribunais e finalmente condenadas a prisão. O facto de a pena ter sido suspensa significa zero: se a lei não muda, teremos mulheres na cadeia por terem abortado.

Quem é pró-lei tem de reconhecer que é também pró-prisão. E terá de responder a perguntas como estas:

“Dr. Paulo Portas, o senhor e o seu partido têm dito repetidamente que consideram a actual lei equilibrada. Considera que, quando se condenaram aquelas mulheres a penas de prisão, foi feita justiça?”

“Dr. Marques Mendes, o senhor e o seu partido têm dado a entender que este assunto não é relevante para a sociedade portuguesa. Devemos então depreender que não perde o seu sono com a probabilidade de ver mulheres na prisão por terem abortado?”

“Excelentíssimos senhores dos movimentos pró-vida, excelentíssimos senhores párocos de Lordelo do Ouro e da Igreja da Encarnação, excelentíssimo Sr. Padre Serras Pereira, excelentíssimo Sr. Dr. João César das Neves: vossas excelências têm comparado o aborto de um feto de poucas semanas ao infanticídio de uma criança já nascida e crescida. Contamos então com vossas excelências para lamentar a leveza desta condenação e exigir que estas mulheres sejam sujeitas a prisão efectiva de, no mínimo, dez a quinze anos?”

Voltemo-nos agora, finalmente, para a esquerda: nesta questão concreta, não lhe encontraremos grandes diferenças. Toda a esquerda acha que a lei portuguesa abre a porta a uma perseguição injusta, imoral e iníqua. Toda a esquerda considera que o aborto não deve ser considerado crime. Toda a esquerda propõe como solução uma nova lei, e não tem diferenças de maior entre as suas propostas.

Um marciano acabado de chegar a este país poderia achar que está tudo bem à esquerda e tudo mal à direita. Portugal, porém, é mais excêntrico e curioso do que Marte. Ninguém parece confrontar Paulo Portas, Marques Mendes e os talibãs do catolicismo com os efeitos da lei que apoiam. Contudo, se olharmos à esquerda, veremos uma batatada permanente sobre questões de método, sobre a legitimidade do referendo, sobre a acção do parlamento. Tudo discussões interessantíssimas para quem conseguir interessar-se por elas durante mais de cinco minutos. Mas que esquecem o essencial: vai mesmo haver referendo e, quando houver, vai ser preciso ganhá-lo.

A questão do aborto é um espinho atravessado na consciência do povo de esquerda. O mínimo que esse povo pede aos partidos em quem vai mais ou menos votando, com convicção ou sem ela, é o seguinte: que se coordenem entre si e com as organizações que têm trabalhado nesta área, que criem uma estrutura de campanha com objectivos bem definidos, que a abram aos interessados individuais, e que a extingam no dia a seguir ao referendo.

O problema é que até pedir o mínimo é, com os partidos que temos, pedir demais.

Comments

As crónicas têm sido todas muito boas, o que me vai obrigando a guardá-las religiosamente. Mas esta não só é muito boa como me parece todo um programa político. Excelente. Parabéns. Saúde,

Concordo com tudo, excepto com o facto do PCP ser um partido revolucionário. Acho, pelo contrário, que o PCP é um partido cada vez mais conservador, com medo das ideias novas da esquerda, que se centram na liberdade do individuo e não nas chamadas "liberdades colectivas" as quais, historicamente, representaram uma enorme falta de liberdade. O PCP tem medo do poder do povo quando esse poder lhe (ao PCP) foge das mãos. Depois é vê-los absterem-se ou votarem contra leis como a da liberdade religiosa, da paridade, dos direitos das minorias, etc.

Rui Tavares, o PCP é um partido revolucionário maexista -leninista..... para piada do 1 de Abril não estará mal....

Será porque tem dúvidas que a Coreia do Norte seja uma ditadura...

Será porque defende esses grandes exemplos de socialismo que são Cuba e a China...

Será porque se alia pereferencialmente com o PSD em tudo o que é autarquias.....

Realmente, estaria melhor a frase: O PCP é um saco de lacraus, que se envenenam uns aos outros...

:)

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