" /> Pobre e Mal Agradecido: maio 2006 Archives

« abril 2006 | Main | junho 2006 »

maio 29, 2006

As carpideiras

[do Público de 26 de Maio]

É um anseio mórbido, como torcer por Leôncio a cada episódio de A Escrava Isaura. Também eu gostaria que se atacassem os clássicos para me poder erguer e, tonitruante, me declarar o último e mais sincero defensor dos clássicos.

Na passada quinta a Casa Fernando Pessoa organizou uma sessão dedicada ao tema “Os Clássicos devem ou não ser estudados na Escola?”. Para discutir o assunto estavam na mesa Vasco Graça Moura, Maria Filomena Mónica, Clara Ferreira Alves — além do moderador Carlos Vaz Marques, o escritor Gonçalo M. Tavares (que não é meu primo) e o editor Guilherme Valente, que também participou vivamente no debate. Todos os oradores, sem excepção, defenderam o dever de se estudar os Clássicos na escola. Diferenças apenas houve de método, ou de definição do conceito de clássico, ou da necessidade de um “cânone” de autores: Vasco Graça Moura abriu uma excepção para o inquilino da casa, Fernando Pessoa, ao passo que Filomena Mónica recusou terminantemente que se ensinassem autores do século XX.

Na sala cheia toda a gente estava a favor dos clássicos; gerou-se o consenso de que o melhor método para ensinar os clássicos era o que cada um defendia, e que o dos outros era provavelmente desastroso.

E ainda estou para compreender como é que um debate tão uniforme gera paixões tão diversas: a dada altura Filomena Mónica sugeriu sotto voce que talvez que a única solução fosse a de fuzilar os professores e começar tudo de novo, e os membros da associação de professores abandonaram a sala antes que a oradora tivesse a possibilidade de lhes fazer o que Ahmadinejad gostaria de fazer aos israelitas.

Eu juro que um dia gostaria de ver alguém, num destes debates, fulminar contra o ensino dos clássicos. É um anseio mórbido, um pouco equivalente ao de querer que o vilão destrua num golpe seco o galã, num filme americano, ou de torcer por Leôncio a cada episódio de A Escrava Isaura — esse clássico da telenovela brasileira —. Espero por esse momento de clímax satânico mas rapidamente me vergo à realidade. Também eu sou a favor de que se tratem bem as velhinhas. Também eu sou a favor de que se conduza com cuidado. E também eu, o fraco, o caixa-de-óculos, o rato de biblioteca, sou a favor de que se ensinem os clássicos. Acima de tudo, também eu gostaria que se atacassem os clássicos para me poder erguer e, tonitruante, me declarar o último e mais sincero defensor dos clássicos. Mas a última vez que alguém desprezou os clássicos neste país foi, desgraçadamente, um clássico (morreu em 1900, portanto entra por uma unha negra no cânone): Eça de Queirós, em A Cidade e as Serras (“Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a Ilíada”, como bem lembrou Graça Moura).

E, por isso, quando me levantei para falar só fui capaz de debitar a lista de clássicos que estudámos na minha Escola Secundária em finais da década de 80, numa escola pública que nunca entrou sequer na 200 melhores do ranking e em plena terra queimada dos “filhos de Rousseau”: o cancioneiro galaico-português, Fernão Lopes, Gil Vicente, a Tragédia Castro, a lírica e a épica camoniana, a parenética vieiriana e por aí adiante até Herculano, Garrett, Camilo, Eça e — ai de nós — Fernando Pessoa. Pelo menos estes, quem quis aprender aprendeu. Faltaram os clássicos de outras línguas ou até da nossa própria: se Machado de Assis fosse ensinado nas nossas escolas já os Pedro Santana Lopes não precisariam de escrever cartas de agradecimento ao já bem morto e enterrado escritor brasileiro.

De nada vale, contudo, escrever num jornal que sim se ensinam os clássicos na escola: os jornais, os colunistas de jornais, os leitores de jornais, os directores de jornais já sabem que não é verdade. Sentem que são os últimos dinossáurios. A élite portuguesa está plenamente convencida de que na escola se ensina a jogar playstation. Nenhuma informação em contrário penetrará nessa barreira ideológica, social, cognitiva. Pergunto se não será esse mesmo ciclo a definição de um estado falhado que pretendemos todos evitar: aquele que se recusa a identificar os sinais da sua progressão, a aprender com eles e a fazer por reforçá-los?

Ficamos assim condenados a começar do zero, a anunciar a descoberta da pólvora em cada artigo, a uma declaração permanente da morte da escola democrática. Ficamos assim condenados a um lugar-comum que vem da Antiguidade Clássica: carpir os clássicos. Mas atenção que as carpideiras são, regra geral, os piores inimigos do defunto. Enquanto se esforçam por mostrar que sofrem mais do que os outros pela sua morte, é como se o matassem pela segunda vez. Nenhum adolescente passou a gostar da tia-avó desta maneira. Os verdadeiros amigos estão no bar a contar as histórias do morto. Enquanto continuarem a fazê-lo, ele ainda não morreu de vez.

maio 24, 2006

Les copains d'abord


Théodore Géricault, Cena de motim na Jangada do «Méduse», esboço para o quadro do Louvre.

Não, não era a Jangada do Medusa aquele barco que dizem ter naufragado. Chamava-se Barnabé, a tripulação salvou-se inteirinha e segue na faina. A amizade ainda é a sua bússola.

O mais recente a fazer-se ao mar é o Daniel Oliveira, que agora navega em solitário, sobre a grande maré da blogosfera, no seu Arrastão. Foi sempre um dos corsários mais temidos, e por isso mais atacado. Tremei, que ele voltou.

maio 22, 2006

Consolado

Cheguei a acordo com o Público para duplicar a minha coluna dos sábados aqui no blogue. A coluna do último sábado já está disponível aí abaixo, as outras seguirão regularmente às segundas.

Isto obriga a algumas mudanças. Este blogue foi planeado como página de apoio ao Pequeno Livro do Grande Terramoto e servindo, em primeiro lugar, o meu trabalho como historiador. Tratava-se de um blogue discreto, que já existia desde antes dos tempos do Barnabé para facilitar a comunicação com os que então eram meus alunos.

Entretanto saiu outro livro, o Pobre e Mal Agradecido. Por não ser um livro de história (embora tenha ensaios, entre outros, de história da arte) e por falta de tempo, não lhe dei até agora a atenção que (como a um fiilho mais novo) lhe devia. E entretanto saiu a tradução do Cândido, que não sendo propriamente filho meu, também merecia algum carinho.

O ideal, na minha perspectiva, seria manter a separação entre o blogue de historiador e o blogue de assuntos correntes. Mas por razões de tempo já me tem sido difícil manter um blogue, quanto mais dois, de forma que irei juntando por aqui todo o meu material, tentando identificá-lo (e distingui-lo) pelo sistema de categorias. Brevemente haverá outra coluna que também virá aqui parar. E há outras coisas a caminho.

Para adaptar o blogue a estas mudanças, o nome vai mudar, o conteúdo e o grafismo também vão levar uns toques. E as actualizações serão mais frequentes. Espero. Pelo menos não haverá estes buracos de mais de um mês sem textos novos.

Na verdade, continuo a não poder blogar. Aquilo a que se chama verdadeiramente blogar implica escrever todos os dias (ou quase), estar em cima dos acontecimentos ou (pelo contrário) atento a si mesmo, replicar, treplicar e comentar.

Mas como prémio de consolação sempre dá para ir mantendo este meu consulado honorário na blogosfera.

Ter algo a perder

[da coluna do Público, 20 maio 2006]

Quando se acha que não há nada a perder, muda a racionalidade, mudam as emoções, muda a moral da história e muda o peso da ética. O crime não compensa? Comparado com a miséria compensa. Comparado com a pobreza engana.

Tal como cada brasileiro é - ou julga ser - um especialista instantâneo em insegurança, não há quase português que não se tome por especialista em Brasil. No Brasil, a experiência da violência está muito longe de ser permanente; o discurso sobre ela sim. Toda a gente tem a sua manha para contar, o seu conselho sobre vestuário, a sua rotina mecanizada para contornar a violência. Este discurso chega a Portugal e transforma-se numa mercadoria de opinião; com quinze dias em Jericoacoara, os portugueses já sabem mais sobre o Brasil do que Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda alguma vez imaginaram. Na televisão, os comentadores repetem pela enésima vez o mito da inexistência da classe média brasileira. Cansaço.

Confesso que estas duas condições são, para mim, um empecilho. Por razões familiares, profissionais e pessoais tenho vindo a conhecer razoavelmente o Brasil, várias regiões dele. Quanto mais vou conhecendo, mais temeroso fico de emitir opinião. Fique então assente que este não é um texto sobre o Brasil, mas sobre acontecimentos humanos que, por circunstância, se deram durante esta semana em São Paulo, capital, e no restante estado do mesmo nome.


Quanto à insegurança, apenas um conselho me serviu mais do que todos. No meu primeiro dia de Brasil explicaram-me que - ao contrário do que eu poderia estar habituado - em nenhuma circunstância deveria tentar a sorte de resistir a um assaltante. A razão era que o assaltante não tem nada a perder. O seu horizonte, de qualquer jeito, é morrer novo. Pode morrer aos 25 num tiroteio entre bandos ou com uma bala perdida; pode morrer de overdose na rua ou infectado pelo HIV numa cadeia. Na verdade, para ele, ser condenado a uma pena de cinco anos por assalto à mão armada ou de dez por um assassinato (o meu) não seria assim tão diferente, tendo em conta as condições da cadeia e as probabilidades de sair de lá. Mesmo que assim não fosse, ele acreditava que assim era; quase toda a gente acredita. E isso basta para alterar o processo de escolha.


Quando se acha que não há nada a perder, muda a racionalidade, mudam as emoções, muda a moral da história e muda o peso da ética.


Os motins desta semana em São Paulo têm, a meus olhos, a marca inconfundível deste raciocínio. Note-se que, ao contrário do que se possa pensar, motins deste género são uma completa novidade no Brasil recente. O Brasil tem violência endémica (incluindo policial), tem criminalidade bastante sofisticada, mas não tinha tido até agora motins urbanos deste género. A diferença começa a fazer-se quando juntamos a lógica do motim urbano - como os de Los Angeles ou de Paris - ao pressuposto inicial de não haver nada a perder. Aliás, se pensarmos bem é fácil verificar a correlação entre uma coisa e outra ao avaliar as consequências de cada motim. Em Paris 2005, queimaram-se carros, em Los Angeles 1992, espancou-se e matou-se mais de 50 pessoas, em São Paulo 2006, mataram-se talvez mais de 200. Reparem no que isto nos diz acerca de até onde os actores no terreno (tipicamente, jovens homens desfavorecidos) estão dispostos a ir sem deitar a perder o que consideram essencial.


Também por isso, a polícia paulistana começou a disparar para matar, numa espécie de execução à morte tácita que a lei do país não admite. A lógica é a de que talvez só dando a vida a perder aos criminosos a dissuasão policial possa ser suficiente.


Um terceiro aspecto novo tem que ver com a organização centralizada dos motins, a partir do Primeiro Comando da Capital. Nos últimos dias, surgiram histórias mirabolantes sobre o PCC: desde que a organização queria entrar na política até que pagava os estudos a alguns membros para poder ter os seus próprios advogados. Não se sabe se há verdade nisto. Certo é que o PCC protege os seus membros na rentável vida criminosa e lhes dá uma plataforma de reivindicação quando estão presos. O crime não compensa? Comparado com a miséria compensa. Comparado com a pobreza engana.


O espaço escasseia e até aqui tenho pensado apenas nos operacionais do motim, na arraia-miúda do PCC. É que, no fundamental, uma organização activa só existe pela aquiescência da sua base, seja ela empenhada, tácita, ou forçada. É por isso que, mais importante do que saber porque é que Bin Laden sonha com o califado universal, é essencial saber como é que ele consegue recrutar gente que pode ou não ter os mesmos sonhos do que ele. De resto, mesmo o mais poderoso dos líderes é sempre prisioneiro da sua própria organização. Assim também Marcos Camacho, o Marcola, não me interessa como líder do PCC, mas por duas razões novas e interligadas: a cadeia e o telemóvel.


Quando se tentava controlar a máfia de Chicago, o objectivo principal era prender Al Capone. Mas em São Paulo, paradoxalmente, isso não resolve nada: Marcola já está preso. Como se sabe, o comando do PCC dá ordens por telemóvel a partir da cadeia, o que é uma subversão da ideia de cadeia pela tecnologia. Em qualquer história dos media do futuro terá de se citar a frase desta semana, segundo a qual um telemóvel numa cadeia mata mais do que dez fuzis.


As autoridades prisionais devem, então, trocar telemóveis pelas televisões por que os presos anseiam para ver o Mundial de futebol. Dar-lhes qualquer coisa a ganhar para eles terem qualquer coisa a perder. Quando se tem uma televisão, a televisão pode ser-nos tirada. Quando se está numa cela com dezenas de outros homens, até ir para a solitária perde o significado.

[Público, 20 maio 2006]