No olho da rua
[do Público de 24 de Junho 2006]
Já fui despedido. Chamaram-me para uma reunião no meio das férias. Não me tinham dito para que era aquilo. Podia até ser uma “coisa boa”, estava na altura de entrar “para o quadro”. Havia um ano novo para preparar e as minhas avaliações tinham sido boas. Quem sabe até se não viria ali uma promoção? Cheguei recapitulando mentalmente o meu desempenho. A gestora chamou-me pelo nome de outro colega e começou por me explicar como tinha dormido mal a noite, como andava tensa, como lhe custava fazer aquilo — e aí eu já só pensava em abreviar-lhe o sofrimento, reconhecer que me encontrava sem emprego, e sair porta fora. Por dentro contestei que ela continuaria dormindo mal, mas com emprego certo. Quando abri a boca foi para perguntar, num fio de voz, o que tinha eu feito mal. Nada, disse-me; tinham simplesmente de despedir gente. Eu era mais fácil de despedir — eu e todos os que não estavam “no quadro”. Na verdade eu nem estava exactamente a ser despedido, uma vez que sempre estivera “a recibos verdes”. Aliás, já era uma delicadeza informarem-me da nova situação; noutros casos de colaboradores menos leais acontecia voltarem de férias e simplesmente não terem trabalho.
Cá fora, no olho da rua, caminhei muito devagarinho. Tinha os pulmões sem ar e uma tontura na cabeça. O que dizer em casa? Como fazer agora?
Ser despedido é um elemento central da consciência contemporânea.
A experiência de ser despedido, o medo de ser despedido, a possibilidade de ser despedido, a vergonha de ter sido despedido: as declinações são numerosas. Como trauma dominante, real ou pressentido, só tem par na experiência do divórcio. Mas ao contrário deste, que é digerido incessantemente pela literatura e pelo cinema, o trauma do despedimento encontra pouco escape cultural. Nos debates sociais da TV, gente de sucesso fala francamente dos seus divórcios: “não deu certo”, esclarecem. Mas o despedimento não permite esta leveza. As pessoas não respondem às outras “não deu certo”; remordem sozinhas “porque falhei?”
Tal como o divórcio e ao contrário das experiências colectivas como a escola (ou outrora o serviço militar), o desemprego atomiza as pessoas. Comigo foram despedidos vários outros — os que estavam “a recibos verdes” — mas eu não sei quem eram, não os conheço e tampouco isto é assunto de conversa que se tenha. O despedimento é o pecado original. Eu mesmo me perguntei se poderia escrever aqui que fora despedido. O que pensarão os potenciais empregadores? Não haverá algo de errado com quem já foi despedido?
Por estas semanas em Portugal, este monte Calvário ganhou o nome e a localização de Azambuja — onde a General Motors ameaça fechar a sua fábrica da Opel Portugal. Essa decisão terá efeitos de uma tal dimensão que todo o país se sente, de certa forma, despedido. E, em consequência, o país pergunta “porque falhou”.
Aqui entram em acção as lógicas circulares do discurso a que se convencionou chamar de “neoliberal”. As respostas que ele dá, contudo, trazem pouca novidade e não têm a dignidade do pensamento liberal; quando muito, limitam-se a justificar apenas uma espécie de habituação acrítica à acção “das empresas”, detentoras de um poder caprichoso e arbitrário tão mágico e intangível como em tempos foi o dos senhores feudais. Este é “o preço que Portugal paga à globalização”, nas palavras de Basílio Horta. Mas esta explicação explica bem pouca coisa, não é verdade? É vulgarmente subentendido que o preço que Portugal paga à globalização é que os empregos fujam para onde há salários mais baixos. Mas a Opel Portugal vai fugir para Espanha, onde os salários são mais altos. É também dito que Portugal tem o problema grave de “aqui ser difícil despedir gente”. Porém e pelos vistos, isso não mete medo à General Motors.
O discurso dominante usa justificações tão iguais para coisas tão opostas que se torna imprestável. O “preço que Portugal paga à globalização” de Basílio Horta é como o preço que os cônjuges pagavam ao casamento na época vitoriana: era para toda a vida e o marido deveria ser agarrado e mantido estoicamente pela esposa. Se no casamento é comum os cônjuges atirarem as culpas, aqui o culpado já está encontrado: Portugal não soube agarrar e manter a GM. Portugal é pouco atractivo, é pouco competitivo, é pouco prendado. Como qualquer abandonado, Portugal mergulha em mais uma das suas fossas de auto-crítica.
Todos se perguntam, pois, qual é o problema de Portugal. Ninguém se pergunta qual é o problema da GM. O nosso Ministro da Economia diz que a GM “está a viver um momento difícil”. Tem de reduzir os custos em 30% — porque foi mal gerida — mas por um daqueles mistérios da fé nunca se ouviu uma GM em dificuldades dizer “vamos baixar os salários dos nossos administradores e executivos”, seria ridículo. Tem de despedir 30 mil trabalhadores, que poderiam ser de Azambuja como de outro lugar qualquer (que agora se estaria a perguntar sobre a sua falta de competitividade).
Sejamos compreensivos com a GM. Ela está lá longe com o seu “momento difícil”; para falar a verdade, nós nem sabemos bem quem a GM é. Os donos da GM são os seus accionistas. Mas eles não são juridicamente responsáveis pela conduta da GM; verão apenas baixar o valor das suas acções, isto se as quiserem manter. Acima de tudo, o fio que os une aos seus trabalhadores da Azambuja é ténue, remoto e, para falar a verdade, interrompido por uma ficção jurídica. Que, como tantas coisas de que o discurso “neoliberal” depende, não tem nada a ver com mercado livre. É completamente artificial: uma pura concessão do Estado.

