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junho 26, 2006

No olho da rua

[do Público de 24 de Junho 2006]

Já fui despedido. Chamaram-me para uma reunião no meio das férias. Não me tinham dito para que era aquilo. Podia até ser uma “coisa boa”, estava na altura de entrar “para o quadro”. Havia um ano novo para preparar e as minhas avaliações tinham sido boas. Quem sabe até se não viria ali uma promoção? Cheguei recapitulando mentalmente o meu desempenho. A gestora chamou-me pelo nome de outro colega e começou por me explicar como tinha dormido mal a noite, como andava tensa, como lhe custava fazer aquilo — e aí eu já só pensava em abreviar-lhe o sofrimento, reconhecer que me encontrava sem emprego, e sair porta fora. Por dentro contestei que ela continuaria dormindo mal, mas com emprego certo. Quando abri a boca foi para perguntar, num fio de voz, o que tinha eu feito mal. Nada, disse-me; tinham simplesmente de despedir gente. Eu era mais fácil de despedir — eu e todos os que não estavam “no quadro”. Na verdade eu nem estava exactamente a ser despedido, uma vez que sempre estivera “a recibos verdes”. Aliás, já era uma delicadeza informarem-me da nova situação; noutros casos de colaboradores menos leais acontecia voltarem de férias e simplesmente não terem trabalho.

Cá fora, no olho da rua, caminhei muito devagarinho. Tinha os pulmões sem ar e uma tontura na cabeça. O que dizer em casa? Como fazer agora?

Ser despedido é um elemento central da consciência contemporânea.

A experiência de ser despedido, o medo de ser despedido, a possibilidade de ser despedido, a vergonha de ter sido despedido: as declinações são numerosas. Como trauma dominante, real ou pressentido, só tem par na experiência do divórcio. Mas ao contrário deste, que é digerido incessantemente pela literatura e pelo cinema, o trauma do despedimento encontra pouco escape cultural. Nos debates sociais da TV, gente de sucesso fala francamente dos seus divórcios: “não deu certo”, esclarecem. Mas o despedimento não permite esta leveza. As pessoas não respondem às outras “não deu certo”; remordem sozinhas “porque falhei?”

Tal como o divórcio e ao contrário das experiências colectivas como a escola (ou outrora o serviço militar), o desemprego atomiza as pessoas. Comigo foram despedidos vários outros — os que estavam “a recibos verdes” — mas eu não sei quem eram, não os conheço e tampouco isto é assunto de conversa que se tenha. O despedimento é o pecado original. Eu mesmo me perguntei se poderia escrever aqui que fora despedido. O que pensarão os potenciais empregadores? Não haverá algo de errado com quem já foi despedido?

Por estas semanas em Portugal, este monte Calvário ganhou o nome e a localização de Azambuja — onde a General Motors ameaça fechar a sua fábrica da Opel Portugal. Essa decisão terá efeitos de uma tal dimensão que todo o país se sente, de certa forma, despedido. E, em consequência, o país pergunta “porque falhou”.

Aqui entram em acção as lógicas circulares do discurso a que se convencionou chamar de “neoliberal”. As respostas que ele dá, contudo, trazem pouca novidade e não têm a dignidade do pensamento liberal; quando muito, limitam-se a justificar apenas uma espécie de habituação acrítica à acção “das empresas”, detentoras de um poder caprichoso e arbitrário tão mágico e intangível como em tempos foi o dos senhores feudais. Este é “o preço que Portugal paga à globalização”, nas palavras de Basílio Horta. Mas esta explicação explica bem pouca coisa, não é verdade? É vulgarmente subentendido que o preço que Portugal paga à globalização é que os empregos fujam para onde há salários mais baixos. Mas a Opel Portugal vai fugir para Espanha, onde os salários são mais altos. É também dito que Portugal tem o problema grave de “aqui ser difícil despedir gente”. Porém e pelos vistos, isso não mete medo à General Motors.

O discurso dominante usa justificações tão iguais para coisas tão opostas que se torna imprestável. O “preço que Portugal paga à globalização” de Basílio Horta é como o preço que os cônjuges pagavam ao casamento na época vitoriana: era para toda a vida e o marido deveria ser agarrado e mantido estoicamente pela esposa. Se no casamento é comum os cônjuges atirarem as culpas, aqui o culpado já está encontrado: Portugal não soube agarrar e manter a GM. Portugal é pouco atractivo, é pouco competitivo, é pouco prendado. Como qualquer abandonado, Portugal mergulha em mais uma das suas fossas de auto-crítica.

Todos se perguntam, pois, qual é o problema de Portugal. Ninguém se pergunta qual é o problema da GM. O nosso Ministro da Economia diz que a GM “está a viver um momento difícil”. Tem de reduzir os custos em 30% — porque foi mal gerida — mas por um daqueles mistérios da fé nunca se ouviu uma GM em dificuldades dizer “vamos baixar os salários dos nossos administradores e executivos”, seria ridículo. Tem de despedir 30 mil trabalhadores, que poderiam ser de Azambuja como de outro lugar qualquer (que agora se estaria a perguntar sobre a sua falta de competitividade).

Sejamos compreensivos com a GM. Ela está lá longe com o seu “momento difícil”; para falar a verdade, nós nem sabemos bem quem a GM é. Os donos da GM são os seus accionistas. Mas eles não são juridicamente responsáveis pela conduta da GM; verão apenas baixar o valor das suas acções, isto se as quiserem manter. Acima de tudo, o fio que os une aos seus trabalhadores da Azambuja é ténue, remoto e, para falar a verdade, interrompido por uma ficção jurídica. Que, como tantas coisas de que o discurso “neoliberal” depende, não tem nada a ver com mercado livre. É completamente artificial: uma pura concessão do Estado.

junho 21, 2006

Blogues [de amigos]

No Caderno de Verão juntam-se o António Figueira, o Ivan Nunes, a Joana Amaral Dias e o Nuno Ramos de Almeida. Se eu este ano tivesse Verão que se visse, era rapaz para me juntar a esta talentosa equipa de vólei de praia. Para já, confiram o forte serviço do António Figueira — o rapaz está em forma!

N'O Avesso do Avesso, o Filipe Moura (a quem aproveito para mandar um abraço) faz referência simpática a este blogue, mas obriga-me a um esclarecimento sobre o subtítulo aqui aqui do botequim.

Este "Melhor dos Blogues Possíveis de Rui Tavares" é inspirado no Professor Pangloss do Cândido de Voltaire, e é uma forma ínvia de fazer publicidade à minha tradução. E precisa de um bocadinho de teoria dos grupos para ser decifrado. Este blogue não é

[O Melhor dos Blogues Possíveis] de Rui Tavares
mas
O Melhor [dos blogues Possíveis de Rui Tavares]

Ou seja: é, muito portuguêsmente, o melhorzinho que consigo arranjar de momento. Melhores tempos virão.

junho 19, 2006

A Mãe de Bragança

Foi então que compreendi: Pacheco Pereira tem ciúmes do futebol. Tal como as Mães de Bragança, é mais forte do que ele; não consegue deixar de falar no motivo do seu tormento.

Fascinou-me, aqui há uns anos, aquela organização que deu a si mesma o nome de “Mães de Bragança”. Nome enganoso, diga-se. As fundadoras do movimento apresentavam-se como mães mas, na realidade, era como esposas que se indignavam. Os seus maridos, diziam, andavam enlouquecidos pelas casas de alterne da região. Mulheres estranhas faziam-nos gastar o dinheiro que não tinham. A obsessão deixava os homens irreconhecíveis e, por vezes, até motivava uma pergunta: haveria feitiço? talvez droga nas bebidas?

Portugal, que raramente dá notícias ao mundo, encheu páginas de jornal com esta história pungente de mulheres assarapantadas por realidades que não dominavam. Como não havia ali nada de propriamente novo, justificou-se a atenção com diagnósticos sobre a globalização, o mercado livre, o fast food dos afectos. Mas lá no fundo era de ciúme, do antiquíssimo ciúme que se tratava. E como já todos sentimos ciúme, todos simpatizámos com aquelas mulheres a um nível humano e fundamental.

Confesso que é mais ou menos da mesma forma que tenho andado fascinado, nas últimas semanas, com Pacheco Pereira.

Este homem, habitualmente sisudo e grave, parece igualmente assarapantado com o Mundial de Futebol. Já não compreende Portugal mas, de repente, acha que o compreende até bem demais. Portugal perdeu a cabeça: “O País está aos saltos, doente de futebol: subitamente, Portugal no lugar da cabeça pôs uma bola”, disse Pacheco Pereira na televisão, repetindo o que no mês anterior já dissera no blogue, no jornal e na revista.

No início, senti alguma dificuldade em compreender o meu fascínio, desde logo porque eu concordo com Pacheco Pereira. Até o mais fanático torcedor da selecção fica enjoado com o excesso da “cobertura” do Mundial. Eu, que gosto de futebol, tento preservar-me só ligando a TV na hora do jogo. E — até hoje! — tentei preservar-vos a vós, leitores, não escrevendo sobre o assunto. Ai de mim: esforcei-me para não acrescentar conversa sobre futebol ao futebol, fazendo modestamente a minha barragem à sua omnipresença asfixiante.

Foi isso, aliás, que me fez desconfiar. Como se explicava que um homem precavido desse tanto espaço a um tema que já tem espaço demais? Foi então que compreendi: Pacheco Pereira tem ciúmes do futebol. Tal como as Mães de Bragança, é mais forte do que ele; não consegue deixar de falar no motivo do seu tormento.

E eu, que já senti ciúmes, simpatizei com ele. É próprio do intelectual e colunista querer que o público o acompanhe nas suas oscilações. Como escreveu uma vez Ricardo Araújo Pereira, o mais estimulante em Pacheco Pereira é mesmo “aquela compulsão para dizer o contrário do que o resto do mundo estiver a dizer na altura. Se houver muita gente indignada, Pacheco Pereira apela à serenidade. Se houver serenidade, Pacheco Pereira apela à indignação.” O nosso problema é que, com um mês inteiro de futebol, ninguém liga nenhuma à nossa indignação e assim é impossível a Pacheco Pereira manter a serenidade.

Às vezes uma pessoa desanima, e é aí que escreve no blogue, como escreveu Pacheco Pereira: “Saltem muito, é o que vos desejo. A sério, saltem, saltem, pode vir daí uma desorganização das ideias que seja salutar à Pátria. Duvido, mas não excluo nenhum milagre.” Pior ainda: às vezes achamos que o problema é só nosso. E aí verbalizamos, como Pacheco Pereira na televisão: “nenhum país tem a vida pública tão dominada pelo futebol como Portugal”.

Bem nos poderiam dizer que na Holanda e na Itália é igual, que em Inglaterra e no Brasil é pior. Também as mães de Bragança, até terem ganho consciência de classe, achavam que só elas eram infelizes e que nenhuma tinha um marido pior. Também elas desanimaram e os incitaram a sair de casa e prometeram mudar a fechadura (e escreve-se no blogue: “Ah! minha bela Futebolândia! Segue o exemplo do Montenegro e torna-te independente. Leva a televisão, a rádio e os jornais...”). E depois lhes pediram que afinal não fossem, lembrando que eram vãos aqueles prazeres que procuravam: “a glória anunciada do escapismo futebolístico, que nos vai encher as casas nos próximos meses, com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma”, como escreveu Pacheco Pereira aqui no Público.

Também elas usaram os filhos para convencer os maridos. Como escreveu Pacheco Pereira na Sábado: “Alguém vai pagar a conta: os nossos filhos que tanto estimamos e de cujo infinito carinho por eles nunca permitiríamos que alguém duvidasse lá estarão a pagar a prazo a festa de todas estas férias, de todos estes feriados, de todo este Algarve, de todos estes ecrãs de plasma gigantes, de todo este futebol fandango.” Eis a Mãe de Bragança tentando chegar a Velho do Restelo: subitamente, o problema já não é só o futebol. É tudo. Os passeios nos feriados, as férias no Algarve, o povo que vai para a praia quando está calor.

O meu fascínio mantém-se, portanto. Apenas atenuado quando vejo Pacheco Pereira começar a duvidar de si mesmo: “Eu não tenho jeito para calvinista e admoestador dos costumes alheios”, escreveu na Sábado. Não se menospreze, homem. Usando linguagem futebolística, dir-se-ia: é um calvinista e admoestador já com alguma experiência mas que ainda tem margem de progressão.

junho 12, 2006

O que há numa data

[do Público, 10 de Junho 2006]

A estupidez do racista não é uma estupidez qualquer. É uma estupidez monumental: tem escadaria e dez quartos-de-banho, dá muito trabalho a manter. Qualquer distracção e poderia ficar-se mais inteligente.

Passam hoje onze anos sobre o assassinato de um português mulato, Alcino Monteiro, às mãos de um bando de racistas.

É hábito da imprensa descrever Alcino Monteiro como “cidadão cabo-verdiano”. Isto é incorrecto. Alcino Monteiro era cidadão português, por naturalização, com Bilhete de Identidade e até serviço militar feito nas Forças Armadas deste país. Outras vezes aparece descrito como “de origem cabo-verdiana”, e fica insinuado que foi esta a motivação do assassinato de que foi vítima. Mas não foi por ser “de origem cabo-verdiana” que mataram Alcino Monteiro: se ele fosse cabo-verdiano e branco não lhe teriam tocado. Alcino Monteiro era português e foi assassinado por outros portugueses que não gostavam da cor da sua pele.


Desde que Alcino Monteiro foi assassinado que a imprensa não consegue acertar num facto simples como este. Quando se esconde a motivação do crime por detrás de eufemismos como “origem cabo-verdiana” ou “cidadão cabo-verdiano”, não só a informação vai errada como se está a espoliar uma vítima da nacionalidade que ganhou com trabalho e esforço. É uma reviravolta com tons de injustiça. Cheguei a ver um artigo em que Alcino Monteiro era descrito como “cidadão cabo-verdiano” ser ilustrado pela foto de um dos seus documentos, onde se lia: “República Portuguesa – Bilhete de Identidade de Cidadão Nacional”. Ou seja, Alcino Monteiro era tão português como, provavelmente, o jornalista que escrevia o artigo e que nem com o documento à frente dos olhos conseguia vencer a força do preconceito — se tem a pele escura — se tem sotaque — então não pode ser bem português.

Nesta semana apareceu na televisão um dos assassinos de Alcino Monteiro. Os tribunais provaram que no dia 10 de Junho de 1995 aquele homem, de seu nome Mário Machado, correu em bando pelo centro de Lisboa pondo em prática a definição do “crime de ódio” que alguns insistem que não existe: atacar, espancar e molestar exclusivamente negros e mulatos, deixando em paz os brancos.

Mário Machado diz que tem “orgulho em ser português”. Mas, ao contrário de Alcino Monteiro, não fez o menor esforço para tal. Diz que tem “orgulho em ser branco”. Tal como Alcino, Mário não tem a menor responsabilidade na sua cor de pele; isso não impediu Mário e outros de espancar Alcino até à morte.

Há quem diga que Mário Machado é apenas dono de uma enorme estupidez. É muito difícil contrariar tal conclusão quando o próprio mostra à TV uma arma que, com o seu cadastro, não pode possuir, diz que tem licença de caça mas que tenciona usá-la nas ruas, e depois explica que a arma, que sempre refere como sendo sua, está em nome da mulher. Até o mais sonolento dos juízes desmonta esta fraude mal amanhada.
Na reportagem, um dos seus comparsas define ainda melhor a coisa: “há gajos que sabem cantar”, afirma, “eu não sei cantar, só sei andar à porrada”. Quando não se sabe nada de nada, resta o racismo.

Conceda-se, no entanto, que a estupidez do racista não é uma estupidez qualquer. É uma estupidez monumental: tem escadaria e dez quartos-de-banho, dá muito trabalho a manter. Qualquer distracção e poderia ficar-se mais inteligente. Logo, há que estar sempre alerta: a estupidez tem de ser mantida a todo o custo, isolada e protegida pela estupidez de outros iguais a ele. Para isso é preciso, até, uma certa dose de esperteza: para esconder ou mostrar as tatuagens da suástica no momento certo, para aproveitar a TV esperando que outros cometam os crimes por ele, para fundar pseudo-partidos com organizações para-militares escondidas, para contar com a complacência da sociedade.

Hoje é ainda data de outro aniversário. Dez anos depois do assassinato de Alcino Monteiro, a mesma imprensa que ainda não conseguiu acertar na nacionalidade da vítima, e que usa de eufemismos para falar da motivação do crime, foi rapidíssima a noticiar um arrastão que não aconteceu. Aí, a cor da pele estava já por todo o lado, até onde o seu valor como informação era igual a zero. Num debate organizado anteontem sobre este assunto (ver Público, secção Media, de ontem) o director de informação da Lusa contou que as imagens de Carcavelos foram recebidas nas redacções “com muita euforia” e noticiadas de imediato, sem confirmação, apesar de “apenas com muita imaginação se poder ver ali um arrastão”. Estas notícias deram uma oportunidade de ouro aos racistas como Mário Machado para saírem da toca, passados dez anos, e organizarem pela primeira vez manifestações que ainda um dia vão acabar mal. Nas palavras de Joaquim Fidalgo, moderador do debate, “os jornalistas erraram e não pediram desculpa”.

São, na verdade, muito densos e contraditórios os sentidos acumulados sobre o 10 de Junho, desde que começou a ser comemorado como data da morte de Luís de Camões. Dá que pensar, mas é melhor que os nossos racistas não se metam nisso. Camões é um símbolo do amor à pátria que só poderia deixá-los humilhados. Afinal, é um desses gajos que “sabia cantar”: era culto e viajado, gostava de poesia e sabia escrevê-la como ninguém, tinha tudo o que eles não têm. Se as crónicas não erram, morreu há exactamente 426 anos. Velado pelo seu mais fiel amigo, o único capaz de o acompanhar literalmente desde o outro lado do mundo, e a quem chamavam Jau, talvez por ser da ilha de Java. Era um estrangeiro e imigrante, portanto, o melhor amigo de Camões. E uma coisa é certa — não era branco.

junho 07, 2006

Futlit: Itália

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A Itália joga em catenaccio (e não catennacio como escrevi antes), que quer dizer literalmente "cadeado". é um sistema ultra-defensivo que se destina a ganhar jogos por 1-0, em contra-ataque. embora a itália já não pratique verdadeiro catenaccio, continua a ter um futebol defensivo, e é ainda pelo catenaccio que é conhecida. os italianos defendem-se dizendo que defender também é jogar.

O catenaccio é 1-4-3-2 . Aquele "1" da primeira linha é uma característica peculiar: trata-se do líbero, um jogador que joga atrás dos restantes defesas e que tem duas funções: 1) ir à dobra, ou seja, apanhar bolas que o defesa falhou em interceptar e 2) fazer jogo táctico, colocando os avançados adversários em fora-de-jogo.

GUARDA-REDES Brunelleschi: o único arquitecto da equipa, o construtor da catedral de Florençå tem os ângulos todos na cabeça, vê o jogo em perspectiva, tem a noção de escala e o golpe de vista, tira as bissectrizes e prevê as elipses. Não há trompe-l'oeil que o engane. O seu substituto pode ser Leone Battista Alberti, historiador da arte e da arquitectura.

DEFESA

líbero: atrás da defesa joga Andrea del Verrochio, o famoso professor de Leonardo. Está aqui por homofonia: uma vez que o líbero é o ferrolho do cadeado, o nosso pintor será o Verrochio do catenaccio.

quarteto defensivo: os dois centrais vêm do pré-renascimento. Giotto, o mais velho desta equipa, um jogador revolucionário no seu tempo e sempre um valor seguro. Tal como o seu companheiro Piero della Francesca, temos aqui dois jogadores um pouco estáticos e lentos, mas de técnica muito completa.

os dois laterais têm de ser muito móveis e correr ao longo das linhas para apoiar o contra-ataque. em jargão futebolístico, chama-se jogar verticalmente. Ora, em verticalidade não há melhor do que Sandro Botticelli, lateral esquerdo, e Andrea Mantegna, lateral direito. Utilizemos aqui imagens dos seus quadros mais conhecidos, O Nascimento de Venus e São Sebastião, respectivamente, para vermos a importância das linhas verticais na pintura de ambos. EM O Calvário, de MAntegna, [ http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/mantegna/calvary.jpg ] as linhas são tão verticais que quase não há espaço para a cabeça dos crucificados.

MEIO CAMPO

Os médios defensivos (na prática, sete dos dez jogadores de campo no catenaccio são defensivos) são um par de venezianos, Ticiano e Tintoretto, ambos já do renascimento pleno do século XVI, com um jogo voluptuoso, redondo, generoso e abundante. Fantasiosos, capazes de rasgos dramáticos, embora por vezes pouco objectivos e algo maneiristas e até barrocos.

O médio ofensivo ou play-maker é, só poderia ser, Leonardo, um dos maiores de todos os tempos, e cujo valor no mercado não para de subir. Não só é um jogador imaginativo, pleno de cor e volume [mostre-se a a Virgem com o Menino e Santa Ana], como tem um bom desenho de jogo [mostra-se o famoso desenho do homem vitruviano]. Tão depressa é um artista como um engenheiro; sabemos como a polivalência é um valor cada vez mais respeitado no futebol actual.

FRENTE Na frente um par de jogadores indiscutíveis, jogando lado a lado, os melhores tecnicistas da sua geração. Cada um tem os seus admiradores; saber qual é o melhor leva os adeptos a polémicas intermináveis nos bares italianos. A familiaridade é tanta, que cada um é conhecido mais pelo seu primeiro nome. São eles Raffaelo Sanzio, mestre de um jogo colorido, encantador, envolvente; e Michelangelo Buonarroti, inexcedível na perfeição do desenho e também polivalente (pintor e escultor) embora um pouco individualista e temperamental, já a caminho do arquétipo do artista romântico. Dois rivais, é certo, que nem sempre sabem jogar em equipa, mas invejados por qualquer treinador de bancada do mundo.

A ESCALAÇÃO (leiam isto à Gabriel Alves ou Rui Tovar e digam-me lá se não fica lindo):


Sanzio Buonarroti

Leonardo

Botticelli Mantegna

Giotto Piero

Verrochio

Brunelleschi

junho 06, 2006

Aniversário

Há exactamente 231 foi inaugurada a estátua equestre de Dom José I, em Lisboa, no dia do 61º aniversário do monarca. Os festejos duraram três dias e foram dos mais grandiosos que a corte já vira até então. E hoje, sem dar pela coincidência, regressei ao capítulo de um livro futuro precisamente sobre este assunto.

Matematicamente

N'A Praia, o Ivan Nunes comenta assim a posta camoniana de aí abaixo:

"É claro que gostoso é uma palavra muitíssimo comum entre nós. Talvez a embirração seja com «gostosa», no sentido de «boazona»: isso, sim, seria uma importação do Brasil. E, na minha impressão, não das mais felizes."

Discordo. Camões sabia o que fazia. Olhemos para a palavra pelo que ela vale. A probabilidade de perdido no Oriente Camões se ter perguntado qual era mais gostosa, se Dinamene se Bárbara, aproxima-se de um. A probabilidade de ter respondido que uma era mais boazona que outra é, matematicamente, zero.

Porquê?

Resposta neo-platónica: o critério aqui não é o da bondade; é o do gosto mesmo.

junho 05, 2006

Em defesa de "gostoso"

No último Câmara Clara (canal 2:, sextas, 22h30), o crítico e professor Abel Barros Baptista contou uma história sobre um taxista (português) que se tinha queixado a um escritor (brasileiro) da contaminação de brasileirismos no português europeu. A palavra que levantava problemas era "gostoso" que também já em tempos a Bomba Inteligente colocara na sua lista de palavras a abater. A implicação é a de que "gostoso" não pertence à língua de Camões.

Chegou pois o momento de resolver o assunto em duas penadas:

uma)

Já que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome esforço e valentia...

duas)

Mil vezes perguntava e mil ouvia
As gostosas batalhas que ali via.

Os Lusíadas, caríssimos. Respectivamente, estrofe 99 do canto IV e 43 do VIII. Nas Rimas e no teatro do glorioso zarolho também não faltarão exemplos. Fica então claro que aquilo que muitos decretam que seja "a língua de Camões" não tem nada a ver com a língua do Camões propriamente dito.

Resta acrescentar que "gostoso" não tem nada de brasileirismo (e se tivesse?). No Norte de Portugal é palavra perfeitamente comum, e sempre foi. Arriscaria a hipótese, aliás, de que foram os nortenhos a implantá-la com tanto sucesso no Brasil.

O problema é que, para muita gente, tudo o que por acaso ou contigência deixou de se usar no dialecto lisboeta deixou de ter direito a ser "português de Portugal". O exemplo mais claro é o do gerúndio, que supostamente os portugueses não utilizariam. E depois fazem um esgar de estranheza quando ouvem os brasileiros (ou os portugueses que não imitam os lisboetas) falar português que até pode ser do mais castiço. Camoniano. E gostoso.

As costas largas de Deus

[do Público, 4 de Junho 2006]

“Onde estava Deus nesses dias? Porque ficou silencioso?” Eis uma questão muito perturbante, desde logo para a doutrina de um Deus omnipresente e omnisciente.


Vai amanhã passar uma semana sobre a visita do Papa ao campo de concentração de Auschwitz. O Papa, que repetiu uma visita já realizada pelo seu antecessor polaco, é alemão. Em muita imprensa, incluindo o Público, o gesto de Ratzinger foi comparado ao de Willy Brandt quando na sua visita à Polónia, em 1970, furou repentinamente o protocolo e se ajoelhou em silêncio junto ao monumento às vitimas do Levantamento do Ghetto de Varsóvia.

Ser Papa só pode ser, com toda a certeza, um dos trabalhos mais fáceis do mundo (logo após, provavelmente, o de Presidente da República Portuguesa). Qualquer pequeníssimo passo do Vaticano, por mais imperceptível ou rotineiro, é sempre noticiado como se fosse a chegada à Lua ou a queda do Muro de Berlim.

Em Auschwitz na semana passada, o ponto alto foi uma interpelação directa, do Papa, a Deus. “Onde estava Deus nesses dias? Porque ficou silencioso?” Eis uma questão muito perturbante, desde logo para a doutrina de um Deus omnipresente e omnisciente. Um agnóstico poderia responder que Deus estava exactamente onde se encontra hoje em dia — e não é no Darfur a impedir a matança. Vinda de um papa, esta pergunta aproxima-se perigosamente de considerar Deus como uma ficção conveniente.

Mas deixemos as alturas da teologia. Naquele lugar morreu mais de um milhão de pessoas, principalmente judeus. A questão que impressiona não é propriamente saber onde estava Deus, mas onde estavam as pessoas nesses dias. Sobre isso, o Papa esclareceu pouco. Vou continuando a traduzir alguns excertos da versão inglesa oficial do seu discurso, disponível no site do Vaticano.

Disse o Papa que estava ali como “filho do povo Alemão, um filho daquele povo sobre o qual um bando de criminosos subiu ao poder... com o resultado de o nosso povo ser usado e abusado como instrumentos deles, da sua sede de destruição e poder”. É uma explicação muitíssimo insatisfatória, bem típica da geração do imediato pós-guerra na Alemanha e na Áustria. Caso a ouvíssemos de outra boca, é bem provável que desse origem a acusações de revisionismo e de ocultação de responsabilidades. O estado nazi foi um “bando de criminosos” e os alemães da época as suas vítimas? Seja, mas vítimas que sobreviveram obedecendo.

E quanto às restantes vítimas? O Papa teve palavras para muitas delas: ciganos, polacos, russos (mas não homossexuais nem ateus comunistas) e, especialmente, judeus. Eis o que disse sobre o genocídio destes últimos: “no fundo, esses criminosos [nazis], ao querer eliminar este povo [judeu], queriam matar o Deus que chamou Abraão, que falou no Sinai... ao destruir Israel através da Shoah, o que em última análise queriam era destruir a fonte da fé Cristã e substituí-la por uma fé da sua invenção: fé na lei do homem, na lei dos poderosos”.

Um homem frio e cerebral como o actual Papa pode considerar esta passagem consoladora. Para os restantes, o que impressiona no holocausto não é que tenham querido matar Deus. Não foi Deus; foi os judeus e outra gente com pais, irmãos e sobrinhos, filhos e filhas, namoradas e amigos.

Mas a passagem torna-se especialmente chocante quando insinua que afinal de contas o cristianismo era o alvo final da barbárie nazi. Repito: “o que em última análise queriam era destruir a fonte da fé Cristã”. É lamentável que o Papa não consiga descer por um momento do egocentrismo cristão e mais lamentável ainda que haja quem pense que o maior favor que se pode fazer às vítimas é considerá-las “a fonte da fé Cristã”. Ratzinger poderia aproveitar para se perguntar se não foi também à “fonte da fé Cristã” que os nazis foram buscar o seu anti-semitismo. Em vez de reescrever a história dos nazis, fazendo-os passar por movimento contra Deus (quando estes, pelo contrário, se afirmavam defensores do cristianismo contra o materialismo judeu-bolchevista), poderia dizer-nos algo sobre onde estava a sua católica Baviera quando nela cresceu o partido Nazi e por que razão Hitler morreu católico uma vez que ninguém no Vaticano se lembrou de o excomungar.

Willy Brandt era um resistente. Fugiu da Alemanha nazi, mudou de nome e esteve várias vezes a um passo de ser preso e enviado para os campos de concentração. Quando se ajoelhou no Ghetto de Varsóvia estava a homenagear outros resistentes, judeus como muitos dos seus companheiros, que tinham pegado em armas para combater o nazismo e sido esmagados.

Willy Brandt era um alemão. Apesar de ter combatido o nazismo, ajoelhou-se em silêncio perante a bárbarie cometida em nome do seu povo. Sem palavras, sem rodeios, sem desculpas. Foi um dos grandes gestos que a história regista de um político.

Não podemos levar a mal o facto de Ratzinger, na sua infância e adolescência durante o nazismo, não ter sido um resistente. Afinal, a maior parte de nós não o somos. Já mais perturbante é que Ratzinger tenha dito, noutra ocasião, que “era impossível ter resistido”. Quer isso dizer que é impossível ter sido como Willy Brandt?

Considerando o seu discurso em Auschwitz, a teoria confere. Mesmo como homem adulto, Ratzinger não é nenhum Willy Brandt.

junho 01, 2006

Lê-me

[publicado na revista Os Meus Livros de Maio]

No passado dia 27 de Março morreu Stanis?aw Lem, escritor e ensaísta polaco de 84 anos de idade. Revolvi as estantes à procura dos livros que tinha dele. Demoraram a aparecer os livros; encontrei os meus doze, treze, catorze anos de idade.
Apareceu A Porta para o Verão, de Robert A. Heinlein [1907-1988], um dos títulos mais felizes que conheço para um livro ágil, caloroso e juvenil. Depois pus as mãos em A Cidade Fantástica, memória da infância e adolescência de Ray Bradbury [1920-]. Enganado pelo título e pela reputação do autor, lembro-me de o ter lido sempre tenso, na expectativa de ver chegar uma invasão de extraterrestres. As coisas fantásticas de que falava o título eram assim: um par de ténis novos, brigar com o irmão mais velho ou uma noite de sábado com sorvete e filme de caubóis. Depois procurei o meu favorito, o clássico checo A Guerra das Salamandras, de Karel ?apek [1890-1938], uma das melhores obras quase desconhecidas da literatura europeia.

Todos estes livros foram publicados na Caminho de Bolso. Estarão vocês lembrados — de quinze em quinze dias saía um policial de capa preta ou um de ficção científica de capa azul? Custavam, se não me engano, 200 escudos. Com os trocados pedinchados à mãe na volta dos recados dava para comprar um por mês. Esperando pelo próximo, relia os anteriores. Os meus dias tinham certamente 36 horas; também me lembro de jogar à bola incessantemente.
Finalmente apareceu a minha colecção de Stanis?aw Lem. Incompleta. Faltam-me dois dos meus favoritos: as Viagens de Ijon Tichy e o Congresso Futurológico, este último hilariante, todo ele decorrido todo entre camadas sucessivas de irrealidade provocadas por fármacos (e indetectadas pelos censores da Polónia comunista); o ponto de partida é um evento académico na Costa Rica, a certa altura vai tudo parar a uma rede de esgotos, não me lembro de mais nada. Amigo desconhecido a quem os terei emprestado num momento de entusiasmo: se estiveres a ler isto, entra em contacto. Preciso desses livros.
O primeiríssimo livro da Caminho de Bolso era de Stanis?aw Lem: Memórias Encontradas numa Banheira. Partia de uma espécie de retroarqueologia do presente pelo futuro que maravilhou o historiador que eu queria ser: e se no futuro, após um cataclismo, sobrasse meio por acaso apenas um livro do nosso tempo, que conclusões sobre nós tirariam os historiadores do futuro? Habituei-me a ir fazendo esse exercício.
Voltei a ler Stanis?aw Lem recentemente. Encontrei-o mais rico e sofisticado do que me lembrava. Biblioteca do Século XXI [ed. Estampa] e A Perfect Vacuum [ed. Northwestern Press, não existe em português] são recensões a livros que nunca existiram — com títulos como Um Minuto da Humanidade ou Sexplosion — um truque de Lem para condensar num conto ideias para livros que não teria tempo para escrever.
Uma nota final: aquele ? cortado de Stanis?aw pronuncia-se como se fosse Stanizuáv. Mas em Lem articulam-se todas as letras. Como quem diz: lê-me, lê-me.