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julho 31, 2006

A fraqueza de Israel

[do Público de 29 de Julho]

Estar preso à obrigação da demonstração de força é a pior forma de fraqueza. Provocações ilegítimas há sempre; mas o que chamaria o leitor a um indivíduo que respondesse sempre violentamente a tudo? Forte ou fraco?


Israel tem um quarto do tamanho de Portugal e cerca de três quartos da sua população: sete milhões contra dez milhões. Apesar de uma tradição intelectual portuguesa, de António Vieira a Fernando Pessoa, ver grande identidade entre a “alma” portuguesa e a do povo judeu, as semelhanças entre o nosso país e o único estado judeu do mundo são hoje poucas: Portugal é o país onde toda a gente acha que nunca se consegue nada, Israel um jovem estado onde se acredita que tudo é possível.

O Líbano tem pouco mais de um décimo do tamanho de Portugal, mas nesse território vivem quatro milhões de pessoas. É um país multi-étnico, multi-religioso — dezassete comunidades étnicas e religiosas diferentes — e democrático. No ano passado, depois da “Revolução dos Cedros”, o Líbano foi louvado como exemplo de normalização. George W. Bush apresentou o Líbano como a melhor prova da teoria dos dominós democráticos no Médio Oriente. Um ano depois, talvez não haja melhor demonstração da importância que a democracia tem nas reais motivações de Bush naquela região do que a facilidade com que o “melhor exemplo” foi sacrificado.

Toda a gente sabe que entre as maiores forças de Israel se contam usufruir do apoio da única super-potência, possuir um dos melhores exércitos do mundo e ter um povo com capacidade de sacrifício e resistência, herdeiro da pior catástrofe da história europeia.

Fala-se menos das fraquezas de Israel. No entanto, elas exibem-se claramente na presente guerra.


A primeira é o governo. O executivo de Ehud Olmert é um governo fraco; só isso explica as decisões que tomou no início desta crise. Ariel Sharon, que não precisava de mais demonstrações de força, deixou passar provocações iguais ou piores do que os raptos dos soldados israelitas, que aliás não são nada de novo no tabuleiro negocial da região — e Israel, que já chegou a ter o sequestro oficial legalizado e nesta mesma crise prendeu ministros palestinianos como moeda de troca, sabe disso muito bem. É evidente que o segundo rapto, vindo de território libanês e atravessando a fronteira israelita, foi uma violação grosseira da lei. Mas daqui não procede que qualquer reacção à ilegalidade seja legal, o que redundaria num mundo sem conta, peso ou medida. Bombardear a capital do país vizinho não é, nunca foi, a reacção legítima a um rapto. Também não é a mais eficaz ou inteligente.

A fraqueza de Ehud Olmert, após os primeiros raptos, resultou em ser obrigado a subir sempre a parada. Tornou-se previsível e manipulável. O governo de Israel, na sua subordinação ao exército e à lógica militar, tornou-se parecido com uma figura das lendas judaicas, o Golem, criado por Judá Leão (Judah Loew), rabi de Praga, para defender os judeus das perseguições anti-semitas. À medida que ganhava força e tamanho, o gigante Golem tornou-se mais estúpido e violento; no fim já só espalhava medo e destruição e não conseguia defender ninguém.

Estar preso à obrigação da demonstração de força é a pior forma de fraqueza. Provocações ilegítimas há sempre; mas o que acharia o leitor de um indivíduo que respondesse sempre violentamente a tudo? Acharia que se tratava de um indivíduo forte, ou de alguém sempre pronto a ser manipulado pelos seus inimigos?

Infelizmente, Israel deixa-se manipular pelos inimigos e muito particularmente pelos seus “amigos”. E que péssimos amigos tem Israel! Em primeiro lugar, são autoproclamados, coisa bizarra. Em segundo lugar, sentem-se no direito de decretar quem mais pode ou não ser “amigo de Israel”. E, principalmente, acham que a amizade implica justificar todas as acções, incitar todas as reacções, arremeter contra todas as críticas. Visto de fora, são a grande fraqueza de Israel: encorajam o Golem.

Os chamados “amigos de Israel” são produtos da Guerra Fria. Na verdade, ainda é na Guerra Fria que vivem: alguns porque têm saudades do mundo a preto-e-branco, outros porque sentem que estiveram do lado errado e se esforçam agora por demonstrar a mesma teimosia e arrogância do lado oposto.

Em Portugal temos alguns exemplos caricaturais desta tendência. Aqui mesmo ao lado, Helena Matos acusou os críticos desta guerra de serem anti-semitas e detestarem a liberdade, um argumento que vale tanto quanto acusar toda a gente que aprecia crianças de ser pedófilo e detestar a felicidade. Pacheco Pereira defende que os inimigos de Israel só entendem a linguagem da força; para gente tão entendida em anti-semitismo, sempre gostaria de saber o que significará este encorajamento a tratar os árabes pela violência. Quem leva a palma, contudo, é Vasco Graça Moura, que esta semana no Diário de Notícias garante que a esquerda “rejubilou” com o 11 de Setembro e “angeliza” o terrorismo. Ver esta gente defender a democracia e a liberdade enquanto recorre ao insulto, à injúria e à retórica trauliteira resulta numa experiência francamente tragicómica.

Com amigos destes, Israel só encontra pior no fanatismo dos seus inimigos. Mas não se enganem. Se for preciso ocupar o Líbano como em 1982, estes amigos continuarão bem seguros atrás dos computadores, como os EUA continuarão do outro lado do oceano. Os israelitas terão de se enfiar sozinhos no atoleiro; nesse momento, a crença no governo de Olmert cairá rapidamente. A não ser que a União Europeia — a Velha Europa, a cobarde Europa, a insultada Europa — se ofereça para fazer o trabalho da ONU no Sul do Líbano, o que só poderá levar a dois resultados: ou não se confronta o Hezbollah e se arcam com as culpas pelo terrorismo, ou se confronta o Hezbollah e as tropas da UE terão ali o seu mini-Iraque. Entretanto, a chave do conflito está em Damasco e em Teerão, mas como estas são as capitais do “eixo do Mal”, não se pode negociar com eles.

Condoleeza Rice, que é a diplomata mais poderosa do mundo, acha que não vale a pena um cessar-fogo se é para ficar tudo na mesma. Eu, que não sou ninguém, acho somente que um cessar-fogo pode valer muito a pena, principalmente para não ficar tudo pior.

julho 25, 2006

Mahmoud Al-Zheimer

Ainda sobre células estaminais embrionárias, imperdível o clip do Daily Show sobre o veto de Bush.

julho 24, 2006

Valores relativamente absolutos

[do Público de 22 de Julho]

O que mais me surpreendeu, porém, foi esta alegação genérica de que para Bush “matar é errado”. Para mim, é novidade.

George W. Bush vetou esta semana uma lei de financiamento público para investigação em células estaminais embrionárias. Estas encontram-se em embriões de quatro ou cinco dias, que nessa fase não passam de um novelo de algumas dezenas de células, e os cientistas pensam que elas têm capacidade para se transformar em células de praticamente qualquer tecido. No estado actual da pesquisa julga-se que doenças como as de Alzheimer e Parkinson possam vir a ser vencidas pela investigação em células estaminais. Também existem algumas células estaminais em humanos adultos, mas estas são menos plásticas e têm menos potencial curativo.

A maior parte da opinião pública americana quer que o sector público apoie fortemente a pesquisa em células estaminais e tem esperanças de que este tipo de pesquisa possa vir a evitar muita morte e sofrimento. Para certos cientistas, aquele favo de células não pode sequer ser considerado um embrião, uma vez que ainda não começou a diferenciação orgânica nem se implantou no útero. No entanto, resta o facto indesmentível de que eu e o leitor que está a ler agora estas linhas já fomos, em tempos, um embrião de quatro ou cinco dias. Para nós, essa é uma fase longínqua e esquecida, tanto física como mentalmente. Para George W. Bush, que ainda não colocou grande distância entre si e a sua fase embrionária, aquele novelo é equivalente a um humano nascido e crescido.

Para Bush, inutilizar um destes embriões é o mesmo que matar um humano. Não sou eu que o digo. É o seu porta-voz, Tony Snow, quando se lhe pergunta porque vetou o presidente a lei do congresso.

“ O presidente simplesmente acha que matar é errado”, disse Tony Snow. Outra palavra também utilizada foi “murder”, assassínio. A investigação em células estaminais embrionárias pode vir a salvar muitas vidas e diminuir muito sofrimento mas, no fundo, depende do assassínio. Logo, é errada.

Esta justificação surpreendeu-me. Se Bush acha que a investigação em células estaminais embrionárias é assassinato, deveria esforçar-se por proibi-la. Mas, atenção, não foi isso que ele fez; Bush limitou-se a impedir o financiamento público desta pesquisa. Nos EUA a investigação privada em células estaminais embrionárias prossegue a todo o gás. Como se trata de assassinato financiado por dinheiros privados já não deve incomodar tanto o presidente do país.

A coisa fica ainda mais bizarra quando se considera de onde vêm os embriões para esta investigação. Trata-se dos embriões excedentários que as clínicas de fertilidade produzem a mais para ajudar casais a terem filhos. Ao conseguir implantar com sucesso um dos muitos embriões obtidos, o que se faz com os que sobram? Grande parte das vezes, são “despejados”: lançam-se ao lixo. George W. Bush também não disse que vai lutar contra esta prática, e o seu porta-voz não esclareceu se ele considerava que lançar embriões ao lixo era menos assassinato do que usá-los para colher células estaminais e descobrir a cura para Alzheimers e Parkinsons.

A seguir a anunciar o veto da lei, George W. Bush foi para uma sala da Casa Branca deixar-se fotografar com famílias que “adoptaram” alguns poucos destes embriões excedentários e decidiram implantá-los nos ventres das suas mulheres. Isto pode assemelhar-se muito às “barrigas de aluguer” que os conservadores deploram, mas neste caso a prática é muito elogiada: chamam-lhes as “crianças flocos-de-neve”. Só que os pré-embriões congelados nas clínicas americanas andam neste momento em torno dos quinhentos mil (e vão aumentando) e não parece haver gente bastante que esteja disposta a adoptar pré-embriões de outros casais para os parir e criar. Resta pois a decisão: ou mantê-los congelados para todo o sempre (o que também não é vida), ou despejá-los no lixo (sobre o que George W. Bush não se pronuncia), ou usar as células estaminais para descobrir curas e salvar vidas (o que, segundo a Casa Branca, é assassinato).

O que mais me surpreendeu, porém, foi esta alegação genérica de que para Bush “matar é errado”. Para mim, é novidade. A informação que eu tenho é a de que, enquanto governador do Texas com direito de clemência, George W. Bush ordenou 152 execuções à morte. Ficou na história recente dos EUA como o governador de estado com mais condenações à morte e, independentemente do que se achar disto, a ideia com que se fica é a de que para Bush nem sempre matar é errado.

Note-se: a minha intenção não é encontrar contradições em Bush. Encontrar contradições em Bush é tão fácil que se torna um pouco como assistir, como fiz na quinta-feira, a um jogo de hóquei em patins entre Portugal e a Áustria (24-0). Entretém mas não entusiasma.

A questão está em que nos últimos anos temos assistido a uma constante repetição do sermão conservador sobre os valores absolutos, como o da vida. Ou acreditamos em valores absolutos ou somos seres imorais. Qualquer sugestão de que todas as convicções são provisionais e não contêm senão parte da verdade (como achava São Tomás de Aquino) é atacada como uma demonstração do infame e escandaloso “relativismo pós-moderno”.

Pela veemência com que o sermão do absolutismo moral é proferido, o mínimo que poderíamos esperar da parte dos seus autores seria um pouco de coerência. Mas como, se ainda esta semana os vimos defender o direito de Israel a um ataque desproporcionado que provocou a morte de civis inocentes? Matar já não é assim tão errado, se formos “amigos de Israel” — pobre Israel, cujos amigos deixam fazer tudo o que um amigo verdadeiro nunca admitiria.

Sim, pede-se aos defensores do “absolutismo moral” um pouquinho de coerência apenas. É que vai ficando demasiado evidente que a posição deles é apenas a mais velha manha do poder. No fundo, não passa disto: valores absolutos para a plebe, valores convenientes para nós.

julho 20, 2006

Rescisão de contrato

Lisboa, 20 de Julho de 2006
Exmos(as). Srs(as).,

Venho por este meio comunicar-vos a rescisão do contrato de fornecimento do serviço TVCabo no meu domicílio, assinalado ao lado, sob o número de cliente, assinalado acima.

Nada obriga à exposição das razões que levam um cliente à rescisão de um contrato deste tipo. Neste caso particular, porém, é meu desejo informar-vos por que tomei a decisão de rescindir.


1 - No passado mês de Abril do corrente ano, a TVCabo decidiu substituir o canal GNT (na posição 7 da sua grelha) pelo canal TVRecord, apesar de pedidos insistentes em contrário por parte dos seus clientes.

2 - Esta mudança resultou numa perda significativa de qualidade nos primeiros canais da grelha. A GNT é um excelente canal de televisão e era certamente dos melhores da grelha TVCabo. A TVRecord é, neste momento, um dos piores.

3 - Como se a perda de qualidade não bastasse, a TVRecord enche uma parte da sua programação com puro proselitismo religioso, num desrespeito total pela liberdade filosófica e/ou religiosa dos espectadores.

A TVCabo revelou neste processo uma enorme falta de consideração pelos seus clientes, ao tê-los privado de um excelente canal de televisão do maior país de língua portuguesa, com quem os portugueses mantêm laços culturais profundos e cujos nacionais são a maior comunidade imigrante no nosso país. A GNT cumpria com as três obrigações clássicas da TV: informar, entreter e educar. A TVRecord não cumpre com nenhuma delas e ainda sujeita os espectadores à emissão de lixo religioso num dos primeiros canais da grelha da TVCabo.

Compreendam que, nestas condições, não poderia continuar a ser vosso cliente.

Sem outro assunto, aceitem por favor os meus melhores cumprimentos,

[assinatura]

julho 17, 2006

Jerusalém e Sodoma

[do Público de 15 Julho 2006]

Se tivessem fé verdadeira deixariam esse trabalho para as mãos de Deus: “Jerusalém transformar-se-á em Sodoma, e Deus aniquilá-los-á naquele lugar”.

No Médio Oriente e, em particular, na Terra Santa, o conflito entre religiões é tão perigoso que a opinião pública mundial chega a revelar sinais de desespero. Em todo o mundo perguntam-se as pessoas: não haverá sequer um ponto de contacto, ao menos um único assunto sobre o qual as religiões do livro — judaísmo, cristianismo e islamismo — estejam de acordo? Ao contrário do que poderia parecer, há uma esperança de concórdia, muito simples por sinal. Resume-se numa palavra: homossexuais.

Conforme noticiou a imprensa desta semana, todos os líderes religiosos de Jerusalém condenaram a possibilidade de passar pelas ruas da “cidade santa” uma marcha de homossexuais. Houve protestos unânimes de rabinos, imãs e xeiques; padres católicos, coptas e ortodoxos; líderes xíitas, sunitas e sufitas; judeus hasídicos, sefarditas e ashkenazitas.

Mais de cinquenta líderes religiosos de todas estas e outras comunidades demonstraram uma invulgar unidade numa visita conjunta ao knesset, o parlamento israelita, cujo único objectivo foi exigir aos deputados que impedissem os homossexuais de marchar por Jerusalém. Os líderes religiosos palestinianos, que não podem entrar em Israel, telefonaram para o knesset para manifestar solenemente o seu apoio ao protesto dos congéneres israelitas.

Por uma vez, deve ter sido divertido ver toda esta gente competir pelo prémio da maior barbaridade dita na ocasião. Os representantes de três organizações cristãs descreverem a possibilidade da marcha homossexual como “um acto de confronto, provocação e ofensa contra todos os que aderem às intemporais normas morais bíblicas”. O severo rabino Yehuda Levin subiu a parada: “prometo-vos que correrá sangue — e não somente naquele dia, mas por meses ainda a vir”. O xeique Ibrahim Sarsur não se deixou ficar: “este é um ataque mais venenoso do que os ataques dos sionistas... se os gays ousarem aproximar-se do Monte do Templo, terão de fazê-lo por cima dos nossos cadáveres”, embora tenha tido o cuidado de esclarecer que a homossexualidade “é um problema que não existe na sociedade muçulmana” — precisão que, segundo os relatos, provocou uma onda de riso no parlamento.

Por absurdo que possa parecer numa região onde renasce agora um conflito sem fim à vista, num país cujo exército voltou a ocupar a Faixa de Gaza menos de um ano após a retirada, provocando umas dezenas de mortos pelo caminho, num momento em que os sequestros de soldados se repetem e já se bombardeia o território de países vizinhos — nesta parte do mundo onde a violência e a morte campeiam, aquilo que mais preocupa os líderes religiosos é a possibilidade de homens que gostam de homens e mulheres que gostam de mulheres marcharem pelas ruas de Jerusalém pedindo direitos iguais às pessoas que preferem o sexo oposto, ou às que não preferem sexo nenhum.

A “abominação” da homossexualidade conseguiu junto dos líderes religiosos aquilo que a verdadeira abominação das matanças recíprocas, ocorrendo diariamente sob os piedosos olhos destes mesmos homens, nunca teve força para os levar a fazer. Um deputado ultra-ortodoxo, membro do partido “Judaísmo da Torá Unida”, até se lembrou de propor um arranjo: caso o parlamento proibisse a marcha homossexual, tentaria convencer a nova coligação entre líderes judeus, cristãos e muçulmanos a “promover a paz e a fraternidade em Israel”. Quem diria? Congratulemos então os homossexuais pelo nascimento involuntário desta singela ideia de que talvez os religiosos possam vir a fazer qualquer coisinha pela “paz e a fraternidade em Israel”.

Não se vê, para já, grande resultado. Num bairro de Jerusalém conhecido pela estrita observância do judaísmo foram distribuídos folhetos apelando à morte dos homossexuais. Há duvidas sobre se estes folhetos foram produzidos no próprio bairro ou se são obra de colonos da Cisjordânia a quem não bastam os seus próprios problemas. Do que eu não tenho dúvidas, porém, é que quem apela ao assassinato dos homossexuais só pode se gente de pouca fé. Se tivessem fé verdadeira deixariam esse trabalho para as mãos de Deus, como explicou um clérigo sufi, ramo do Islão conhecido pelo seu carácter contemplativo: “Jerusalém transformar-se-á em Sodoma, e Deus aniquilá-los-á naquele lugar”.

Até aos dias de hoje só tínhamos visto judeus e cristãos concordar na sua antipatia pelos muçulmanos; muçulmanos e judeus juntos na sua desconfiança dos cristãos; cristãos e muçulmanos revezando se no ódio mortal aos judeus. Mas agora vemos até o rabino-mor sefardita, Shlomo Amar, escrever ao papa católico-romano Bento XVI pedindo-lhe que intervenha para impedir a marcha homossexual em Jerusalém. Shlomo Amar deve provavelmente estar impressionado com a recente visita do papa a Valência, onde Ratzinger veio defender a exclusividade do modelo heterossexual de família (na sua qualidade de não-praticante, como é evidente).

No entanto, a única coisa que a visita do papa a Valência significa é o seguinte: mesmo num país tão católico como a Espanha, Ratzinger já perdeu. Ainda há um ano o porta-voz do Vaticano para a família, Cardeal Trujillo, apelava à desobediência civil dos funcionários públicos espanhóis. Sem resultado. Passado um ano, políticos do conservador Partido Popular já celebraram matrimónios homossexuais, já houve até o primeiro divórcio gay. Ninguém se incomoda e a vida segue como dantes. Que pode Ratzinger fazer? Discursar. No tempo longo das relações entre Estado e Igreja na Península Ibérica, a única coisa que impressiona é a facilidade com que hoje um político com um mandato claro e o casamento homossexual no programa com que venceu as eleições pode fazer passar a medida num país como a Espanha. E Portugal não é diferente.

julho 15, 2006

Domingo no Nimas

LISBOETAS, de Sérgio Tréfaut, entra na sua última semana de exibição em Lisboa, depois de três meses no cinema King. Para assinalar o maior sucesso de sempre de um documentário português estreado nos cinemas, a Atalanta Filmes organiza uma sessão especial com a presença do realizador, de Rui Tavares e de Pedro Mexia. Dia 16, Domingo, às 19 horas, no Cinema Nimas, em Lisboa.

julho 10, 2006

Pedir demais

[do Público de 8 de Junho 2006]

O problema não está nas coisas em que os partidos de esquerda divergem. Está naquelas em que eles convergem.

A semana passada escrevi sobre os atavismos da nossa direita e o que tive a dizer não foi simpático. A direita portuguesa, mesmo nos seus melhores exemplos, tem aquela lusitana e velha tendência para a arrogância social, a hipocrisia e o autoritarismo. Mas a nossa esquerda tem também os seus atavismos e, uma vez que sou de esquerda, sinto a obrigação de ser ainda menos simpático. Na verdade, nem é por obrigação. É por impaciência: são já demasiados anos a aturar o dogmatismo, a irresponsabilidade e a velhacaria entre partidos de esquerda.

Desejo esclarecer que aquilo que eu deploro não é a diferença entre os partidos de esquerda. Bem pelo contrário. O PCP é um partido revolucionário e marxista-leninista, o BE é um saco de gatos anti-capitalistas com medo do poder e o PS é um saco de gatos com gosto pelo poder e uma espécie de ideologia extremista da moderação. Na medida em que há opção e variedade, nada disto me incomoda.

Só que o problema não está nas coisas em que os partidos de esquerda divergem. Está naquelas em que eles convergem. Para provar cabalmente esta asserção, consideremos o caso do aborto.


Vamos começar, às avessas, pela direita. A direita tem, no debate do aborto, enormes diferenças: há quem considere que matar um feto indefeso é pior do que matar um adulto, há quem não admita excepções à condenação do aborto nem para casos de violação e incesto, há quem ache que a actual lei é equilibrada e é para ser aplicada, há quem pense que a lei se deve manter mas que as mulheres não devem ser condenadas, há quem fale numa moratória para as condenações, há quem diga que o problema está na regulamentação da lei, há quem lembre que a lei espanhola é quase igual à nossa e permite o aborto e, finalmente, há quem concorde em mudar a lei.

Para piorar a situação da direita, esta semana implodiu uma das últimas ilusões que seguravam este campo: a de que não havia mulheres condenadas à prisão por aborto. Esta sempre foi uma intrujice ridícula, aguentada com cuspo pela boa vontade e humanitarismo de alguns juízes. Mas agora caiu por terra definitivamente. Há mulheres que foram perseguidas policialmente pelo estado, obrigadas a fazer exames médicos humilhantes num dos momentos mais difíceis das suas vidas, arrastadas para o martírio dos tribunais e finalmente condenadas a prisão. O facto de a pena ter sido suspensa significa zero: se a lei não muda, teremos mulheres na cadeia por terem abortado.

Quem é pró-lei tem de reconhecer que é também pró-prisão. E terá de responder a perguntas como estas:

“Dr. Paulo Portas, o senhor e o seu partido têm dito repetidamente que consideram a actual lei equilibrada. Considera que, quando se condenaram aquelas mulheres a penas de prisão, foi feita justiça?”

“Dr. Marques Mendes, o senhor e o seu partido têm dado a entender que este assunto não é relevante para a sociedade portuguesa. Devemos então depreender que não perde o seu sono com a probabilidade de ver mulheres na prisão por terem abortado?”

“Excelentíssimos senhores dos movimentos pró-vida, excelentíssimos senhores párocos de Lordelo do Ouro e da Igreja da Encarnação, excelentíssimo Sr. Padre Serras Pereira, excelentíssimo Sr. Dr. João César das Neves: vossas excelências têm comparado o aborto de um feto de poucas semanas ao infanticídio de uma criança já nascida e crescida. Contamos então com vossas excelências para lamentar a leveza desta condenação e exigir que estas mulheres sejam sujeitas a prisão efectiva de, no mínimo, dez a quinze anos?”

Voltemo-nos agora, finalmente, para a esquerda: nesta questão concreta, não lhe encontraremos grandes diferenças. Toda a esquerda acha que a lei portuguesa abre a porta a uma perseguição injusta, imoral e iníqua. Toda a esquerda considera que o aborto não deve ser considerado crime. Toda a esquerda propõe como solução uma nova lei, e não tem diferenças de maior entre as suas propostas.

Um marciano acabado de chegar a este país poderia achar que está tudo bem à esquerda e tudo mal à direita. Portugal, porém, é mais excêntrico e curioso do que Marte. Ninguém parece confrontar Paulo Portas, Marques Mendes e os talibãs do catolicismo com os efeitos da lei que apoiam. Contudo, se olharmos à esquerda, veremos uma batatada permanente sobre questões de método, sobre a legitimidade do referendo, sobre a acção do parlamento. Tudo discussões interessantíssimas para quem conseguir interessar-se por elas durante mais de cinco minutos. Mas que esquecem o essencial: vai mesmo haver referendo e, quando houver, vai ser preciso ganhá-lo.

A questão do aborto é um espinho atravessado na consciência do povo de esquerda. O mínimo que esse povo pede aos partidos em quem vai mais ou menos votando, com convicção ou sem ela, é o seguinte: que se coordenem entre si e com as organizações que têm trabalhado nesta área, que criem uma estrutura de campanha com objectivos bem definidos, que a abram aos interessados individuais, e que a extingam no dia a seguir ao referendo.

O problema é que até pedir o mínimo é, com os partidos que temos, pedir demais.

julho 03, 2006

TS Ronaldo

Há ingleses que andam lixados por causa de Portugal ter eliminado a Inglaterra do Mundial de futebol, no último Sábado. Para eles, o momento crucial do jogo foi a expulsão de Wayne Rooney, a expulsão de Wayne Rooney aconteceu por culpa dos portugueses e tudo está provado numa piscadela de olho ["a wink"] de Cristiano Ronaldo que ficou registada por uma câmara. Neste artigo do The Guardian já foram publicados mais de 800 comentários sobre o tal diabólico wink.

Já lá fui deixar, sob pseudónimo, a minha posta de pescada. Basicamente, o Cristiano Ronaldo fez foi reescrever o célebre final de The Hollow Men, de TS Eliot, que agora passa a ser assim:

This is the way the World Cup ends,
This is the way the World Cup ends,
This is the way the World Cup ends.

Not with a bang but a wink.

Não há "Portugal profundo"

[do Público de 1 de Junho]

A explicação do “país profundo” é sedutora e útil: permite-nos varrer para debaixo desse tapete um monte de coisas embaraçosas. Mas é falsa e não resiste a um olhar mais atento.

Esta semana andámos entretidos com a notícia de que Fernando Ruas, Presidente da Câmara de Viseu, incitara os seus concidadãos a “correr à pedrada” os inspectores do ambiente, insistindo que estava a “medir bem as palavras”. Confrontado com a gravação feita na ocasião, Fernando Ruas não se atrapalhou e disse que apesar de “bem medidas”, as suas palavras não eram “para levar à letra”. “Também aqui na zona se utiliza ‘chegar fogo ao rabo’ e ‘uma corrida em pêlo’”, disse Ruas ao Diário de Notícias, “o importante é o significado”.

Qual será, então, o significado? As leituras nos media inscrevem-se na velha tradição do “Portugal profundo”, ou seja, a ideia de que coexistem dois países neste rectângulo, um deles sofisticado e o outro troglodita. Esta dicotomia aparece bem clara na ilustração que um dos melhores cartunistas nacionais, Bandeira, fez publicar no mesmo Diário de Notícias: sob a legenda “no país da banda larga”, vê-se um Fernando Ruas ainda na Idade da Pedra. Para um historiador, isto evoca irresistivelmente os nossos debates: é suposto que o reino fosse muito centralizado, mas na verdade os corregedores da coroa andavam muitas vezes corridos à pedrada (e à bosta...) por esse país afora.

A explicação do “país profundo” é sedutora e útil: permite-nos varrer para debaixo desse tapete um monte de coisas embaraçosas. Mas é falsa e não resiste a um olhar mais atento. Vejamos.


Em primeiro lugar: Fernando Ruas, eleito pelo PSD para Viseu e pelos seus colegas autarcas para presidente da Associação Nacional de Municípios, não é nenhum troglodita. Pelo contrário, é homem de muitos talentos: além de bom comediante, tem conhecimentos de etnografia e lexicografia (como se vê por aquele princípio de recolha de expressões idiomáticas populares), e ainda dá aulas de hermenêutica a quem o entrevistar, tudo isto polvilhado com a desenvoltura imprescindível a quem quer singrar na política.

Em segundo lugar, e mais importante: Fernando Ruas não está sozinho.

Não está sozinho na questão do ambiente. Emerge uma corrente de opinião segundo a qual a preservação é um obstáculo ao desenvolvimento económico do país. O Público de quinta-feira passada citava as opiniões de dois representantes da nossa direita instruída e urbana, Basílio Horta e Francisco Van Zeller. Para o primeiro, presidente da Agência Portuguesa para o Investimento, “vamos ter um problema sério” se não pudermos emitir mais dióxido de carbono e se não pudermos construir mais em áreas protegidas. Por pura curiosidade, eu gostaria que emitíssemos dióxido de carbono e construíssemos à vontade, apenas para saber qual seria depois o novo “problema sério” que justificaria então, depois de estragado o país, o atraso económico persistente.

Tampouco está sozinho entre os autarcas deste país. Em eleições recentes, houve esperanças, baseadas em sinais isolados, de que começasse a aparecer uma geração de governantes de seriedade impecável. Duas notícias do Público de ontem sugerem que ainda há um caminho longo a percorrer, mesmo nas únicas cidades que não pertenceriam ao “Portugal profundo”, Lisboa e Porto.

No Porto, rapidamente caíram por terra as ilusões sobre Rui Rio. A condenação que obteve de um colunista deste jornal, Augusto M. Seabra, pelo “insulto” de lhe ter chamado “energúmeno”, deixa uma mensagem clara aos potenciais críticos: não se metam com este homem.

A notícia que agora chega não desmente esta ideia. A Câmara Municipal do Porto passou a incluir nos contratos dos subsídios que atribui uma cláusula que obriga a outra parte a “abster-se de, publicamente, expressar críticas que ponham em causa o bom-nome e a imagem do município do Porto, enquanto entidade co-financiadora da actividade da sua representada”. Esta passagem revela um problema com as palavras, mesmo a um nível básico: os juristas da Câmara do Porto deveriam saber que não se “expressam críticas” mas sim que se exprimem críticas. Por outro lado, embora uma primeira leitura dê a ideia de que é a imagem do “município do Porto” que não pode ser criticada (o que já seria grave), acrescenta-se depois que se trata do município “enquanto entidade co-financiadora”, deixando a impressão muito desagradável de que certas palavras ou certos silêncios devem vir agarrados ao dinheiro e sujeitos às conveniências da fonte desse dinheiro.

Acontece que a fonte desse dinheiro não é o bolso de Rui Rio, mas sim o dos portugueses e dos portuenses em particular. E, independentemente da diversidade de opiniões sobre a vantagem de dar subsídios, uma coisa em que todos os cidadãos estão de acordo é que esses subsídios não devem servir para lhes retirar direitos que a constituição concede.

De Lisboa chegam notícias igualmente desanimadoras. Maria José Nogueira Pinto, vereadora eleita pelo CDS/PP, tentou excluir os imigrantes do acesso a um projecto de habitação promovido pela Câmara Municipal. A razão invocada foi a de que aquele empreendimento em particular, na freguesia da Ajuda, seria para uma “pequena burguesia urbana” e não para “o imigrante e o pé rapado”. A metáfora que encontrou para justificar a sua ideia fala por si: “isto não é uma fruteira onde se possam meter bananas, maçãs e laranjas e dizer que está tudo bem”.

Aparentemente, Nogueira Pinto não prevê a hipótese de haver imigrantes que não sejam pés-rapados: espanhóis que são médicos e enfermeiros, brasileiros que são publicitários e dentistas. Os “imigrantes de qualidade” de que tanto fala o partido da vereadora devem ter uma enorme vontade de viver numa cidade onde são comparados a fruta distribuída criteriosamente pelo poder político, em vez de irem para uma dessas capitais cujo modelo de desenvolvimento passam precisamente por atraírem estrangeiros. Perante os protestos da oposição, Nogueira Pinto desistiu e fez “um mea culpa: não deveria ter apresentado uma proposta inconstitucional”. Reparem: não uma proposta iníqua, nem discriminatória; por casualidade, meramente inconstitucional.

Como se vê, não é só Viseu que representa o “Portugal profundo”. As profundezas andam bem distribuídas; é até com uma surpreendente facilidade que, na nossa direita, chegam à superfície.