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As costas largas de Deus

[do Público, 4 de Junho 2006]

“Onde estava Deus nesses dias? Porque ficou silencioso?” Eis uma questão muito perturbante, desde logo para a doutrina de um Deus omnipresente e omnisciente.


Vai amanhã passar uma semana sobre a visita do Papa ao campo de concentração de Auschwitz. O Papa, que repetiu uma visita já realizada pelo seu antecessor polaco, é alemão. Em muita imprensa, incluindo o Público, o gesto de Ratzinger foi comparado ao de Willy Brandt quando na sua visita à Polónia, em 1970, furou repentinamente o protocolo e se ajoelhou em silêncio junto ao monumento às vitimas do Levantamento do Ghetto de Varsóvia.

Ser Papa só pode ser, com toda a certeza, um dos trabalhos mais fáceis do mundo (logo após, provavelmente, o de Presidente da República Portuguesa). Qualquer pequeníssimo passo do Vaticano, por mais imperceptível ou rotineiro, é sempre noticiado como se fosse a chegada à Lua ou a queda do Muro de Berlim.

Em Auschwitz na semana passada, o ponto alto foi uma interpelação directa, do Papa, a Deus. “Onde estava Deus nesses dias? Porque ficou silencioso?” Eis uma questão muito perturbante, desde logo para a doutrina de um Deus omnipresente e omnisciente. Um agnóstico poderia responder que Deus estava exactamente onde se encontra hoje em dia — e não é no Darfur a impedir a matança. Vinda de um papa, esta pergunta aproxima-se perigosamente de considerar Deus como uma ficção conveniente.

Mas deixemos as alturas da teologia. Naquele lugar morreu mais de um milhão de pessoas, principalmente judeus. A questão que impressiona não é propriamente saber onde estava Deus, mas onde estavam as pessoas nesses dias. Sobre isso, o Papa esclareceu pouco. Vou continuando a traduzir alguns excertos da versão inglesa oficial do seu discurso, disponível no site do Vaticano.

Disse o Papa que estava ali como “filho do povo Alemão, um filho daquele povo sobre o qual um bando de criminosos subiu ao poder... com o resultado de o nosso povo ser usado e abusado como instrumentos deles, da sua sede de destruição e poder”. É uma explicação muitíssimo insatisfatória, bem típica da geração do imediato pós-guerra na Alemanha e na Áustria. Caso a ouvíssemos de outra boca, é bem provável que desse origem a acusações de revisionismo e de ocultação de responsabilidades. O estado nazi foi um “bando de criminosos” e os alemães da época as suas vítimas? Seja, mas vítimas que sobreviveram obedecendo.

E quanto às restantes vítimas? O Papa teve palavras para muitas delas: ciganos, polacos, russos (mas não homossexuais nem ateus comunistas) e, especialmente, judeus. Eis o que disse sobre o genocídio destes últimos: “no fundo, esses criminosos [nazis], ao querer eliminar este povo [judeu], queriam matar o Deus que chamou Abraão, que falou no Sinai... ao destruir Israel através da Shoah, o que em última análise queriam era destruir a fonte da fé Cristã e substituí-la por uma fé da sua invenção: fé na lei do homem, na lei dos poderosos”.

Um homem frio e cerebral como o actual Papa pode considerar esta passagem consoladora. Para os restantes, o que impressiona no holocausto não é que tenham querido matar Deus. Não foi Deus; foi os judeus e outra gente com pais, irmãos e sobrinhos, filhos e filhas, namoradas e amigos.

Mas a passagem torna-se especialmente chocante quando insinua que afinal de contas o cristianismo era o alvo final da barbárie nazi. Repito: “o que em última análise queriam era destruir a fonte da fé Cristã”. É lamentável que o Papa não consiga descer por um momento do egocentrismo cristão e mais lamentável ainda que haja quem pense que o maior favor que se pode fazer às vítimas é considerá-las “a fonte da fé Cristã”. Ratzinger poderia aproveitar para se perguntar se não foi também à “fonte da fé Cristã” que os nazis foram buscar o seu anti-semitismo. Em vez de reescrever a história dos nazis, fazendo-os passar por movimento contra Deus (quando estes, pelo contrário, se afirmavam defensores do cristianismo contra o materialismo judeu-bolchevista), poderia dizer-nos algo sobre onde estava a sua católica Baviera quando nela cresceu o partido Nazi e por que razão Hitler morreu católico uma vez que ninguém no Vaticano se lembrou de o excomungar.

Willy Brandt era um resistente. Fugiu da Alemanha nazi, mudou de nome e esteve várias vezes a um passo de ser preso e enviado para os campos de concentração. Quando se ajoelhou no Ghetto de Varsóvia estava a homenagear outros resistentes, judeus como muitos dos seus companheiros, que tinham pegado em armas para combater o nazismo e sido esmagados.

Willy Brandt era um alemão. Apesar de ter combatido o nazismo, ajoelhou-se em silêncio perante a bárbarie cometida em nome do seu povo. Sem palavras, sem rodeios, sem desculpas. Foi um dos grandes gestos que a história regista de um político.

Não podemos levar a mal o facto de Ratzinger, na sua infância e adolescência durante o nazismo, não ter sido um resistente. Afinal, a maior parte de nós não o somos. Já mais perturbante é que Ratzinger tenha dito, noutra ocasião, que “era impossível ter resistido”. Quer isso dizer que é impossível ter sido como Willy Brandt?

Considerando o seu discurso em Auschwitz, a teoria confere. Mesmo como homem adulto, Ratzinger não é nenhum Willy Brandt.

Comments

Deixa-me só acrescentar, além da chegada do homem á Lua e á queda do muro de Berlim... a preparação da Selecção A em Évora.

Caro Rui,

O Papa comeca por dizer: "The rulers of the Third Reich wanted to crush the entire Jewish people, to cancel it from the register of the peoples of the earth" A que se junta mais tarde a passagem "...They would stir our hearts profoundly if we remembered the victims not merely in general, but rather saw the faces of the individual persons who ended up here in this abyss of terror". Penso que esta bem claro a identificacao e a individualizaçao das vitimas.

Quanto à contribuição do cristianismo para o nazismo ela é cirscunstancial. Como sabe o nazismo baseou-se em mecanismos da religião e da fé (e bebeu claro do cristianismo como a religião local). Bem cedo o nazismo substituiu a antiga religião e foi precisamente o afastamento e a alienação do cristianismo e da moral cristã que permitiu o que aconteceu.

Não sou eu que o digo, nem é ideia original do papa. Recomendo o livro "the third reich" de Michael Burleigh (2000) - prémio Samuel Johnson para não ficção 2001.

http://www.amazon.co.uk/exec/obidos/ASIN/0330487574/203-9687064-8795114

Cps.

Já o li o «The Third Reich» e não tirei as conclusões a que o Daniel chega. Infelizmente a maioria dos «carneiros» preocupa-se demasiado com a sua «identidade» e o seu grupinho para sequer chegarem a considerar a sua própria humanidade...

De qq maneira o mm tópico foi coberto aqui, por um alemão radicado nos EUA, autor de dois livros sobre o assunto (a cumplicidade do povo alemão): http://www.latimes.com/news/opinion/commentary/la-oe-goldhagen31may31,0,5512262.story?coll=la-home-commentary

Das palavras do Papa: pura e súbtil manipulação. Procura-se a cristianização do holocausto.

Para quando o Vaticano devolve aos familiares, o dinheiro depositado por judeus mortos na shoah nos bancos da Santa Sé?

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